Além da técnica e da criação! Como estilistas e ditadores de tendência estão se adaptando ao novo ritmo do mundo da moda

Larissa Silveira
Especial*

Era uma vez uma estilista. Poderíamos chamá-la de Gloria, Lenny, Mara; ou de algum nome da nova geração, como Paula, Juliana, Cris. Era uma vez uma estilista que fazia duas coleções por ano, se limitava a um desfile por temporada na São Paulo Fashion Week (ou no extinto Fashion Rio), um preview para a imprensa e um catálogo para compradores. Na internet, no máximo um site oficial. Ela fazia viagens anuais às grandes feiras têxteis na Europa e até mesmo no Brasil, assinava um bureau de tendências e trabalhava – por horas, horas e mais horas – dentro de seu ateliê. Em frente a uma mesa, talvez um vaso de flores, algumas revistas. No fim do dia, seu trabalho era como o de qualquer administrador de empresas, advogado, gerente de banco; no fim do dia, era só mais um trabalho. Horário para entrar, horário para sair, café na térmica e prazos curtos. Visitas a exposições, novos restaurantes, novos lugares, só no final de semana _ e com o mero intuito de se entreter, encontrar amigos. Era uma vez uma moda feita dentro de quatro paredes e em horário comercial.

Essa estilista já era: se perdeu, pluft, evaporou – ou foi engolida pelos novos tempos.

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Não, não que a carreira de criadoras que começaram sua trajetória à la mode antes da virada dos anos 2000 (2005, vai) tenha ido pelo ralo: elas simplesmente se reinventaram. A notícia que trago é que a moda como a gente conhecia não existe mais – e talvez a ideia que seja vendida dentro das universidades, cursos especializantes (e até mesmo no imaginário coletivo) esteja completamente desatualizada. A nova estilista é multifacetada, praticamente uma maratonista do tempo, e em nada se assemelha ao tão recente passado. Até porque, se continuar seguindo a mesma fórmula de antes, será engolida por gente menos talentosa, menos estudada, mas com um número infinitamente maior de seguidores no Instagram.

É triste (será que é mesmo?), mas é verdade: hoje em dia, trazer sucesso para uma marca _ seja ela de roupas, joias, acessórios ou até comida _ vai muito além da criação, da técnica e da matéria-prima. É preciso dominar as redes sociais on e offline; e isso significa saber o filtro certo e a legenda certa para um post no Instagram, bem como buscar inspiração em musas anônimas que passam na rua, no supermercado, na farmácia. É preciso saber com quem se relacionar. Para quem enviar um look primeiro (de blogueiras a editoras, de clientes a amigas). E, acima de tudo, saber o que o público quer.

Nas próximas páginas desta revista, você descobrirá um pouco do universo de duas mulheres-estilistas-empreendedoras de gerações, públicos e propostas diferentes; mas ambas com o mesmo know-how essencial para sobreviver nos tempos atuais (com ou sem crise). Estou falando da gaúcha Helen Rödel e seu tricô inigualável; e da alagoana Martha Medeiros e suas rendas cheias de romance.

Velhos conceitos, novas necessidades

Quando falo sobre estilistas que não se adaptaram às novas exigências do mercado, também me refiro àqueles que formam estes profissionais – além de você, jovem adulto, que quer perseguir uma carreira na moda. E posso falar isso com propriedade: já fui uma dessas pessoas, que se sentava em uma cadeira todas as noites para assistir a uma apresentação no Power Point. Hoje em dia, a moda é negócio, inovação, comunicação, budget e, para quem se dá o luxo, arte.

Explico: para que um vestido chegue à vitrine de uma loja em um grande shopping, o caminho é muito mais complexo e cheio de desvios do que simplesmente criar, fazer um desenho técnico, mandar para a fábrica, aprovar, desfilar e pendurar no cabide. A começar pela inspiração: são poucas as grifes que podem _ e conseguem _ criar uma tendência sem tê-la copiado de outra marca. Primeiro, porque são pouquíssimos os designers que estão no topo da pirâmide de trend setting; segundo, porque são menos ainda aqueles que têm o orçamento e a estrutura para transformar uma ideia mirabolante em realidade (e tendência, e fenômeno de vendas).

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Um exemplo recente? A mudança de status das pérolas. Sim, das pérolas, que há não muito ainda eram consideradas sinônimo de guarda-roupa de vovó (e até de caretice) para se tornarem item obrigatório – de preferência, em brincos e colares com uma bolinha maior, outra menor – na gaveta de bijoux de mulheres de todas as idades. Ah, vai dizer que você não aderiu à tendência também? O responsável por este fenômeno, que virou onipresente tanto no high paulistano quanto nas lojinhas da Voluntários da Pátria, tem nome e sobrenome: Raf Simons, o belga que revolucionou a Dior após a saída de John Galliano e elevou a maison para o posto de criadora de hits absoluta (algo como o Michael Jackson da moda, sempre no topo das paradas).

Diferente do que é ensinado nas universidades _ mas aparece nos pequenos e raros cursos de cool hunting –, a inspiração já não pode mais vir só dos relatórios de tendência. Hoje em dia, um bom estilista – ou repórter, stylist, editor – tem que olhar para fora da janela e para dentro da timeline 24 horas por dia. Em meio à crise, então, nem se fala; mais do que nunca, a roda da moda gira em outra direção. Sinto informar, caro estudante de moda, mas para sobreviver em um mercado tão hostil e competitivo é preciso dar o que (e quem) o público quer, e não o contrário. Na prática, podemos citar o uso de celebridades, modelos, atrizes e blogueiras (não há mais como negar tal força) como verdadeiras embaixadoras de marcas, coisa que marcas brasileiras fazem muito bem. Por isso também existem tantas coleções inspiradas em (suspiro de tédio) festivais de música: todo ano eles acontecem, todo ano eles reúnem milhares de pessoas, todo ano estas pessoas querem se vestir como se estivessem em Woodstock. Ou seja, a ideia vende – e muito.

Mas existem também aqueles que conseguem chegar em um meio-termo entre o que o comercial manda e o que o estilo quer.

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As donnas da roda

Conheça cinco mulheres que reinventam a maneira como se faz, se vê e se produz moda.

1. Costanza Pascolato

Apesar de seus muito bem vividos 76 anos, Costanza é uma das mulheres que melhor se adaptaram ao novo momento da moda brasileira. Pode até ser que, entre as décadas de 1970 e 1980, ela não fosse tão moderna assim – como a amiga e colega de profissão Regina Guerreiro não hesita em esconder, naquela época a papisa da moda era muito mais tradicional e certinha do que é hoje. “Ela é sangue azul, e eu sou rosa-shocking. Hoje ela é muito mais ousada do que era antes”, declarou Guerreiro em entrevista recente. Fato é que, hoje, com seus cerca de 230 mil seguidores no Instagram – lugar onde posta fotos de paisagens belas, animais fofinhos e, claro, moda –, um canal no YouTube, um site oficial, sua coluna na Vogue e a rotina diária na sua Santaconstancia, Costanza é, mais do que nunca, um fenômeno.

Em 2007 o fenômeno das blogueiras ganhava admiradores na mesma proporção que adquiria críticos, que viam esta como uma vida fácil. Indo contra a correnteza, Costanza foi uma das primeiras autoriades da moda brasileira a se posicionar abertamente a favor dos blogs (em tempo: sua filha, Consuelo Blocker, é blogueira). “Hoje não exste mais aquela coisa de viver [do salário] do marido. Tem que batalhar”, disparou em entrevista recente com Thassia Naves, cujo profissionalismo é abertamente admirado pela consultora de moda. Mas apoiar o movimento dos blogs é só uma de suas muitas facetas fashionistas: Costanza já assinou coleções de acessórios (a mais recente foi para a Capodarte, onde criou uma edição limitada de bolsas) e acaba de lançar um livro de colorir, Meu Caderno de Estampas (Planeta do Brasil. R$ 34,90). Prova viva de que, de estilistas a jornalistas, nem mesmo quem já está com a vida “ganha” na moda pode deixar de se reinventar. E mesmo sendo pouco adepta das selfies – “Nunca consigo acertar”, brinca –, não é raro vê-la fazendo caras e bocas para posar ao lado de amigos, fãs e, claro, bloggers. Na fila A dos desfiles da São Paulo Fashion Week, onde Costanza é habituée, o tamanho das filas para tirar uma foto ao seu lado quase ultrapassa o limite do bom senso. Novos ossos do ofício.

2. Izabel Goulart

A top brasileira e ex-angel da Victoria’s Secret está no time de modelos que conseguiram triplicar seus lucros e oportunidades de trabalho usando a força das redes sociais (só no Instagram, ela contabiliza mais de 2 milhões de seguidores). No mundo online, aliás, todo movimento é friamente calculado: da pose ao filtro, tudo é milimetricamente controlado por Iza, que compartilha detalhes de sua vida (a parte glamorosa, pelo menos) em um diálogo direto com os fãs. O resultado disso? Ela passou a acrescentar no currículo o título de musa fitness com seu projeto #BodyByIza, onde compartilha sua rígida rotina de exercícios; de blogueira, recebendo presentes e até dinheiro para postar fotos de seus looks nas redes sociais; de celebridade, ao receber pagamentos de pelo menos quatro dígitos para comparecer a eventos (e postar em seus perfis na Internet, é claro); e de atleta, recebendo patrocínio da Nike para treinar ao lado de profissionais como a triatleta Fernanda Keller. Isso sem falar nos trabalhos rotineiros da vida de uma modelo – posar para campanhas, editoriais e desfilar nas passarelas mais importantes do mundo.

3. Charlotte Olympia

Se você ainda não conhece o trabalho de Charlotte Olympia, anote no caderninho e pesquise sobre ela o mais rápido possível. Filha da carioquíssima Andrea Dellal, Charlotte é meio brasileira, meio britânica, e levou para Londres (seu lar há anos) toda a bossa e alegria do Rio de Janeiro – transformando-se rapidamente em uma das designers de sapatos mais relevantes da moda contemporânea. Sua marca registrada? Sandálias de saltos altíssimos, clutches divertidas e escarpins que vestem uma Carmen moderna. Mas a grife ganha ainda mais força pelo fato de que poderia ter parado nos sapatos – que vestem Taylor Swift, Sofia Vergara, Beyoncé e Dita Von Teese, para citar algumas –, mas optou por ter o céu como limite. Só em 2015, a Charlotte Olympia já celebra duas parcerias de nível global: a primeira, uma linha de chinelos e toalhas com a Havaianas, passa a ser vendida só em abril do ano que vem, mas já causa furor entre clientes fashionistas que querem levar o glamour da marca para a beira da praia. A segunda é nada menos que uma linha completa de produtos beleza (do batom ao esmalte) com a MAC. Com previsão de lançamento para março de 2016, a parceria é uma das maiores apostas da gigante de cosméticos _ mas como uma marca de sapatos chega ao ponto de criar uma coleção de beauté? Simples: ela conseguiu disseminar um DNA tão forte através do estilo único de sua criadora (que utiliza as redes sociais para promover a si e à label), que incontrolavelmente cirou uma imagem fashionista, com cabelo, lábios, cintura de pilão e saltos altíssimo no inconsciente coletivo. E suas clientes sabem exatamente o que esperar destas – e quaisquer – colaborações.

4. Helena Bordon

Helena Bordon tinha tudo para virar uma mera socialite. Nascida em uma família tradicional de São Paulo, é filha de Donata Meirelles (ex-Daslu, atual diretora de estilo da Vogue Brasil) e tem, desde pequenina, acesso às melhores e mais valiosas grifes do mundo. Por que se dar o trabalho de ir à luta, então? Assim como mencionamos o recado de Costanza Pascolato anteriormente, o conceito de viver às custas dos outros já não existe mais. Pelo menos não para quem quer ser alguém na moda.

Heleninha teve uma trajetória pouco normal: desde a pré-adolescência, já tinha seu estilo observado por editores de moda do Brasil todo, exibindo sempre looks de bom gosto impecável com algum detalhe ousado (e exclusivo). Ao atingir os 20 e poucos anos, voltou a circular nas semanas de moda internacionais – Paris, Nova York, Londres, Milão – e levar para o hemisfério norte o estilo que a transformou em it girl por aqui. No começo, dizem, ela levou o fotógrafo/stylist Lee Oliveira, amigo pessoal e colaborador do jornal The New York Times, para acompanhá-la em viagens. Lá, sua função era gritar seu apelido com toda a força dos pulmões – “Heleninha! Heleninha!” – na saída dos desfiles, fazendo com que a multidão de fotógrafos de street style ansiassem por uma foto desta pessoa famosa (que eles não tinham ideia de quem era). Se a história é verdade ou não é, nunca saberemos, mas que a ideia é genial, é: tanto que, caso tenha realmente acontecido, funcionou. Hoje, Helena contabiliza 618 mil seguidores no Instagram, tem um site oficial – com direito blog e redação –, estampa as páginas das revistas mais importantes do mundo e figura sempre nas listas de influenciadoras no meio digital. Fora isso, o tino para transformar sua imagem em moda (e lucro), a transforma também em uma empresária de sucesso. Além de ter criado, ao lado de Bernardino, Luciana e Marcella Tranchesi (terceira geração Daslu), a marca 284, Heleninha voou solo – e alto. Já assinou coleções para a Bobstore, Martha Medeiros, Lool e MyShoes, para citar algumas, e lança sua marca de óculos de sol, a By Helena Bordon, em outubro deste ano. Até lá, o número de seguidores, fãs e clientes só tende a crescer.

5. Giovanna Antonelli

Pode parecer estranho haver uma atriz global em meio a uma série de estilistas, modelos e blogueiras. Mas Giovanna Antonelli é do tipo de pessoa que tudo em que toca vira ouro – ou melhor: tendência. Na vida real, Gio carrega um estilo elegante, despojado e compatível com o estilo de vida das mulheres brasileiras. Mas não são as roupas fotografadas pelos paparazzi do Leblon que a transformam nessa potência fashionista, e sim seu talento (e empatia) na televisão brasileira. Com seus quase 3 milhões de seguidores no Instagram, a atriz compartilha detalhes de seus looks e presentes enviados por grifes nacionais e internacionais – quantos destes posts são pagos ela não revela. Mais: quando interpretou Jade em O Clone, fez com que as pulseiras que prendiam o dedo médio se tornassem “a” bijoux de 2001.

Quando viveu a delegada Helô em Salve Jorge, trouxe de volta os cintos espalhafatosos e devolveu o glamour às policiais da vida real. Na novela Em Família, transformou corte com franja na maior febre dos salões Brasil afora. Agora, vivendo Atena em A Regra do Jogo, ela interpreta uma fashionista assumida, e já entrega sua maior contribuição fashion nas primeiras semanas de novela: o choker (gargantilha). Não se convenceu? Fora da telinha, Giovanna celebra anos de uma parceria de extremo sucesso com o mercado de beleza – mais especificamente, esmaltes, colaborando com as gigantes Hits e Colorama. E quem nunca pintou as unhas com uma cor by Gio Antonelli, que atire o primeiro B.B. Cream.

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