Com uma linguagem contemporânea, artesanato catarinense ganha status de exclusividade atualizando técnicas centenárias

Por Mariana de Moraes Sales, equipe Revista Catarina

Desenvolver artigos refinados, seguindo o estilo handmade, é a proposta de Jamilly Machado, proprietária da marca Terezza. Com o olhar renovado para a cultura local, a designer, que iniciou o projeto com o seu trabalho de conclusão de curso na Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), segue a macrotendência de resgate das origens e dos processos manuais, diferenciando-se pelo produto exclusivo e atemporal. Jamilly desenvolve peças exclusivas feitas de crochê e rendas de bilro.

— Num mercado em que as coleções de moda chegam semanalmente às araras das lojas, a qualidade das peças fica de lado em nome do descarte rápido e da necessidade da novidade. O fast fashion atingiu seu auge com uma moda
democrática, porém a ânsia pela novidade nas araras a qualquer preço segue muitas vezes por uma linha inconsequente – aponta a empresária.

Na contramão do movimento fast fashion, a busca é por uma moda mais perene, visando a qualidade e a diferenciação. Um vestido Terezza pode demorar até 45 dias para ser concluído, e por ser feito manualmente é impossível recriar com exatidão a peça. Mesmo que sejam os mesmos pontos e a mesma modelagem, as mãos humanas não reproduzem da mesma forma. Ao contrário da produção feita por máquinas, no processo manual há sentimento e história.

História essa que desde 2014 é contada em parceria com 12 detentas do Presídio Feminino de Florianópolis. São elas que executam as criações de Jamilly, que vai até o presídio uma vez por semana para acompanhar e levar novas criações. O trabalho de crochê é pago mensalmente, de acordo com as peças produzidas, havendo ainda remissão da pena pelo tempo trabalhado.

Além do cunho social na produção dos artigos, a marca atua em parceria com artesãs locais, produzindo as peças da marca sob medida. Tanto no presídio quanto na produção externa, o cronograma de execução é baseado na troca de conhecimento.

— Eu crio as peças e as modelagens e escolho os pontos das tramas que irão compor o produto. Depois, repasso a ideia inicial para as artesãs. A partir desse momento, a peça muitas vezes é modificada com a ajuda delas. Juntas,
nós identificamos o que ficará melhor para aquela modelagem e aquele fio, então acaba sendo um processo bem colaborativo, feito a muitas mãos.

Segundo Jamilly, o público local tem absorvido o produto e cada vez mais valoriza esse tipo de trabalho. Essa valorização do handmade já acontecia em outros países, e atualmente está ganhando espaço no mercado nacional, que tem conhecido melhor seus produtos padronizados e hoje sente falta de um diferencial, de algo exclusivo. Jamilly comemora:

— Somos abençoados com uma cultura local riquíssima. Em Florianópolis encontramos ótimas artesãs, temos um tesouro que é a renda de bilro, com pontos como a tramoia, criados por artesãs catarinenses, encontrados somente  aqui. Há uma lacuna que precisa ser preenchida entre a artesã e o profissional de moda; precisamos transformar o artesanato também em produto de moda.

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TRADIÇÃO

Uma das mais ricas expressões culturais, a renda de bilro tem forte presença no Nordeste e no Sul do país, principalmente em Santa Catarina e sua capital, Florianópolis. Nascida na Europa do século 15, a técnica passou pela Bélgica, pela Itália, pela França e por Portugal, no Arquipélago dos Açores. Símbolo de exclusividade, inicialmente a técnica adornava igrejas e o vestuário da nobreza.

No início do século 18, a renda foi introduzida nas terras catarinense pelas mãos dos imigrantes portugueses. A técnica de tramar os fios foi integrada facilmente na rotina dos açorianos que habitavam a antiga Desterro, já que na época os homens dedicavam-se a pequenas lavouras, e as mulheres, a tecer. Com a pesca e o artesanato como principais fontes de subsistência, os pescadores ficavam longos períodos no mar, e as rendeiras trocavam em terra suas peças para ajudar no sustento familiar. A tradição passada de mãe para filha deu origem ao ditado popular “onde há rede há renda”.

Muito difundida nos séculos passados, a tradição da renda de bilro passou e passa por períodos de crise. Com o surgimento das rendas industriais e a entrada de outros rendados no mercado local, a continuidade da produção fica em segundo plano. Devido à dificuldade de comercialização e ao desinteresse das jovens em aprender o ofício, outros
setores avançam e a tradição açoriana acaba ficando para trás.

A designer Jamilly Machado aposta na mão de obra artesanal como diferencial para sua marca. Fotos: Mauri Cherobin/Especial

A designer Jamilly Machado aposta na mão de obra artesanal como diferencial para sua marca. Fotos: Mauri Cherobin/Especial

TECENDO OS PRÓXIMOS PASSOS

Desde a década de 1990, a Fundação Cultural Franklin Cascaes iniciou ações para a valorização do artesanato de referência cultural. Por meio de oficinas e exposições, o objetivo é que os saberes tradicionais passem de geração
para geração. O recém-inaugurado Armazém da Renda, criado pela Secretaria Municipal de Cultura, pretende ser o centro de referência da arte rendeira em Florianópolis. Situado no Mercado Público Municipal, o espaço visa
difundir a atividade, abrigando exposições e oficinas e servindo como ponto de venda para as artesãs.

Segundo Margarida Simões, coordenadora do Artesanato de Cultura na Fundação Cultural Franklin Cascaes, o maior problema em manter a tradição é o escoamento. Hoje, as artesãs fazem a renda e enchem o baú de suas casas, mas por não conseguirem vender seu trabalho param de tecer.

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No Rio Vermelho, por exemplo, a tradição é mantida da mesma forma que no século 18, com as rendeiras colocando as peças na janela de suas casas para serem vendidas. Ou seja, o consumidor terá que passar em frente à casa da rendeira para conhecer e, quem sabe, comprar seu trabalho. Quando questionada sobre a valorização do trabalho manual, Margarida revela o cenário atual:

— Antigamente, as filhas aprendiam aos sete anos a arte da renda de bilro. Com o passar do tempo, isso ficou para trás. Hoje, essa mesma menina faz uma faxina, e em um dia ganha 150 reais, enquanto a rendeira leva uma semana para fazer um trilho que lhe renderá o mesmo valor. Mas a coordenadora também vê novos caminhos para o trabalho realizado no bilro:

— Para incentivar a população jovem, temos que mostrar os valores da renda. A trama não serve somente para trilho e toalha de bandeja; devemos agregar valor a esse trabalho. Na moda é possível criar colares, roupas, detalhes em sapatos e bolsas. Um grande exemplo disso é Martha Medeiros, que com seu trabalho em renda conquistou Paris e Nova York e seu vestido mais em conta custa R$ 15 mil.

Margarida Simões fala com propriedade, afinal, com o movimento slow fashion dos dias atuais, a busca pela compra com significado cresce progressivamente, e os consumidores tendem a comprar de forma mais consciente e durável. E não se trata de uma tendência sazonal, mas de um movimento de moda sustentável que está ganhando cada vez mais seguidores. Para esse público, as tendências que mudam de seis em seis semanas já não agradam. A compra
é motivada pela qualidade e pelo sentimento de diferenciação. Nesse cenário, itens artesanais ganham status de exclusividade, tornando-se um produto premium devido ao seu valor agregado.

No Brasil, Martha Medeiros resgata o luxo e a singularidade das rendas brasileiras. A estilista alagoana, que
aprendeu a costurar com a avó, iniciou seu trabalho customizando blusas, e hoje tem o know-how handmade
de extrema sofisticação inserido no mercado internacional. Martha foi a primeira brasileira a expor no museu dedicado à renda em Calais, na França, em 2010. Seu vestido de noiva esteve ao lado de criações de Chanel, Valentino e Prada. Em 2012, a marca Martha Medeiros chegou à poderosa loja de departamentos Bergdorf Goodman, em Nova
York, que pela primeira vez em 105 anos abriu suas portas para uma marca brasileira.

O LUXO PELA DIFERENCIAÇÃO

Reconhecida mundialmente, Paris é a capital da alta-costura, processo de criação em que o valor do produto reside no minucioso trabalho manual. Tanto que, para uma criação receber esse status é necessário que seja no mínimo 70% feita com processos artesanais. Além disso, de acordo com as regras da Câmara Sindical de Alta-Costura Parisiense, só podem ser vendidos dois exemplares de cada peça apresentada nos desfiles, para consumidoras de continentes diferentes, que pagam US$ 500 mil por peça, ou mais.

A alta-costura é composta de diversos trabalhos manuais que, executados com precisão, transformam vestidos em verdadeiras obras de arte. As rendas são uma constante nos desfiles, e o crochê esporadicamente se junta às peças mais desejadas do mundo, como bolsas e vestidos. Em 2010, a Chanel apresentou uma coleção que evidenciou flores e tramas manuais em crochês delicados e românticos, com bolsas custando em média R$ 12 mil.

Agregar valor é o desafio local. Marcas consagradas, como Prada, Louis Vuitton e Gucci, passam por momentos de resgate na diferenciação de suas peças. Já não basta adquirir uma bolsa ou uma roupa com assinatura de grife. O consumidor quer mais, e com a riqueza dos processos manuais é possível preencher essa lacuna.

— Há uma necessidade gigante de capacitar as artesãs para que elas sejam profissionais de moda atentas às mudanças de mercado e às novas tendências de comportamento e consumo. Dessa maneira, teremos como tornar o artesanal rentável, e essa arte milenar não será extinta – conclui Jamilly Machado, da Terezza.

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