Atitude natural: Waleska Gorczevski, recordista de desfiles, conquista a moda com seu jeito simples

Camiseta preta, saia jeans, tênis, cara lavada e fios ao natural. É assim que a modelo catarinense Waleska Gorczevski se apresenta para a entrevista seguida de vídeo e ensaio fotográfico na sede do Diário Catarinense, em Florianópolis. Frente a um olhar mais distraído, não se pareceria em nada com aquela que desfilou para a Chanel nas passarelas transformadas em supermercado e aeroporto, abriu para Marc Jacobs em Nova York ou fez a estreia internacional em Paris na (já) saudosa Dior de Raf Simons. No entanto, para os mais atentos, o estilo blasé ao extremo, com pitadas de uma charmosa distração fecham muito bem com um lado natural, simples e verdadeiro tão desejado pela moda atual para que a indústria se renove. Nunca a verdade foi tão sexy. E Waleska é o oposto de suas antecessoras: ao invés da balada e das compras, prefere a praia, o skate e a bicicleta. No lugar das glamourosas festas pós-desfile regadas a champanhe, a alimentação natural e um flerte com o veganismo.

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Aos 18 anos, a catarinense de Floripa já rodou o mundo. Foi recordista de desfiles em semanas nacionais e internacionais – em 2014, cruzou 170 passarelas e, no ano passado, desfilou para 49 marcas –, mora em Nova York e acumula milhas entre castings e campanhas. Mas a menina viajada, de olhos verdes e rosto angelical, guarda muito da garota do Campeche, praia no sul da Ilha, que nunca pensou em seguir a carreira de modelo, não sacava nada de moda e provavelmente nunca tenha comprado uma Vogue na vida. Por outro lado, ela cresceu segura e envolvida por uma família estruturada que soube ensinar o valor da simplicidade a ela e aos irmãos, os também lindos Cedric e Elysa. Sem um pingo de deslumbre, Waleska é inteligente e tem aquela beleza moderna que se transmuta facilmente em diferentes personagens. Quase uma tela em branco.

– A única marca que eu conhecia de ouvir falar era a Chanel. Eu sinto que as pessoas esperavam que eu ficasse mais vaidosa ou mais ligada em moda, o que não aconteceu. Por outro lado, eu posso passar cinco horas em um casting mas não fico tipo: “ai que saco”, eu acho legal. Sempre penso que vai valer a pena porque é um show incrível. E as roupas são legais. Quando tu estás vestindo tem que ter um respeito pela roupa, ter cuidado e isso a gente demonstra na passarela. Eles colocam uma roupa de princesa, você se sente uma princesa, se é uma roupa de roqueira, você vira uma roqueira – conta a manezinha descoberta quando voltava da escola, aos 14 anos.

A naturalidade com que encara uma passarela transmitida ao vivo para o mundo inteiro é outra vantagem.

– A Waleska não é ansiosa e também não fica nervosa – conta a mãe, Silvana, que a acompanha na entrevista junto com o filho Cedric.

Do Campeche ao Chelsea

Unida, a família toda se mudou para Nova York quando ela precisou partir, aos 16, em janeiro de 2014. Um ano antes, ainda na temporada que passou em São Paulo, a mãe chegou a morar no apartamento com 18 meninas.

– As modelos adoravam. Pediam conselhos a ela – relembra Waleska sobre o tempo em que foi recordista nacional de desfiles antes de conquistar a mesma façanha nas passarelas internacionais.

Em terras gringas, o fato de saber lidar muito bem com o lado emocional, além de falar inglês, se comunicando com facilidade na hora dos trabalhos, também contou pontos a favor.

– As pessoas se surpreendiam com uma brasileira que falava inglês – relembra a mãe, professora de educação física de quem Waleska e os irmãos herdaram o tipo físico longilíneo.

Ligada em arte, Waleska sempre gostou de desenhar e o hobbie também chama a atenção nos backstages.

– Os produtores estão muito ligados no que rola além da passarela, no backstage ou mesmo no Instagram, nas mídias sociais – revela Silvana sobre a filha, que também mantém um canal de vídeos no YouTube, onde mostra sua rotina de trabalho.

A exemplo do que 11 entre 10 garotas diriam, a inspiração da new face é Gisele Bündchen.

– Pode parece clichê, mas gosto da postura dela, ela passa uma filosofia de vida, assim como Angelina Jolie. Eu também quero fazer algo pelos outros – conta Waleska.

Aliás, na apresentação da Colcci no último São Paulo Fashion Week, Waleska abriu o desfile assumindo o posto tradicional de Gisele, o que fez alguns especialistas a chamarem de sucessora da übermodel.

Waleska abrindo o desfile de inverno/2016 no SPFW. Foto: Agência Fotosite/Divulgação

Waleska abrindo o desfile de inverno/2016 no SPFW. Foto: Agência Fotosite/Divulgação

Por aqui, enquanto se prepara para retornar a Nova York, dessa vez sozinha, Waleska acaba de estrelar sua primeira capa na Elle de dezembro, publicação que trouxe à tona o tema empoderamento feminino e estampou, sob a foto PB da modelo, a frase: “minha roupa não é um convite”

– Foi uma mensagem forte. É muito legal ajudar a abrir a mente das pessoas. A gente já está no século 21.

Momento mais incrível

No começo eu era muito inocente, fazia o desfile e só depois que via a importância. Minha estreia internacional foi logo na Dior, em Paris. Em seguida, na minha primeira temporada, fiz Marc Jacobs. Eu não sabia que ia abrir a passarela até a hora de começar. Eles me deram uma plaquinha com o número 1 para fazer o ensaio e eu fiquei “cara, eu sou o 1? Meu Deus!” O desfile era gigante, foi muito emocionante.

Chanel

Adorei fazer o (desfile) do supermercado. Achei incrível eles terem feito um supermercado inteiro (cinematográfico) só com coisas da Chanel. Parecia uma festa. O Karl (Lagerfeld, estilista da marca) é bem como a gente vê: sempre todo de preto e não se dirige muito às pessoas, mas você vê no respeito de todos em volta a importância dele. A Chanel era uma das únicas marcas que eu já conhecia. É que eu morava aqui no Campeche (justifica, rindo).

No supermercado cinematográfico da Chanel. Foto: Divulgação

No supermercado cinematográfico da Chanel. Foto: Divulgação

Desafios

O mais difícil é ter que se acostumar com as coisas. Tudo muda rápido. Fusos, viagens, aeroportos, países diferentes. Tem que ter foco para não se perder. E também aprender o que não faz parte. Eu digo para as minhas colegas: nunca levem para o pessoal. Tem horas que eles vão te amar e tem horas que eles não querem você.

Youtuber

Sempre quis fazer algo assim. No início eu ficava olhando no YouTube, que é onde eu procurava saber mais sobre como era um casting, por exemplo, mas eu não achava como era de verdade. Porque, na real, não é uma coisa fácil. Às vezes tem que encarar 15 castings por dia, sentar no chão, esperar. Quis mostrar tudo isso. Uso o celular e finjo que estou fazendo Snap (risos), fica algo bem pessoal, as pessoas se divertem e assim eu fiz de toda a temporada passada.

Lifestyle

Não curto balada. Lá fora também não vou. Acho que não combina. Eu estou lá pra trabalhar e para fazer coisas para o meu bem-estar. Na hora de dormir eu vou dormir. Até já fui nas festas pós-desfiles. Essas são legais porque tá todo mundo ali, você dança com as costureiras e até com o Raf Simons (ex-estilista da Dior). Mas acho importante ser focada, é fácil de se perder nos milhares de caminhos.

A modelo em seu primeiro desfile para a Dior. Foto: Divulgação

A modelo em seu primeiro desfile para a Dior. Foto: Divulgação

Em Floripa

Sou bem caseira. Minha cabeça volta ao tempo de escola. Fico com minhas amigas, vou pra praia, ando de skate e de bicicleta. Adoro ficar quieta em casa.

Poupança

Não sou de gastar. Gosto de me vestir de forma bem confortável, então não gasto muito com isso. E as marcas nos dão muita coisa. Como parte do cachê, você pode ir na loja e pegar algumas peças. Eu penso no futuro e sei que no trabalho de modelo em um mês você pode trabalhar muito e no outro, não fazer nada. Meu pai é formado em Administração e me ajuda a cuidar disso.

Futuro

Gosto de design (o pai Walter Pereira também é designer), mas não sei se faria algo ligado à moda. Também gosto de fotografia. Quero continuar viajando, acho que nunca vou deixar de viajar. E um dia vou tentar fazer uma faculdade de arte, desenho.

Sonhos

Faço muitos desfiles, mas quero fazer mais campanhas. Acho legal abrir outras portas, fazer trabalhos mais comerciais. É bacana fazer revistas, se ver. Uma vez me vi na Times Square (risos).

Alimentação

Mudei minha alimentação há seis meses. Não como mais nada de origem animal, mas não posso dizer que sou vegana porque, entre outras coisas, vegano não usa couro, por exemplo, o que nesse momento limitaria meu trabalho. Minha mãe e irmã também mudaram a alimentação junto comigo. Fiz fotos para a Stella McCartney (ainda não divulgadas) e foi legal quando ela soube que eu era vegetariana. Admiro o trabalho dela.

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