Apostando em versões sofisticadas de rendas típicas do Nordeste, estilista Martha Medeiros imprime sua marca na moda brasileira – e mundo afora

Quem via a garotinha de pouco mais de oito anos vendendo para as vizinhas e amigas de Alagoas as roupas de boneca que ela própria inventava e costurava ali, na garagem de casa, não imaginaria que, algumas décadas depois, a brincadeira viraria trabalho sério – e transformaria Martha Medeiros em uma das estilistas de moda festa mais conceituadas do Brasil. Foi com a avó materna, dona Zezé, que a pequena aprendeu os primeiros movimentos na arte da agulha e da linha. Para a matriarca, “ roupa de boneca tinha que ser que nem roupa de gente”; por isso, enquanto aprendia o bê- á-bá, Martha também se habituava com termos como bolso faca, bainha italiana e casa de botão. Não demorou para que viesse o estalo: era pelo mundo dos vestidos que ela queria se enveredar quando crescesse. Mas, na primeira vez em que comentou com a avó que queria estudar tecidos e moulages na Europa, veio o conselho que determinaria o futuro de sua marca:

– Olhe para as falésias. Isso é moda. Veja a mistura de cores das falésias, que vão do marrom ao terracota, passando por tons alaranjados. A inspiração está aí.

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Talvez a ideia de valorizar o que está perto explique o fascínio de Martha pela renda renascença brasileira, que acabou virando a marca registrada de suas peças, vendidas a preços que atingem a casa dos cinco dígitos. Pelo menos uma vez por mês, a estilista sai do seu confortável apartamento no bairro dos Jardins, em São Paulo, e parte rumo ao Estado natal, onde estão boa parte das 400 mulheres no sertão do Nordeste que confeccionam manualmente a matéria-prima de cada um dos vestidos. O processo é conduzido do zero, sempre sob o olhar atento da designer. Ela leva o material e o desenho da renda, que é prontamente copiado pelas mãos treinadas das rendeiras. Dali saem peças únicas, carregadas de estilo e que valorizam a cultura local, ao mesmo tempo em que ganham ares sofisticados – e em nada lembram o que se vê em feirinhas de artesanato Brasil afora.

– Para ter destaque, o estilista precisa cuidar do DNA dele. Você tem que olhar a roupa e saber quem fez. O estilista precisa ser extremamente fiel ao seu estilo. Acredito muito em valorizar o que é nosso, mesmo com todas as dificuldades. Não temos aviamentos de qualidade, mas o nosso estilo tem que ter a ver com o Brasil – defende, em um bate- papo com Donna durante o Evento Casar Porto Alegre, em agosto, no qual participou como palestrante convidada.

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Duas vezes Martha Medeiros: no Evento Casar Porto Alegre, a estilista conheceu a escritora homônima. Foto: Andrea Graiz

Antes disso, o percurso foi longo até que ela tivesse a certeza de que suas criações agradariam. Aos 15 anos, conseguiu uma autorização para vender suas roupinhas e bonecas de pano em uma feirinha em Pajuçara, um dos mais famosos bairros de Maceió. Mas a empreitada não durou muito. Cursou Direito e Economia e passou em um concurso para trabalhar em um banco – e foi no banheiro da agência que Martha reviveu a vontade de trabalhar com moda. Na hora do almoço, reunia ali mesmo as colegas para vender as roupas que criava. Quando a clientela começou a aumentar, deixou o emprego e montou uma loja em uma galeria de Maceió. Pouco tempo depois, a necessidade de mais espaço surgiu de novo – foi quando Martha inaugurou a multimarcas Maison M, com mais de oito mil peças de estilistas brasileiros e internacionais. Conversando com as clientes, que sempre pediam algo diferente, voltou a desenhar.
Em uma viagem a São Sebastião, cidadezinha do interior do Alagoas que concentra o trabalho das rendeiras, veio a ideia: por que não se dedicar àquela matéria- prima? Em 2004, a estilista assinava a primeira peça da grife que leva o seu nome. Naquele mesmo ano, algumas das então recentes criações foram expostas na conceituada Selfridges, em Londres, e, no ano seguinte, os primeiros itens foram exportados para Estados Unidos, Inglaterra e Oriente Médio.
Logo Martha migrou para São Paulo, onde passou a atender clientes com hora marcada, para em 2009 abrir a sua primeira loja na capital paulista, no bairro dos Jardins.

Quem veste Martha

Foi questão de tempo para que caísse nas graças de algumas das celebridades tupiniquins mais comentadas. Hebe Camargo, por exemplo, era fã de carteirinha. Claudia Leitte, Ísis Valverde, Juliana Paes, Vera Viel, Flávia Alessandra e Sabrina Sato são apenas algumas que não pensam duas vezes antes de escolher um vestido em uma de suas lojas em São Paulo. A atriz Mariana Rios vestiu uma criação exclusiva da designer no Festival de Cinema de Cannes, na França.
Durante uma de suas últimas passagens pelo Brasil, a cantora Beyoncé apareceu em seu Instagram vestindo uma saia longa em renda criada por Martha em várias fotos, clicadas em Trancoso – depois, as cenas foram incluídas no videoclipe de Blue, uma das faixas do mais recente álbum da diva pop americana. A peça, aliás, teria sido presente de Ivete Sangalo em um encontro das cantoras durante a estada de Queen B por aqui. Cliente assídua, a própria Ivete escolheu Martha para criar o figurino de um dos momentos mais importantes de sua carreira: a apresentação no encerramento da Copa do Mundo no Brasil, ano passado. Confeccionado com mais de 20 mil cristais, o longo verde teve a renda bordada por 22 mulheres durante 10 meses e contou com o trabalho de outras 13 para ser montado em 15 dias.

– Eu estava em Las Vegas quando Ivete me ligou para fazer o vestido. Ela sempre usa peças da [ grife] Martha Medeiros, mas nunca para uma ocasião tão especial. Não pensei duas vezes: peguei o avião e vim embora – relembra a estilista.

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Vestidas para casar

Mas foi confeccionando vestidos para o grande dia na vida de muitas mulheres que Martha descobriu sua paixão.
A primeira noiva, aliás, veio quase que por acaso: há pouco mais de uma década, a filha de uma cliente querida, Vânia, estava de casamento marcado. Mãe e noiva foram duas vezes de Maceió a São Paulo procurar o vestido, e a jovem não gostava de nada que encontrava nas maisons.

– Foi quando a Vânia me ligou e pediu: “ Você precisa fazer o vestido dela!”. Lembro que disse “ Mas eu nunca fiz vestido de noiva”, e Vânia retrucou: “ Tudo tem sua primeira vez”.

Martha acertou em cheio no vestido dos sonhos da noiva e, de lá para cá, é no segmento que concentra os maiores esforços de seu trabalho. Deu tão certo que, em maio deste ano, a estilista aumentou seu império – que já contava com duas lojas em São Paulo e uma em Maceió, além dos pontos de venda espalhados pelo mundo – com uma flagship dedicada a quem vai se casar. O mix de produtos tem de tudo para montar o enxoval completo e ainda contratar os serviços para a festa. É no endereço onde Martha também atende as noivas para pensar as criações sob medida. Somente no último semestre, a grife vestiu 116 mulheres de véu e grinalda – incluindo a atriz Fernanda Souza, que trocou alianças com o cantor Thiaguinho.

– Somos amigas de longa data e lembro que, há mais de dez anos, falava para a Fernandinha que ainda a vestiria de nova. Ela sempre me dizia “ Desiste, eu nunca vou casar”. Mas há dois anos me ligou para contar que o Thiago havia pedido ela em casamento e queria que eu fizesse o vestido – conta.

Um ano e quatro provas de roupa depois, o modelo com decote canoa foi revelado durante a cerimônia de enlace do casal, em fevereiro. A peça foi confeccionada inteiramente de renda francesa rebordada manualmente com minipérolas. Para acompanhar, um véu de tule de seda pura, vindo diretamente de Paris. Assim como com qualquer uma de suas clientes- noivinhas, o vestido de Fê foi pensado em cada detalhe para ser exatamente como a atriz se imaginava no grande dia.

– Quando se trabalha com noivas, se trabalha com sonhos. Se você sempre sonhou em se casar feito Branca de Neve, eu não vou te convencer a vestir um tubo sereia. Meu trabalho é colocar beleza e proporções nesse sonho – explica.

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Além dos sites de celebridades e das festas mais luxuosas Brasil afora, o trabalho de Martha já é tipo exportação: desde 2010, é a única brasileira a expor no museu dedicado à renda em Calais, na França, ao lado de criações de grifes do calibre de Chanel e Valentino. Mais? No ano que vem, a marca Martha Medeiros estreia na passarela da Semana de Moda de Alta- Costura de Paris.

– E eu ainda estou começando, tem muita coisa para ser feita. Sempre falo que não sei onde vou chegar, mas não esqueço minhas origens. Agradeço muito a Deus porque as pessoas me pagam para fazer o que eu mais amo na vida, que é criar roupas. Eu trabalho com brilho nos olhos – resume a alagoana.

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