Representatividade, sim! Apartamento 03 faz desfile somente com modelos negras na SPFW

Fotos: Agência Fotosite, Divulgação
Fotos: Agência Fotosite, Divulgação

Nunca se falou (e pediu) tanto por representatividade – e talvez a moda represente uma das áreas mais desafiadoras para driblar um padrão repetido por anos a fio. Mas há motivos para comemorar: em uma temporada que a presença de modelos negras nos desfiles tem sido mais frequente, o estilista Luiz Cláudio, da Apartamento 03, resolveu fazer ainda mais. Em um dos desfiles mais bonitos desta edição da São Paulo Fashion Week, o mineiro levou um casting inteiramente de negras à passarela do evento – e, claro, foi aplaudido de pé. Por suas criações e também pela iniciativa.

– Eu tinha essa vontade há muito tempo. Lembro de um desfile do Walter Rodrigues na SPFW, com um casting todo negro, e aquela imagem não saiu da minha cabeça. Achava que um dia pudesse fazer isso, mas em um momento que fosse importante. E o momento é esse. Um momento de resistência, em que precisamos mostrar que a gente existe. Não tive alguém para me espelhar, alguém que dissessem: “Ele é como você”. Eu não tive essa referência. E eu preciso contar isso do meu jeito. A forma que eu encontrei foi, neste momento, dizer que a gente é resistência e estamos aqui – contou o estilista em entrevista à Donna, momentos antes do desfile.

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Assim que teve a ideia de trazer apenas garotas negras para a passarela, Luiz ligou para o stylist Dani Ueda, com quem trabalhou na composição do desfile. A dúvida era uma só: será que encontrariam tantas modelos negras para desfilar? Faz sentido, já que, por conta da demanda, as agências ainda não contam com tantas garotas negras em seu casting.

– O Dani disse: “Vai ficar maravilhoso!”. E eu questionei: “Mas vamos conseguir 30?”. Ele disse que sim, até mais – lembra.

Deu certo. No backstage da marca, que Donna visitou pouco antes do desfile, garotas negras se enfileiravam para terminar a make e os penteados – a maioria usou tranças. Uma imagem rara e linda de se ver. Mais do que tudo, necessária.

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Na plateia, personalidades negras como a Miss Brasil 2016, Raissa Santana, e a jornalista e apresentadora francesa Alexandra Loras. Ativista do movimento negro, Alexandra ficou surpreendida ao saber por esta repórter que veria apenas negras, com ela, no desfile que começaria em instantes.

– É sensacional, um marco histórico. Uma mudança necessária. É um ato político, além da moda. É muito corajoso da parte do Luiz. Vou aplaudir e gritar: “Bravo” – disse.

As mudanças – ainda pequenas e graduais, mas significativas – em prol da diversidade na moda e na SPFW foram lembradas por Alexandra:

– Tento olhar, ao longo dos anos, o quanto o Paulo Borges (curador e criador da SPFW) conseguiu penetrar a mentalidade da sociedade, com inclusão, com respeito, com dignidade. Fico feliz de ver cores diversas, gêneros diversos. Podemos bagunçar o sistema, o establishment, para produzir arte, uma das linguagens mais poderosas do mundo. Ela formata as mentalidades. Achamos, muitas vezes, que (a moda) é superficial, mas retrata uma época.

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O desfile

Luiz Cláudio é daqueles que, como muitas de nós, sente dificuldade em usar (e criar com) outra cor que não seja o preto. Diz que tem medo de cor. E também houve um feedback de suas clientes, que pediam por novas matizes nas araras da marca. Por isso, o estilista mineiro retratou, na passarela, aquele momento em que, finalmente, se abriu às cores. Tudo começou com os tons escuros. Graduais, seguros. Logo, como se fosse um rasgo, as cores começaram a surgir em acessórios e em belos degradés. Foi como um rasgo na ferida, define o próprio. Para ele, mais do que nunca, vivemos um momento de sair das nossas zonas de conforto, por mais dolorido que seja.

– Queria falar de uma forma mais clara do que eu sou e do que é meu trabalho, e quis ser mais pontual sobre o que a gente é. Isso de misturar… Só temos no nosso país. Somos um dos poucos países com essa diversidade de pessoas e ainda a gente tem que voltar a discutir coisas que achava que não precisava mais discutir. De espaço, de apropriação, de onde é o lugar de tal pessoa. Temos que aproveitar isso que temos, e misturar mesmo! – defende o estilista, em referência ao momento de polarização política do país.

Do arco-íris de Luiz Cláudio saem laranjas, azuis, rosas, amarelos e até néons. Degradés, patchworks luxuosos de cores, tudo para dar ainda mais vida à sua alfaiataria precisa, que não perde a identidade, mesmo com a nova paleta. Ao ver passar a fila final, somente com as modelos negras que compunham o casting, a sensação é de que sempre dá para ir além, se desafiar, enfrentar os próprios medos, mesmo quando você é uma das grandes mentes criativas nacionais de seu tempo.

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