Brasileira é a nova estilista dos calçados masculinos John Lobb

Tom Jamieson, NYTNS
Tom Jamieson, NYTNS

Por Matthew Schneier, The New York Times Service

Na John Lobb, empresa britânica de 148 anos conhecida pelos oxfords de US$ 1,7 mil que desfilam em salas de diretoria de Nova York a Hong Kong, a mudança chegou na forma de Paula Gerbase, estilista famosa por sua grife com tons levemente esotéricos, a 1205. Detalhe: ela nunca criou sapatos na vida. A Lobb é uma instituição tão sólida que em junho, quando essa londrina de 32 anos foi nomeada a primeira diretora artística da companhia, deu o que falar não só no setor de calçados como na indústria de artigos de luxo de modo geral.

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Depois que o mercado de roupas masculinas explodiu – com o crescimento, segundo algumas estimativas, já superando o da moda feminina –, as empresas passaram a querer atrair novos clientes e manter os já existentes, procurando alterar uma imagem muitas vezes séria demais. Para os fãs ao redor do mundo, o nome Lobb é sinônimo de tradição e qualidade em calçados masculinos sociais e personalizados (o estúdio de Paris também tem uma pequena clientela de mulheres). A companhia, suas coleções, a fábrica em Northampton, na Inglaterra e o ateliê em Paris pertencem à Hermès desde 1976; já o estúdio londrino é independente e administrado como negócio de família.
Para os executivos bem pagos que apreciam sapatos de milhares de dólares, a John Lobb é exemplo e referência – motivo pelo qual a nomeação de Paula Gerbase chamou tanta atenção.

–O objetivo dessa contratação foi trazer modernidade e uma visão criativa à John Lobb, o que não é comum para uma grife clássica britânica – diz Renaud Paul-Dauphin, CEO da empresa.

O sapato social feito pela Lobb é uma peça que combina arte e luxo. Na indústria, o método mais simples e barato de montar um calçado é com retalhos pequenos de couro, costurados; nesse caso, ele é cortado em pedaços grandes e até o salto parece ser feito em uma peça única. Embora esses detalhes passem despercebidos a olhos leigos, para os conhecedores eles justificam o preço cobrado – que pode superar a marca dos US$ 10 mil quando feito com couros exóticos. Segundo a empresa, a manufatura de cada par tem que seguir 190 fases.

 

Tom Jamieson, NYTNS

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Com sua marca, a 1205, Paula Gerbase ficou famosa como estilista de coleções femininas e masculinas de nicho muito prestigiadas. Ela cria jaquetas e calças de cortes impecáveis, em tecidos pouco comuns, que desenvolve pessoalmente com as tecelagens com que trabalha. Usando um macacão de trabalho de sua própria criação, ela nos recebeu, na galeria de Paris que reserva todo ano, durante a Semana da Moda, para exibir suas peças aos compradores.

–O que me atrai na John Lobb são a alta qualidade e a discrição, embora eu saiba que a elegância pode ser traduzida de inúmeras formas, não necessariamente apenas em um sapato social – acredita Paula.

Conforme os executivos vão mudando, mudam também as preferências de moda, incluindo os calçados. Assim como as outras peças do guarda-roupa, o limite entre os estilos formal e casual está bem menos rígido do que já foi.
–Sem dúvida, o conceito mudou muito. Não tem mais essa de “sapato de trabalhar” e “sapato de sair” – afirma Luke Mountain, gerente de compras de roupas masculinas formais, casuais, jeans e sapatos da loja de departamentos Selfridges, no Reino Unido, que é quem comercializa a John Lobb.

Dono da Leffot, loja nova-iorquina especializada em grifes tradicionais como a John Lobb, Steven Taffel também já percebeu que as regras do sapato social já não são tão severas quanto antes:

– Com certeza, está tudo mais aberto. Mesmo as marcas mais antigas, como a Edward Green, já oferecem novas cores de couro, novos modelos, formatos bem mais contemporâneos. E a clientela parece aprovar.

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Para lidar com essa divisão obscura entre o moderno e o tradicional, Paula Gerbase é uma boa opção: começou estudando moda feminina na Central Saint Martins de Londres, reconhecida como berço de inúmeros talentos da moda, incluindo Alexander McQueen, John Galliano, Stella McCartney e Christopher Kane. Depois, ainda em busca de uma base mais tradicional do que a fornecida pela escola, começou um estágio, em 2005, na Hardy Amies, alfaiataria em Savile Row, a rua londrina dos ternos sob medida, antes de ir para a Kilgour, de onde saiu em 2010 para começar sua própria grife. Agora, ela exibe suas coleções em fevereiro e setembro, durante a Semana da Moda de Londres. Recentemente, foi indicada ao British Fashion Award como estilista feminina revelação. Para o trabalho na John Lobb, ela diz que prefere pensar no futuro e não no passado.

John Lobb, nascido em 1829, era filho de um fazendeiro. Saiu da Cornualha, onde nasceu, a pé, rumo a Londres _ e depois seguiu para a Austrália antes de voltar para a Europa. Paula se identifica com a carreira peripatética de Lobb, já que nasceu no Brasil e viveu nos EUA e na Suíça antes de se estabelecer em Londres. Chegou a visitar a Cornualha e fez parte de sua caminhada a Londres, a mais de 320 km de distância, para se pôr no seu lugar. Sua primeira coleção para a Lobb, a ser exibida em janeiro, na capital inglesa, durante a Semana de Moda masculina, foi inspirada pelas paisagens e cores que viu no caminho. Os detalhes, porém, estão guardados a sete chaves, embora Paula dê uma pista, dizendo que se guiou pelos modelos casuais que encontrou nos arquivos de Lobb – como o tênis dos anos 20 e a bota de caminhada dos anos 40.

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