Comprar roupas está virando coisa de homem

Aumento na procura por roupas masculinas têm chamado a atenção do mercado da moda

Número de lojas voltadas ao público masculino tem crescido muito nos últimos meses
Número de lojas voltadas ao público masculino tem crescido muito nos últimos meses Foto: Emily Berl

 

Nova York – É de conhecimento geral que homens e compras combinam tanto quanto xadrez e estampa floral, ou seja, nada bem. Existe uma razão pela qual as roupas masculinas, na maioria das lojas, ficam afastadas nas paredes dos fundos, ou estocadas, enquanto as roupas de mulher ficam na frente e no centro.

Mas recentemente, parece que a luta pela igualdade dos sexos finalmente surgiu onde menos se esperava. Ao fazer compras, os homens estão exigindo mais e melhores serviços, e os revendedores estão atendendo aos pedidos.

“Por muito tempo, os compradores masculinos eram considerados os filhos adotivos”, disse Jim Moore, diretor de criação da GQ. “Acreditava-se no varejo que os homens não se interessavam por moda e que eles só iam às lojas de departamento para comprar meias e cuecas.”

Mas nos últimos meses, um número surpreendente de varejistas abriram lojas que atendem exclusivamente o público masculino, com ambientes e atendimento ao cliente especializados. A Bergdorf Goodman e a Saks Fifth Avenue remodelaram seus departamentos de artigos masculinos, e a Urban Outfitters criou um catálogo exclusivamente masculino.

Enquanto, tradicionalmente, os homens têm sido consumidores teimosos, e os primeiros a fechar o bolso em tempos de crise econômica, há um sentimento crescente entre os varejistas, evidenciado pelo sucesso fenomenal dos novos conceitos masculinos de marcas como a Coach e a J. Crew, de que uma nova geração de consumidores masculinos está, de fato, abraçando a moda. Ou que pelo menos os mais jovens não têm tanto medo de fazer compras.

Marcas de luxo como a Hermes e a Bottega Veneta responderam ao crescente mercado abrindo lojas exclusivas para homens, e a Lanvin, grife francesa que vestiu os ganhadores do Oscar de melhor ator e melhor atriz deste ano, planeja abrir uma loja luxuosa na Madison Avenue neste semestre. Em agosto, Christian Louboutin, o estilista conhecido por seus saltos agulha de sola vermelha, abriu uma loja para homens em Meatpacking District, a primeira de três lojas exclusivamente masculinas planejadas para esse ano. Louboutin espera que a participação dos calcados masculinos nos negócios da empresa cresça de 5 para 20 por cento dentro de poucos anos. E eles normalmente custam dois mil dólares o par.

A tendência também chegou às lojas mais populares como Club Monaco, Ralph Lauren e até a Ugg, fabricante de calçados de lã de carneiro, que abriu uma loja para homens este verão.

A razão para toda essa atenção com os homens é bem óbvia: desde a recessão, eles têm representado o segmento que mais cresce no mercado de vestuário adulto, segundo o Serviço de Pesquisa do Consumidor da NPD Group, empresa de pesquisa de mercado. Em 2011, as vendas em dólares de roupas masculinas cresceram 4 por cento, para 55 bilhões de dólares, lideradas por fortes ganhos em peças como camisas sociais, ternos de alfaiataria e paletós esportivos. (O mercado feminino é duas vezes maior, mas cresceu a uma taxa de 3 por cento no mesmo período.)

Enquanto o aumento na procura por roupas masculinas é em parte atribuído à economia, o fator mais importante foi provavelmente um interesse maior na moda.

“As roupas masculinas ficaram tradicionalmente escondidas atrás das roupas femininas por décadas e décadas”, disse Marshal Cohen, analista chefe de setor da NPD. “É a primeira coisa a despencar durante uma recessão, e a última a se recuperar – com exceção desta em particular.”

Em um comentário muito noticiado, feito durante um especial da CNBC em maio, que tinha como foco o crescimento da J. Crew, Mickey Drexler, o executivo-chefe que tem sido considerado um visionário do merchandising, observou que “andar pelo departamento feminino, em qualquer ocasião, não é coisa de homem”. E qualquer coisa dita por Drexler, responsável por muito do crescimento da Gap nos anos 90, geralmente é vista como ouro no varejo.

Quando a grife começou a experimentar novos conceitos masculinos em 2009, o sucesso de um terno chamado Ludlow foi uma grande surpresa. Então em março, ela inaugurou uma filial apenas com ternos em Tribeca, chamada Ludlow Shop, que tem sido um sucesso entre os homens. As vendas de artigos masculinos da J. Crew estão crescendo mais que as dos femininos, de acordo com a empresa, que tem planos para abrir outras duas lojas masculinas este ano, uma em Boston e outra em Los Angeles.

Entender o novo consumidor masculino, entretanto, não é tão fácil, e os varejistas estão estudando seus hábitos nos mínimos detalhes. Junto com outras peculiaridades, eles descobriram que os homens gostam de cadeiras, as quais criam a impressão de que não há problema com o fato de eles estarem numa loja, mesmo que não estejam fazendo compras. Cores escuras também são importantes na decoração, e a música deve se ajustar ao gosto deles. Muitas lojas estão usando o termo “caverna para homens”.

Desde que a Coach, marca mais conhecida por suas bolsas femininas, começou a abrir lojas para homens dois anos atrás, suas vendas quadruplicaram, para uma projeção de 400 milhões de dólares este ano. Os homens têm se tornado clientes tão importantes que a companhia diferenciou o ambiente de compras para eles, também nas lojas já existentes. Em uma de suas lojas na Madison Ave, 595, a seção masculina recebeu uma pintura marrom chocolate nas paredes e iluminação indireta, enquanto o restante da loja é revestida de azulejos brancos reluzentes. E os homens são abordados de uma maneira diferente.

“As mulheres gostam de receber ajuda, ao passo que os homens gostam de se virar, mas com alguma diretriz”, explica Greg Unis, vice presidente sênior. “Eles não querem ser surpreendidos logo que entram na loja.”

Dentro da loja principal da Club Monaco na Bloor Street, em Toronto, um espaço dedicado aos artigos masculinos foi inaugurado em novembro e expõe jaquetas de tweed misturadas com troncos de árvores cortados, e você talvez ouça uma faixa do álbum dos Rolling Stones “Exile in Main St.” ou um reggae dos anos 60. Ao mesmo tempo, na seção feminina, você pode ouvir música contemporânea das bandas First Aid Kit ou Warpaint, músicas que inspiraram Caroline Belhumeur, a estilista da coleção feminina da loja, nesta temporada. Outra loja exclusivamente masculina deve ser aberta em Hong Kong em setembro, com o tema “Americana”, com sapatos Rancourt & Co, ternos Southwick e relógios vintage Rolex.

“Nesse momento”, disse Aaron Levine, o vice presidente de designs masculinos da empresa, “nosso homem quer ter seu próprio ambiente e ser bem atendido, do mesmo modo que nossa mulher”.

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