Atualização do modelo clássico de camisa da Brooks Brothers causa polêmica

Troy Patterson, The New York Times

A mais recente e profunda remodelagem quando o assunto é roupa masculina é um ajuste milimétrico em uma peça de vestuário vendida pela primeira vez em 1900. Em janeiro, a Brooks Brothers lançou o novo desenho de sua oxford abotoada, uma camisa conhecida normalmente como uma OCBD (sigla para Oxford Cloth Button Down, ou camisa abotoada com tecido oxford).

O upgrade para botões de madrepérola, a adição de reforços laterais na abertura final abaixo da cintura e mesmo o fim do bolso no peito não são grande coisa a não ser que você seja um professor emérito se perguntando onde vai colocar seus óculos de leitura agora. A remoção do revestimento interior do colarinho, no entanto, constitui um grande momento na história das minúcias, já que reestabelece um colarinho de primeira linha.

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Suas pontas abotoadas, o colarinho sem forro e torções na parte da frente para formar uma elegante curva de sino, ou talvez para deslizar um pouco assimetricamente, são um contorno suave, casual e elegante em meio às linhas rígidas da moda masculina tradicional.

É nesse tipo de detalhes que dizem que Deus existe. Os filósofos do estilo comparam colarinhos particularmente dramáticos às silhuetas de asas de anjos.

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Em 1896, John E. Brooks admirava os botões escondidos que mantinham os colarinhos dos jogadores ingleses de polo e começou a desenhar seus clássicos da moda esporte, com seu sofisticado arco no colarinho.

— O colarinho diferente foi valorizado por uma displicência que remontava aos anos 1920 — afirma Christian Chensvold, fundador e editor-chefe do Ivy Style, um site de mercado da moda. O fato de Chensvold ter quebrado recordes de tráfico com a cobertura dos novos botões sugere a gravidade peculiar da reformulação do guarda-roupa americano por excelência e de seu produto essencial.

Indica também que os sentimentos ricamente complicados dos clientes mais passionais da Brooks Brothers, que também são seus críticos menos pacientes, polemizaram que sua emergência como uma marca global complica a administração sóbria do legado já estabelecido.

— Para roupas masculinas básicas, a Brook Brothers é a fonte; é o barro primordial. Por causa disso, as pessoas se sentem meio donas — afirma Lisa Birnbach, editora de “The Official Preppy Handbook” (Guia Oficial do Preppy) e coautora de “True Prep” (Preppy designa uma tribo urbana de alunos de famílias tradicionais que frequentam as melhores universidades da Nova Inglaterra).

— O que fizeram com essa camisa é um símbolo do que está indo errado com a empresa em geral — afirma Chensvold.

(Divulgação)

(Divulgação)

Ah, ele gosta da nova camisa, que comprou na loja principal da Avenida Madison, onde é cliente, conta. Mas ele teria achado bom se a empresa reconhecesse que errou gravemente quando adicionou o forro em 1989.

— Não houve um mea culpa. Não deixe parecer que estou censurando muito. Sempre tenho medo que eles tirem meus privilégios no simulador de golfe do terceiro andar.

Segundo Guy Voglino, vice-presidente da Brooks Brothers encarregado de gerenciar a moda masculina, a empresa decidiu que sua oxford abotoada “precisava de uma atualização” no ano passado.

— Olhamos para trás e demos uma suavizada — conta.

Os pontos de referência foram as peças dos anos 1940 e 1950, quando as camisas da Brooks Brothers estavam firmemente estabelecidas como um elemento crucial da moda universitária no estilo despreocupado, quanto mais desgastada melhor. “Sem cabimento”, escreveu Edward Said depois de assistir a dois colegas de Princeton aplicarem “lixa a uma camisa azul de botões nova, tentando em uma questão de minutos produzir um efeito de desgaste em uma peça aristocrática”.

Depois de uma pausa para notar que o retorno à tradição da Brooks Brothers envolveu descontinuar o “modelo tradicional” da camisa abotoada – o corte mais largo, dimensionado para diminuir o torso do homem de lata de Ray Bolger – vemos que a empresa está colhendo recompensas consideráveis por se voltar novamente para sua herança.

– Estamos vendendo provavelmente de 15 a 20 por cento a mais – conta Voglino.

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Entre os que expressaram sentimentos confusos sobre a camisa retrô estão os tradicionalistas ferrenhos: homens que usam ternos com paletós largos e gravatas de listas tradicionais para se defender dos ventos mutáveis da moda, pessoas que abrigam opiniões bem informadas sobre os colarinhos que William F. Buckley usou em “Linha de Fogo” e Miles Davis na capa de “Milestones”, redutos desdenhosos da momentânea oxford da Uniqlo, com seu colarinho abotoado insignificante.

O custo da camisa da Brooks Brothers – que foi de US$92 para US$140 – é sua queixa principal: uma camisa muitas vezes tratada como burro de carga está agora avaliada como um puro-sangue, o que é particularmente escandaloso para membros da subcultura da indumentária que transformam a frugalidade em uma virtude, acumulando capital social por encontrar mocassins Cordovan em brechós.

Por outro lado, um certo ressentimento por parte dos comerciantes em quem eles confiam (um estado de lamento eterno de que as coisas não estão tão boas quanto antes) parece ser uma característica da nova visão mundial do comércio.

E a disponibilidade imediata de uma camisa velha-nova evita muitos problemas para conhecedores de colarinhos que há décadas têm se apoiado em pequenas lojas de venda por correspondência com longas listas de espera ou em alfaiates preocupados em mover o ponto dos botões do colarinho em um oitavo de um centímetro. É adorável e risível ao mesmo tempo, todo esse estardalhaço sobre um colarinho valorizado pela sua aparência simples.

— A indiferença é tudo para um preppy. É uma virtude, um valor, uma metáfora e uma estética. No que diz respeito à indiferença estudada, é assim que você aprende — diz Lisa Birnbach.

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