Aos 87 anos, Rui Spohr entra para a Academia Brasileira de Moda e afirma que não quer ser visto como um estilista para poucos

Na manhã que antecedeu esta entrevista, Pedro Henrique Celuppi da Silva entrou no casarão antigo que é visto de longe por quem passa pela Rua Miguel Tostes. Na fachada, o nome de Rui. Apenas Rui, porque quem o conhece sabe que o primeiro nome basta. Depois de subir as escadas que levam ao ateliê do estilista, no segundo piso, o administrador de empresas provou o vestido que deve usar quando encarnar sua personagem Isis James-Preston, uma das drag queens do coletivo As Vikkings, no jantar de gala das Voluntárias pela Vida. No dia anterior, havia sido a vez de gurias do tradicional Catálogo de Brotos da Capital visitarem o rico acervo de vestidos do mais célebre costureiro gaúcho. Uma delas saiu faceira, depois de experimentar um modelo criado em 1971, que ela desfilará em um evento no badalado restaurante 300. Guardiã do acervo, a esposa do estilista, Doris Spohr, conta que a garota não tinha ideia de que o vestido era tão antigo – prova de que cortes e costuras de Rui seguem atuais.

– Ela se achou divina. É um vestido que, se alguém usa hoje, segue moderno. A moda Rui é uma moda que não sai de moda – diz Doris.

Aos 87 anos e com mais de seis décadas de carreira, Rui Spohr acaba de receber uma homenagem que reforça sua relevância para a moda, muito além das fronteiras do Rio Grande do Sul. No início do mês, o estilista foi empossado como um dos imortais da Academia Brasileira de Moda (ABM), em uma cerimônia realizada no Rio de Janeiro. Vestindo o tradicional fardão azul e com o cordão que simboliza seu lugar no Olimpo dos grandes nomes da moda nacional, como Ronaldo Fraga, Glória Kalil e Costanza Pascolato, fez questão de ressaltar a moda gaúcha em seu discurso.

– Fiquei surpreso – conta. – E agradeci pelo fato de ser o primeiro costureiro fora do eixo Rio-São Paulo.

Mas o pioneirismo passa longe de ser novidade na vida de Rui. Ele foi pioneiro entre os estilistas brasileiros a estudar moda em Paris, em meados dos anos 40. De volta a Porto Alegre, tratou de apresentar à sociedade gaúcha os tais desfiles de moda, que ainda eram novidade por aqui. É desde essa época que Rui e Doris guardam um acervo memorável, com mais de 200 vestidos e 250 chapéus, além de mais de 2,5 mil croquis e em torno de mil fotografias. Agora, a ideia é que esse patrimônio seja resgatado através de um projeto de preservação e exposição, que levará o nome Instituto Rui Spohr. Aprovado pela Lei Rouanet, o projeto está apto a captar recursos para a execução e está buscando empresários interessados em investir.

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– O projeto nasce dos guardados da vida toda. Quando começou a alta-costura, passei a guardar os desenhos de cada cliente, com suas amostras, desfiles, vídeos. E foi se construindo um acervo físico de roupas, além de documentos. Do que a gente conviveu e viveu junto a autoridades, senhoras de governadores, presidência da República – explica Doris, que deve assumir a presidência do Instituto.

– Mescla-se muito o acervo com a história da cidade, do Estado e do país. Também há o acompanhamento da história têxtil do país, que foi maravilhosa e não existe mais. Mas nós vivemos tudo isso. E a moda é sempre o reflexo do que acontece no momento.

Enquanto torcemos por novidades sobre o Instituto, Donna passou uma tarde com Rui em seu ateliê. Os melhores momentos da conversa, que percorre tópicos como a crise na moda, estilo e a atual fase criativa de Rui, você confere a seguir:

Imortal na Academia de Moda

“Nunca esperei. Nunca pensei que pudesse ser convidado para participar de uma elite como essa do mundo da moda, aqui no Brasil. Tinha um relacionamento com a Hildegard Angel (presidente da ABM e do Instituto Zuzu Angel). Encontrei-a duas vezes em Gramado, onde se deu um relacionamento porque nós dois gostávamos de moda, e discutimos muito sobre tendências e a evolução da moda. Foi como almas gêmeas, um encontro muito gostoso. Surpreendentemente, ela nos ligou no início do ano contando. Fiquei surpreso. Agradeci pelo fato de ser o primeiro costureiro fora do eixo Rio-São Paulo. Fora do Rio Grande do Sul, tem gente boa em Minas, no Amazonas, em Recife, que mereceriam uma valorização maior. Nós somos Brasil também, não somente Rio e São Paulo, onde tudo acontece. Rompi um vício. Acredito que muita gente que estava presente lá não sabia que eu existia. Isso é importante. O Rio Grande do Sul entrou no mundo da moda.”

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Estilo antes de tendência

“O importante é ter estilo. Um costureiro que tenha grife e nome não pode seguir a moda, que muda de seis em seis meses. Precisa ter uma personalidade. O vestido deve ser identificado na mulher que veste. Quando ela entra, as outras já sabem: este é Rui. Isso que é importante. Seguir a moda, todo mundo segue, mas criar uma identificação como profissional, não. Este é Christian Dior, este é Yves Saint Laurent e, guardadas as devidas proporções, este é Rui.”

O estilo Rui

Quando uma mulher senta na cadeira à minha frente, fico imaginando o que ficaria bem para ela. Elas chegam às vezes com fotos e vídeos (com ideias e inspirações). Muitas não entendem que (fazer simplesmente uma versão) é uma cópia, e malfeita. Mas, quando estiver pronto, ela vai sentir. Uma cliente diz que, na primeira vez em que veio aqui, sentiu o que era ter um vestido feito para ela, criado em seu corpo. Ela diz que viu o vestido nascer nela. A mulher veste o vestido, sente o vestido, o vestido toma forma com ela. Isso dá muito segurança, principalmente para a noiva ou a mãe de noiva. E, no momento em que elas se sentem seguras e bem-vestidas, pisam diferente. Isso é o bonito da moda. Ela transforma.”

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Os preferidos

Gosto mais de (fazer vestido de) festa. É onde elas gastam! (risos). Se não nos acertamos no primeiro contato, peço para me dar duas semanas e voltar. Tenho uma assessoria muito boa, que trabalha há 40 anos comigo. Quando vimos a mulher e como ela caminha, juntamos tudo o que ela tem de bom e crio um modelo para aquela proporção. Quando volta, tenho três ou quatro modelos para ela escolher. Ela se sente segura. Acho bonito esse diálogo.”

Moda na crise

“Não sei se devo falar nisso, se é pretensão minha. Nos últimos meses, tenho me sentido um mito. ‘O Rui é maravilhoso, mas é caro. Não é para mim, não é para minha mulher.’ Tem gente cobrando mais caro do que eu e são simples bons artesãos. Pessoas que tinham a possibilidade de estar aqui dentro (do ateliê), mas têm medo de chegar aqui. E compram tecido e levam na costureira, coisa que se fazia há 50 anos. Existe um medo. Uma admiração com receio. É algo que me deixa deprimido. Uma confusão de sentimentos: a glória, a valorização, mas, ao mesmo tempo, o desmanche disso tudo. Tudo isso para quê, se não estou atraindo gente para continuar trabalhando? Minhas clientes fiéis estão aqui. Mesmo na crise, elas trazem roupas que fizemos há anos atrás e que precisa mexer, alargar um pouquinho. Meu preço normal é R$ 10 mil, R$ 12 mil, mas pode pagar em três, ou cinco vezes, desde que faça. É muito dinheiro para qualquer um, mesmo para quem tem dinheiro. É uma cifra grande. Me pergunto: com tantos aplausos, tanto reconhecimento, tanto esforço… Pela primeira vez, senti me perguntando: ‘Onde estão os clientes?’. Tem diminuído na faixa dos 20%, 30%. Antes, já teria hora marcada para março, para dezembro, para junho. Agora não tenho. As pessoas não sabem o que vai acontecer. As festeiras se queixam do mesmo problema, diminuíram os casamentos.”

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Noivas hoje

“Mudou muito. Quando nós casamos, (em uma cerimônia) de manhã, Doris usou um vestido branco, liso, cortado. A única coisa é que o vestido era curto e o véu era comprido, o que já era uma diferença grande. Eram simples. Hoje, são muito trabalhados.”

Na ativa

“O que eu sinto (sobre se manter em atividade)? Cansaço! (risos) Tenho um hobby que é pintar, sempre gostei. Há uns 10 anos, passo o sábado e o domingo pintando. Nunca vendi, nunca mostrei. Gosto de todos eles e, quando não quero comprar uma tela nova, pego uma velha, passo tinta por cima e começo outro. Está nos meus planos ficar um dia por semana em casa. Mas como tenho problemas de saúde, tenho Parkinson, tenho perigo de ter tonturas e cair, como já caí duas vezes. Então, não posso ficar em casa só, precisa ficar alguém. Isso atrapalha um pouco. Leio muito, tenho assinatura de revistas francesas de arte. Gosto muito de arte. Esse é o alimento que mais aumenta minha sensibilidade. Sinto a mesma tesão que teria há 30 ou 40 anos em fazer moda. No fundo, tem uma palavra só para isso: é amor.”

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