Alexandre Herchcovitch fala sobre parcerias catarinenses, caveiras e direitos homossexuais

Estilista esteve em Florianópolis para inauguração de uma loja multimarcas

Alê, como é chamado pelos íntimos, conversou oito minutos com a reportagem
Alê, como é chamado pelos íntimos, conversou oito minutos com a reportagem Foto: Charles Guerra

Alexandre Herchcovitch é o principal estilista brasileiro. Afirmação comprovada pela imprensa especializada, aqui e no mundo, e avalizada pelos consumidores das criações deste paulistano de 42 anos e sobrenome de origem judaico-polonesa quase impronunciável.

Em 2013, Alê, como é chamado pelos íntimos, comemora duas décadas de uma bem- sucedida carreira de estilista. Há seis anos vendeu a marca para o grupo InBrands, dono da Richards, Salinas e Ellus, entre outras labels, e se mantém firme como diretor criativo. A caveira, símbolo que o acompanha desde a formatura na Faculdade Santa Marcelina, já foi estampada em camisetas, chaveiros, isqueiros, curativos, lençóis e shape de skate. A lista é longa.

Conhecido (e temido) pelas poucas palavras, Alexandre esteve em Florianópolis na semana passada para a inauguração da Über Store, multimarcas que vende suas criações. Em menos de 10 minutos de conversa, o estilista manteve-se econômico nas declarações. Sua simpatia não é forçada, ele não faz questão de agradar. Sem deslumbre.

A minha mais remota lembrança de sua marca é um editorial para a Interview em que você fotografou ao lado de amigos no prédio do Banespa, em SP, em 1993. Que momento é esse?

Ah, isso é uma bobagem. É no início da minha carreira quando as pessoas começaram a querer me entrevistar. Foi isso.

Sua relação com Santa Catarina está atrelada a parcerias comerciais, é isso?

A gente trabalha muito com a Renaux View, que é de Brusque. A gente trabalhou com a Marisol (Jaraguá do Sul) quando eu fui contratado para ser o diretor de criação da Rosa Chá por dois anos e meio. Também trabalhei com a Têxtil Renaux, que não existe mais. Agora eu teria que lembrar. Aqui, no Sul do Brasil, é onde se encontra a maioria das indústrias de tecelagem. Algumas foram para o Nordeste, mas sempre estiveram por aqui. O Rio Grande do Sul e Santa Catarina têm bastante ligação com moda.

Em uma passagem por Blumenau no início dos anos 2000, você discotecou em uma balada gay e depois declarou que foi uma das melhores festas que já frequentou. Lembra disso?

Provavelmente, só que eu nem lembro. Eu lembro que já toquei lá, toquei aqui em Florianópolis, em vários lugares. Em Blumenau? Ah, a Galesi. Lembrei. Gostei porque era um lugar muito livre, muito misturado, com poucas regras, isso foi o que me atraiu. As pessoas estavam lá para se divertir, não para julgar as outras e olhar o que está vestindo ou não. Agora eu lembrei de tudo, até de como era o lugar, de onde era.

Mas não existe mais, foi comprada por uma igreja e depois o prédio, derrubado.

Ah, não? Ótimo, comprado por uma igreja? Foi para purificar o lugar (risos).

Sua marca foi comprada há seis anos pelo grupo InBrands, assim como a Ellus, Salinas e Richards. A função que exerce é uma espécie de curadoria?

É assim que funciona não só na minha marca, mas em várias outras. Eu trabalho como diretor de criação, a gente cria mais de 1,5 mil produtos por ano e, obviamente, eu não crio tudo sozinho. Nem teria como. Eu tenho uma equipe de seis pessoas e a gente se divide na criação de tudo isso que a gente faz.

O artista plástico e stylist Maurício Ianês, além de seu ex-namorado, trabalha contigo há 18 anos. Como funciona uma parceria tão longa?

Mais do que tranquila. Eu tenho várias pessoas que trabalham comigo há muito tempo. A minha assessora de imprensa, por exemplo, tenho há 15 anos. Outras pessoas também, um modelista que está comigo há 12, estilistas estão há oito anos. O melhor mesmo é manter estas relações, entender as pessoas, as necessidades de cada um e reconhecer o trabalho de todo mundo. Isso eu sei fazer.

Qual é a sua relação com a caveira, que se tornou uma marca-registrada do Alexandre Herchcovitch?

Eu sempre usei muito este símbolo e de tanto usar ela acabou sendo uma exigência das pessoas que compram as minhas roupas. Numa coleção que tenha poucas caveiras elas me pedem se não tem mais, se não vamos fazer mais. A caveira virou uma marca que a gente usa e abusa dela. E eu nem acho que sou o dono da caveira, sinceramente. É a mesma coisa que você pegar a lua, fazer uma estampa e falar que é sua, você que inventou. Eu posso ter me apropriado da caveira, ter difundido e usado em larga escala, mas não sou dono da caveira.

Recentemente, você casou com festa no Fasano e o seu parceiro, Fábio Souza, adotou o sobrenome Herchcovitch justamente em um momento em que o Brasil discute os direitos homossexuais. Como você vê isso?

A homossexualidade não é uma coisa nova, existe desde que o homem existe. O que hoje a gente está conquistando e os outros países já conquistaram é o mesmo direito que qualquer pessoa tem como cidadão, independente das suas escolhas. São coisas que nunca deveriam ter sido tiradas dos homossexuais e nunca deveria ter sido questionado este direito. Já que tivemos que passar por isso agora a gente recupera.

De que maneira caminha a polêmica em torno da aprovação da captação de recursos, através da Lei Rouanet, para a realização de um de seus desfiles?

Eu nem liguei, não li nada. A minha posição é que moda é cultura assim como todas as outras expressões culturais existentes. Eu não vejo diferença entre uma exposição de arte numa galeria e um desfile de moda. Não vejo diferença entre teatro, música e moda. São todas expressões culturais de nosso país e por isso chegou a vez de a gente ter incentivo também.

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