Carlos Bacchi, o estilista caxiense que é a revelação da alta-costura

* Fotos: Adriana Franciosi

 

Já faz algum tempo que um nome não sai das colunas sociais nem da cobertura de festas, casamentos e formaturas. Esse nome também é cada vez mais frequente na boca de fashionistas e comentaristas de moda: Carlos Bacchi, um guri de 27 anos que decidiu costurar do seu jeito, no interior de Caxias do Sul. E basta olhar para algumas de suas criações para perceber que o nome não está sendo pronunciado sem motivo. Dono de um traço autoral marcante, ele é um respiro de ousadia no árido universo de rendas e bordados, em que imprimir uma assinatura de design às peças é tarefa de gente grande. Sem medo de misturar texturas e criar combinações, Carlos vem conquistando uma clientela fiel e apaixonada, que desfila seus modelos nos mais prestigiados eventos, desde casamentos até cerimônias oficiais, como a posse do governador José Ivo Sartori, em que a primeira-dama, Maria Helena, usou um vestido assinado pelo talentoso conterrâneo.

Apesar da fama crescente, Carlinhos ainda recebe no ateliê as clientes que chegam com a foto de alguma revista, pedindo a ele que reproduza algum modelo. Ou as que querem uma roupa semelhante ao trabalho de um outro estilista. Mas, à medida que as notícias sobre a criatividade de Bacchi se espalham, aumenta o número de mulheres que chega ao antigo casarão, no bairro de Ana Rech, pedindo apenas para que ele crie.

— Isso tem sido cada vez mais frequente, o que me deixa muito feliz. É um reconhecimento ao meu trabalho, mas, muito mais do que isso, é uma oportunidade para eu me divertir ainda mais fazendo o que faço. Adoro criar, desenhar, ver uma ideia se tornar um vestido que é uma extensão de mim e da cliente — comenta.

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O Atelier Carlos Bacchi, que nasceu dentro da casa dos pais do estilista, hoje emprega nove pessoas. Na unidade de Porto Alegre, onde ele encontra muitas clientes para as primeiras conversas e realiza provas dos vestidos, há mais duas pessoas trabalhando – e o objetivo, para este ano, é fazer crescer ainda mais a casa de Bacchi na Capital. Em tempos de baixa demanda, como os primeiros meses do ano, Carlos entrega vestidos quase todos os finais de semana, mas em ritmo bastante tranquilo. Agora mesmo está com a agenda fechada, sem encomendas, para cuidar da coleção que irá apresentar no próximo dia 25, na Mostra Noivas 2015, que ocorre no Centro de Eventos do BarraShoppingSul. A partir de outubro, no entanto, a procura cresce loucamente, e Carlos entra em um ritmo frenético de trabalho. São cerca de dez vestidos por semana, todos cortados, costurados e com bordados desenhados por ele. Todos partindo de R$ 9,5 mil.

— Faço tudo. Tenho muita confiança nas pessoas que trabalham comigo, mas preciso cuidar de cada detalhe para que fique exatamente do jeito que eu quero. É claro que não faço todo o trabalho braçal, mas tudo passa por mim. Os bordados, por exemplo, eu desenho e faço o modelo. E as bordadeiras o seguem. Muitas vezes, sento com elas para bordar também — revela.

“Adoro trabalhar com tecidos firmes e estruturados para dar volume às peças. O cetim italiano fica incrível neste tipo de corte”. Carlos Bacchi

Nos períodos de trabalho intenso, Carlinhos mantém uma rotina acelerada. Acorda cedo para resolver questões pessoais e para tentar cuidar de si, ir ao cabelereiro ou à academia – o que nem sempre consegue. Depois de tomar um banho e vestir seu habitual look composto por bermuda e camiseta, vai para o ateliê, onde permanece pelo resto do dia. É lá que faz contato com as clientes, tira provas, finaliza alguns modelos, dá o corte inicial a outros. Depois que todo mundo deixa o casarão, por volta das 20h, ele põe uma música e vai para o porão revestido de pedra. Ali, desenha, cria ou simplesmente borda, alinhava, arremata suas criações.

— Eu brigo com ele. Vive bordando, costurando, não dorme, não almoça. Eu brigo, mas nem sempre adianta — lamenta a mãe, dona Luciane, coruja em nível máximo, que acompanhou Carlos e a equipe de Donna no dia da realização desta reportagem.

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Vestido em crepe mousson bordado com 16 quilos de pérolas e cristais

O atendimento cuidadoso que Carlos dedica às clientes justifica um dia de trabalho tão longo. Desde a primeira entrevista até a entrega da roupa são muitos encontros. Primeiro, ele faz cerca de três desenhos. Escolhido o modelo, acompanha a cliente na compra do tecido e dos ornamentos. Depois, são pelos menos quatro provas. No dia da estreia, Carlos vai até a casa da compradora e a ajuda a se vestir. Somente então considera seu trabalho terminado. A dedicação tem dado certo, já que o ateliê tem encomendas programadas até 2016.

O mundo de Carlos, no entanto, não é feito apenas de admiradores. O costureiro Rui Spohr considera o rapaz simpático, mas acredita que ele tem um longo caminho a percorrer no aprendizado dos fundamentos de um estilo de costura mais requintado.

— Eu sei que o começo de um estilista é difícil, já passei por isso. Mas com o tempo ele vai aprender a costurar — diz.

“O crepe mousson é meu tecido favorito para todos os tipos de vestido. Por ser pesado e ter um pouquinho de elastano, ele modela o corpo sem perder o conforto. Considero pérolas e cristais o tipo de pedraria mais nobre para vestidos de noiva. São minhas prediletas”. Carlos Bacchi

Sérgio Pacheco, que também dedica-se à moda festa, afirma não conhecer o trabalho do caxiense, fato que o impede de tecer qualquer comentário. Já Marco Tarragô gosta do que vê.

— Não conheço muita coisa, mas penso que ele tem futuro. Está no começo, que é sempre difícil, mas vai crescer — acredita.

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Cetim italiano, saia bordada em flores de organza, renda francesa, pérolas e cristais

Fã assumida é a estilista Solaine Piccoli, que também costura para noivas e festas. Segundo ela, o trabalho de Bacchi tem identidade própria, o que é bastante raro neste universo.

— Ele tem um futuro brilhante pela frente — garante.

Carlos Bacchi é o cara da invenção e, muitas vezes, da simplicidade. É louco por tecidos clássicos, como linho e seda, em cortes secos e sem penduricalhos. Também não tem problema em fazer vestidos com tecidos ecológicos, como seda tramada com garrafa pet. Sempre que pode, aventura-se nessas texturas novas. Também faz interessantes experiências com tingimentos naturais, usando chás, flores, carvão e até cascas de árvore para colorir tecidos e rendas.

— Muitas coisas são tingidas em uma fábrica de tecidos ecológicos, que fica no Paraná. E muitas outras eu faço aqui mesmo, como o tingimento com os chás. Aprendo fazendo, é uma delícia.

As mulheres vestidas por Bacchi

 

De adolescente consumista a natureba fashion

Experimentar é o que move o estilista. Por isso, nas coleções que idealiza para passarelas, ele deixa de lado qualquer influência do que possa ser tendência ou de gostos que não sejam somente os seus.

— Moda, para mim, é o que eu gosto. E só.

Mas a mente inquieta não se contenta só com vestidos. Este ano, assinará pela segunda vez uma linha de sapatos, em parceria com a marca Ceconello. As criações estarão no desfile do próximo dia 25. Durante testes para um bordado, também teve a ideia de fazer brincos, tiaras e pulseiras, ainda em fase de elaboração.

Um adolescente consumista, admirador da beleza e do corpo, que gostava de arte e de esportes. Assim era Carlos Bacchi, segundo ele próprio, nos anos que antecederam sua escolha definitiva pela moda. Filho de mãe artista plástica, jogador de vôlei e praticante de muitas outras modalidades esportivas (menos futebol, que odeia, a despeito do parentesco distante com o técnico Tite, caxiense que atualmente treina o Corinthians), o guri chegou a cursar Educação Física na Universidade de Caxias do Sul antes de encontrar sua verdadeira paixão.

— Eu gostava muito de desenhar, sempre gostei. E minha mãe incentivava que eu praticasse. No meio da faculdade de Educação Física, comecei a achar que a moda poderia me dar mais dinheiro do que os esportes, afinal, um consumista precisava de dinheiro, né? Comecei então a levar os dois cursos, sem saber direito o que eu queria — lembra.

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Conjunto cropped em cetim italiano preto; vestido longo de mousseline e renda francesa com acabamentos em veludo e bordado em pérolas e cristais; vestido curto de mousseline e renda francesa com acabamentos em veludo e bordado em pérolas e cristais

Uma tragédia, no entanto, obrigou o jovem a repensar toda a vida e a buscar uma mudança de rumos. Vítima de câncer no sangue, Camila, a única irmã de Carlos, mais nova do que ele, morreu em 2008, aos 18 anos. A perda foi devastadora.

— Eu sabia que ela estava doente, claro, mas os médicos eram otimistas. Nunca imaginava que ela pudesse morrer. Foi horrível, ela era a minha melhor amiga, éramos muito apegados. O clima pesou em casa, senti a necessidade de buscar algo diferente, para me reencontrar no mundo.

Assim, no início de 2009, Carlos levou seu coração para a França. Em Paris, cursou Fashion Design no Istituto Marangoni. Depois de receber o diploma, foi para Londres, onde ficou por pouco menos de um ano fazendo cursos de modelagem, desenho e ilustração. O coração, que já havia trocado a amargura pela saudade, sentia falta dos pais, de casa, da família. No finalzinho de 2010, desembarcava de volta um sujeito totalmente diferente, agora absolutamente certo do que queria fazer da vida.

— Mandei currículo para todo mundo, e a Greice Antes (estilista gaúcha) me aceitou. Mas o estágio era voluntário. Admiro o jeito dela de fazer moda e estava aprendendo muito, mas precisava de dinheiro. Uma semana depois de ter iniciado o estágio, fui chamado em uma malharia de Nova Petrópolis, onde fiquei por seis meses.

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Vestido curto em renda francesa, bordado inteiro com miçangas, pérolas e paetês, tingido com chá verde e chá preto

“A simplicidade do corte e das formas combinada com a delicadeza da renda fez desse vestido um sucesso no atelier. Essa peça uniu todas as características que eu gosto em um vestido.”  Carlos Bacchi

Neste período, usou todo o salário para comprar tecidos e começar uma coleção. Em um ateliê improvisado no quarto da irmã, cortou, costurou, arrematou. Fez 10 vestidos. Chamou o namorado, Juliano Busseti, para fotografar e a amiga de infância, Gabriela Boff, para servir de modelo – aliás, Gabriela também veste algumas peças para o editorial ao longo desta matéria.

— Preparei tudo com cuidado, do jeito que eu queria. As fotos foram feitas na chácara da nossa família, onde estão as cinzas da Camila. Aquilo tudo teve um significado enorme para mim — comenta Carlos.

Depois de prontas, as fotos foram enviadas “tipo enxurrada” para a maioria dos jornalistas envolvidos com moda no Sul do país. Praticamente todos publicaram ao menos uma nota, destacando aquele desconhecido tão criativo. Ao ver a repercussão, a equipe da loja Pandorga, de Porto Alegre, ficou interessada em revender a coleção – que já estava sendo comercializada em família mesmo, para algumas primas. Com o dinheiro da rescisão da malharia, comprou mais tecidos e fez mais vestidos, todos com aceitação incrível e comercialização relâmpago. O ateliê continuava sendo o quarto da irmã, que fornecia inspiração e aconchego para tanto trabalho.

Até que chegou o Donna Fashion Iguatemi de 2012, para o qual Carlos foi convidado a participar como estilista novato. Suas criações, feitas especialmente para o evento, impressionaram. A repercussão do desfile foi o empurrão definitivo na carreira do sujeito que ainda costurava sozinho. Ao ver a ascensão meteórica, o namorado propôs abrir, em sociedade, o Atelier Carlos Bacchi. E o resto da história a gente já conhece.

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Vestido longo de linho tingido com erva-mate

“Dentre as fibras naturais, o linho é meu favorito. Ele consegue ser rústico e supernobre. Colorido com tingimento ecológico, se torna ainda mais especial.” Carlos Bacchi

Hoje, os dois tocam o negócio – Juliano com a parte burocrática e administrativa, Carlos na criação e produção. No velho casarão construído no início do século 20, bem ao lado da igreja, no centrinho de Ana Rech, os dois mimam as cadelas Seda e Tule, da raça golden retriever, e projetam um futuro de expansão para a marca, sem nunca perder de vista o estilo autoral de Bacchi e o jeito artesanal de pensar as roupas, feitas exclusivamente sob medida. Sem afetação alguma e repleto de uma simplicidade genuína, Carlinhos procura não viver moda 24 horas por dia. Em qualquer folga, sai em busca de uma trilha ou um passeio radical para fazer ao lado de Juliano, em algum recanto escondido da Serra.

— Ih, conheço todas essas cachoeiras aqui da volta. Adoro fazer trilha, andar no meio do mato, tomar banho de rio.

Mas e aquele guri consumista da adolescência? Provavelmente ainda está lá, em algum lugar, mas agora bem mais preocupado em construir uma história repleta de nuances e desafios. Como um bordado ou uma trilha no mato.

 

Ficha técnica

Modelos: Nathaline Marchett e Karen Wolff (Cast One) e Gabriela Boff
Beleza: Jefferson Hoffmann
Styling: Carlos Bacchi Filho
Locações: Chico do Mel e Capelinha Nossa Senhora do Rosário de Ana Rech, Caxias do Sul

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