Conheça a trajetória de Rui Spohr, mais emblemático estilista do Sul

Em entrevista à Donna ZH, ele revisita acervo de 60 anos de carreira

Foto: Diego Vara

Existe uma expressão repetida com certa frequência na rodas sociais gaúchas, sejam recepções, casamentos ou qualquer outra ocasião que exija apuro nos trajes femininos. Ao ver uma amiga elegante, bem vestida e confiante na própria aparência, a interlocutora comenta algo do tipo: Nossa, que vestido lindo!. Ao que a elogiada imediatamente responde: Ah, Rui é Rui, né.

O nome que basta-se esconde um leque de significados. Os principais: a garantia de um traje bem cortado, de acabamento perfeito, com caimento adequado e, principalmente, de bom gosto e cheio de elegância. Não precisa de muita explicação. Para ser belo, basta ser Rui.

Hoje, aos 84 anos (que completou neste sábado, 23), ele ainda é ele. E engana-se quem julga que o costureiro vive de nome. Nada. De sua cabeça repleta de cabelos branquinhos milimetricamente aparados ainda saem criações para noivas, debutantes e tantas outras mulheres que querem, como ele mesmo gosta de dizer, sentir-se rainhas.

Difícil haver em Porto Alegre alguém verdadeiramente interessado em moda que desconheça a trajetória de seu maior estilista. Nascido em Novo Hamburgo em 1929, Rui nem sempre foi Rui. Batizado Flávio Henneman Spohr e destinado a ser padre ou militar pela parteira que o trouxe ao mundo, mudou de nome para assinar suas primeiras criações. Filho de uma tradicional família de origem germânica, decidiu muito cedo que a moda era o seu mundo. Durante um estágio forçado na fábrica de calçados do pai, percebeu que não poderia dedicar-se a qualquer atividade que envolvesse processos repetitivos, sem criatividade, sem arte. Nos momentos vagos na fábrica, desenhou seus primeiros vestidos. Nunca teve dúvida de que nascera para ser Rui.


Fotos: Diego Vara

Aos 22 anos decidiu que, para fazer moda, precisava estudar em Paris. Foi o primeiro brasileiro a se profissionalizar em moda na França. A família, em princípio, protestou. Mas logo viu que o guri não se daria por vencido e resolveu apoiar a aventura no Exterior. Na Cidade Luz o rapazote virou um homem da moda. Viveu as maravilhas de estar no maior pólo cultural do mundo naqueles tempos, viu gente como Yves Saint Laurent e Karl Lagerfeld darem os primeiros passos, aprendeu a beber vinho tinto e champanhe, tornou-se fluente em francês, conheceu boa parte da Europa e trabalhou com Jean Barthé, o maior chapeleiro da França. E, claro, também sofreu. Saudades da família, agruras de um estrangeiro sem o apoio de seu país para concluir os estudos, fome durante uma longa greve dos correios que o impediu de receber o dinheiro enviado pela família para o seu sustento. Ao final do curso na Chambre Syndicale de la Cuture Parisienne, decidiu voltar para casa.

Porto Alegre era o destino com o qual Rui, que a essas alturas já era Rui, sempre havia sonhado. Rio de Janeiro ou São Paulo, centros em que a moda já era uma indústria mais desenvolvida, não atraíam o jovem costureiro.

? Lá eu não seria ninguém. Não havia alta-costura e chapelaria no Rio Grande do Sul. Era a minha oportunidade ? comenta.

Na chegada, alugou um apartamento de solteiro no Centro para ser o ateliê. Demorou mais um tempo, no entanto, para que Rui se tornasse o Rui, aquele que simplesmente é. Recém formado em Paris, chegou a Porto Alegre para ser chapeleiro.

? Marcava quase todas as clientes para a mesma hora. Fazia fila no ateliê, elas se encontravam e conversavam, pensavam que eu estava fazendo sucesso. Assim comecei, de fato, a fazer sucesso.

Nesse período bateu-lhe à porta a segunda grande decisão de sua vida – a primeira, segundo ele, havia sido Paris. Estava fora quando uma moça loira, de olhos claros e um vestido rodado sentou-se no sofá, à sua espera. Ele precisava de uma secretária para receber as clientes, marcar horários e cuidar da burocracia do ateliê. Ela aceitou então trocar seu esforço pela experiência de aprender a fazer chapéus. Casaram-se no começo do terceiro ano de trabalho.

? Não teria feito nada disso sem a Dóris. Não seria ninguém sem ela – derrete-se.

Amiga de décadas do casal, a jornalista Celia Ribeiro comenta a parceria afinada entre Rui e Dóris.

? A empresa é resultado da comunhão entre os dois. Dóris nunca competiu na criação e deu condições para que ele pudesse desenvolver suas maravilhas. É um sucesso compartilhado ? destaca.

Dessa comunhão nasceram uma filha e histórias capazes de preencher uma conversa animada por dias, sem interrupção. Como não havia desfiles de moda em Porto Alegre, também não havia modelos. Com a intenção de desfilar suas criações, Rui recrutava moças da sociedade. Uma das mais queridas foi Lucia Curia, descoberta em um bonde por Dóris e que chegou a trabalhar na Maison Chanel, em Paris. Durante uma das viagens do casal pela Europa, foram visitar a pupila na loja. Depois de lhes apresentar as novidades, Lucia os convidou para o desfile de apresentação da nova coleção, que ocorreria em duas semanas. Convite aceito, partiram para a Alemanha, para visitar parentes. A estada em terras germânicas estava mais do que agradável, o que acabou retendo o casal. Na volta a Paris, já passado o tal desfile, fizeram uma nova visita a Lucia, para se desculpar pela ausência. Depois de protestar, ela mostrou o mapa com os assentos reservados a M. e Mme. Spohr, sentados entre Marlene Dietrich e Truman Capote.

? É, essa nós perdemos, né Dóris. Poderia ter praticado o meu alemão com ela.

? Como íamos saber…

Logo o ateliê do Centro ficou pequeno para o talento de Rui, que, com a queda nas encomendas de chapéus, finalmente entregou-se às costuras. Tem sido no antigo casarão da Rua Miguel Tostes que mulheres de todas as idades e com todos os propósitos entregam seus sonhos e expectativas nas mãos do homem capaz de forjá-los. Foi em uma das salas repletas de espelhos que a pequena figura de Elis Regina sentou-se no chão, abraçando os joelhos, e explicou como queria o vestido de seu primeiro casamento. Conversaram por horas. Ele ouvia a Pimentinha, que gesticulava e expunha seus desejos. Enquanto ela falava, ele desenhou. E ela decidiu que seria bem daquele jeito o seu vestido. Na mesma sala, algumas semanas depois, ele atendeu Elis ao telefone, que com voz triste desfez o trato sobre o vestido. Algum tempo depois ele viu as fotos do casamento, com a noiva vestida pelo estilista das celebridades da época, Dener Abreu.

? Ela queria usar o meu vestido, mas a pressão era grande. Ela não poderia casar vestida por um estilista de Porto Alegre.

 
Rui atualmente, aos 84 anos, reproduziu imagem de 1975 


No ateliê que guarda tantas memórias também repousa um acervo gigantesco. A grande vedete dos guardados de Rui Spohr são as roupas que ele mantém intactas em seus cabides, identificadas pelo ano em que foram feitas e por quem as usou. Primeiras damas, misses, cantoras e mais uma infinidade de personalidades brasileiras estão representadas ali, pelos seus figurinos. Também há formas de chapéus, máquinas de costura, moldes, tesouras, tecidos e muitas, muitas revistas de moda. Há fascículos de moda franceses que datam de 1890. A coleção da Vogue França começa na década de 1960 e vem até hoje. Sem uma falha sequer. O destino de tudo isso preocupa Rui. Gostaria de doar para alguma entidade reconhecidamente responsável e interessada no estudo da moda. Dóris trabalha, há alguns anos, na catalogação de todo o material. Pensa na possibilidade de abrir uma fundação com o nome de Rui, para preservar o acervo e estimular a formação de novos estilistas. Só ideias, por enquanto.

A maturidade chegou para o costureiro como um limitador. Sente a mente jovem, ativa, cheia de ideias. Mas também sente o corpo menos disposto. Não se queixa. Diz-se feliz por rever sua trajetória e encontrar a vida que teve. E não se entrega. Continua, como foi na juventude, um bom dorminhoco, que precisa de nove ou dez horas de sono por noite, e um apaixonado por champanhe – e pelo espumante brasileiro, seu equivalente. E continua fazendo o que mais gosta, que é desenhar, criar, fazer arte enquanto faz moda. Enfim, continua praticando sua maior qualidade, que é simplesmente ser Rui. Durante duas ensolaradas tardes, o estilista recebeu a reportagem de Donna em seu ateliê, para conceder a entrevista cujos trechos principais você lê abaixo:

Donna – O que é moda para Rui Spohr?
Rui – A moda reflete a situação econômica e social. Até os anos 1960, a moda era dirigida a senhoras de 25, 30 anos. As manequins tinham 24, 25 anos. Com a revolução sexual, com a chegada da minissaia, os hippies, as drogas, tudo mudou. Moda é, em primeiro lugar, você se encontrar a si mesmo, aceitar-se como você é. E tentar valorizar o que tem de melhor e disfarçar o que tem de menos bom. A partir do momento que nos aceitamos, procuramos um estilo que nos dá uma personalidade, nos dá adjetivos. Com isso, qualquer um pode ter um guarda-roupa extremamente funcional, com peças clássicas. Mas não é aquele clássico como sinônimo de velho, conservador. O estilo acompanha a moda sem perder-se. E a moda, também, é autocrítica. Se não tenho mais idade para mostrar braços, não vou mostrar.

Donna – E como você vê a moda hoje?
Rui –
Está mais difícil vestir uma mulher do que há anos atrás. Ela tem excesso de informações, pois todo mundo faz moda e todo mundo tem verdades. A mulher tem que descobrir a sua. Quando elas vêm aqui, geralmente as noivas, mostram os tablets e dizem: gostei disso, disso, disso e disso. E eu respondo: olha aqui minha filha, esse e esse e esse que tu gostaste não têm nada a ver um com o outro. Tu tem que definir o que tu gosta. E tem outra: muitas vezes as mulheres não conseguem enxergar as diferenças físicas entre elas e as modelos das fotos. O que fica bem em uma mulher alta e magra é diferente do que cai bem em uma baixinha. Com esse excesso de informação, ficou muito difícil tomar uma decisão e assumi-la.


Esta saia que recria as linhas do xadrez escocês representa um grande momento na tecelagem brasileira. Apesar de ter sido feita na década de 1970, mantém-se atual. Completam o look o blazer de chamois negro e a blusa vermelha em crepe

Donna – Vivemos a era dos mega-casamentos. O vestido de noiva também é uma questão de moda?
Rui – Às vezes tenho a impressão de que o vestido de noiva não é mais importante. A banda, a festa, as danças, a comida, tudo parece mais importante do que o vestido da noiva. Ocorre de eu conversar com amigos e perguntar como estava determinada festa de casamento e eles falam sobre tudo, menos da noiva. E se a gente pergunta por ela, eles dizem: ah, estava bonitinha. E como era o vestido? Ah, nem reparei. Como ninguém repara no vestido da noiva? Acho que é tudo tão igual que ninguém mais repara. Parece que as noivas estão todas iguais. É tudo tomara-que-caia. Mas ainda acredito na importância de vestir uma noiva. Ela pode até não estar casando com o homem da sua vida, mas a sua festa de casamento é um momento ímpar. E o vestido da noiva é a alma da cerimônia.

Donna – Qual é a maior dificuldade para se fazer uma moda ao estilo Rui?
Rui –
Acho que uma das maiores dificuldades é a tecelagem. Antes tínhamos tecidos maravilhosos aqui mesmo. Agora, para se ter uma coisa boa é preciso pagar uma fortuna para que venham da Espanha, de Paris ou de Nova York. No Brasil não temos mais bons tecidos.

Donna – As mulheres têm tido estilo atualmente?
Rui –
As mulheres, de modo geral, se sentem mais valorizadas quando estão na tropa, quando seguem a moda, a mesmice. Mas a mulher realmente elegante, que sabe se vestir bem, não segue a moda. Ela acompanha de leve a moda. Quem segue a moda são as pessoas que não sabem se vestir e a cada seis meses trocam de guarda-roupa. Mas quem consegue ter um estilo, uma verdade, veste-se com mais elegância, mais segurança. E foi isso que sempre fizemos aqui. Fiz vestidos há 20, 30 anos, que poderiam ser usados hoje. A gente se impressiona. Muitas clientes trazem roupas feitas há muitos anos para reformar, pois as medidas mudaram. Temos até um caso famoso, de uma cliente que comprou um vestido em 1971 para a sua festa de 40 anos e, ao completar 80 anos, usou o mesmo vestido. O que é bonito, é bonito sempre. O bom gosto é imortal. É como uma obra de arte.

Donna – Qual o segredo de uma boa roupa, de um bom vestido?
Rui –
O corte. Hoje em dia, ninguém mais tem corte. Colocam enfeite por cima, para disfarçar. Mas as pessoas de bom senso e sensibilidade ainda sabem o que é a mais célebre frase: less is more. É o que eu gosto de chamar de sofisticada originalidade do simples. Ah, o acabamento também é parte do segredo de uma boa roupa. No momento em que a mulher veste e sente que ele lhe cai bem, ela se sente segura.

Donna – Você tem fama de interferir nas escolhas das suas clientes e tentar influenciá-las de acordo com as suas preferências. Isso acontece mesmo?
Rui –
Muitas vezes elas chegam com ideias, coisas que já viram e pensam que vai ficar bem. Mas nem sempre essas referências são adequadas para a mulher que está ali. E muitas vezes quase temos que forçá-las em um primeiro momento, para tentar convencê-las de que aquilo que elas acham que querem não vai ficar bom. E muitas vezes começamos o processo com as clientes meio desconfiadas. Mas, à medida que a roupa cresce, elas vão pegando segurança, elas mudam de opinião. Experimentam a roupa ainda inacabada e já abrem um sorriso. Já pensam em cortar o cabelo ou usá-lo preso, trazem as jóias para ver se combinam com o modelo. A última prova, aliás, faço com elas penteadas e maquiadas. Elas se sentem rainhas. Aliás, essa última prova das noivas é um evento. Toda a equipe do ateliê para e vem assistir. As noivas adoram e as funcionárias veem o trabalho que fizeram. Desde o financeiro até o pessoal da loja, todos assistem e se envolvem com essa magia.


Vestido de tule duplo com aplicação de flores moldadas artesanalmente, feito em 1975. Foi usado por Irene Maria Ormazabal Moura Dorneles, para o seu debu no Country Club de Porto Alegre.


Donna – De onde vem o bom gosto? É possível cultivá-lo, aprendê-lo?
Rui –
Quem nasce em uma família em que a mãe se veste bem, decora a casa com vasos de flores e tapetes persa e cresce cercado de beleza desenvolve um olhar especial, um bom gosto. É uma questão de sensibilidade. Imagine a sorte de uma criança que cresceu no meio do bom gosto: ela vai ser um profissional com uma sensibilidade muito maior do que um outro que não teve a mesma história. Mas é possível, sim, construir um senso estético, um bom gosto. Mas o indivíduo vai ter que trabalhar mais do que aquele menino que viu a sua mãe bem arrumada, perfumada, com a casa bem decorada. Qualquer um pode desenvolver o bom gosto. Mas para alguns isso vem naturalmente e, para outros, precisa ser trabalhado.

Donna – Os cursos de formação em moda podem ajudar?
Rui –
Sempre digo aos jovens que estão se formando e vêm me procurar: a cabeça tem que ser toda voltada para a moda. Equilíbrio, harmonia, cor, tudo isso precisa ser compreendido por quem faz moda. E sempre digo também que a última coisa que um sujeito de moda deve fazer antes de dormir é olhar uma revista de moda ou um figurino. Depois de cinco, seis páginas, o livro cai ao lado da cama e, durante toda a noite, o cérebro vai fermentar essas ideias. No outro dia, tu acorda com muita sensibilidade. Todo o artista precisa de muita sensibilidade para descobrir o seu jeito.

Donna – Você e Dóris construíram a carreira juntos, no ateliê. Como foi o primeiro encontro? Houve interesse à primeira vista?
Rui –
Eu voltei de Paris usando jeans, com um visual moderno, revolucionando os padrões locais. E eu era bonito, um sujeito interessante. Ela era uma mulher bonita também. Mas o primeiro contato foi somente profissional. O interesse foi crescendo à medida que nos conhecemos, até que decidimos nos casar.

Donna – Como foi fazer o vestido de casamento da sua mulher?
Rui –
Foi normal, absolutamente normal. Escolhemos o estilo juntos. Foi um casamento pela manhã, então optamos por um curto. O vestido não tinha nada, apenas corte.


Vestido drapeado em tecido laminado ouro, criado nos anos 1980. Foi usado por Dóris Spohr em diversas ocasiões sociais

Donna – Por que você escolheu ficar em Porto Alegre depois de voltar de Paris, em detrimento de construir a carreira em centros maiores e como mais tradição em moda, como Rio de Janeiro ou São Paulo?
Rui –
No Rio ou em São eu não sou ninguém. Não era e não sou até hoje. Eu acertei muito em ficar aqui. Minha família conhecia muita gente e até hoje tenho muitas conexões aqui. Nunca me arrependi.

Donna – Você vive um momento de balanço de vida e de carreira. Qual a conclusão desse balanço?
Rui –
Em um dia como esse, em que faço uma releitura da minha vida, me sinto pleno. Penso como foi bom, como foi lindo, como foi boa a nossa vida. Foi muito difícil, mas foi muito bom. Adotei uma maneira mais complicada de trabalhar, pois sempre me dediquei muito ao acabamento, às minúcias, aos detalhes. Mas isso tudo foi gratificante. Nos momentos de tédio que vivi trabalhando na fábrica do meu pai, aos 14 anos, ficava pensando que não poderia suportar uma vida como aquela, em que máquinas apenas funcionavam, sem qualquer pensamento. Eu não tinha em que pensar e isso era horrível para mim. Comecei então a folhar revistas e ver roupas. Vi então a Evita Perón e aquelas roupas lindas de Christian Dior que ela usava. Assim me inspirei para começar essa carreira.

Donna – Foi uma vida boa, então.
Rui –
Tivemos uma vida extremamente maravilhosa e gratificante. Ver as mulheres sentindo-se belas ao sair daqui é muito bom. A mãe do noivo, por exemplo, vive um sentimento de perda quando entrega seu filho a uma outra mulher. Ela precisa de um grande vestido para se sentir muito bem e não sofrer essa passagem. Dou muita força para as mães de noivo, por exemplo. Elas vêm tímidas, às vezes com o dinheiro contado, querendo vestir um Rui. Comentam que viram amigas lindas como nunca estiveram. E fazemos alguma coisa adaptada para ela, para que se sinta bem e bonita. Tudo isso me preenche, me faz feliz a cada dia.


Usado pela jornalista Celia Ribeiro, na época em que era apresentadora de TV, este vestido de gala tem sua originalidade no material: palha preta, usada para fazer chapéus. Rui ganhou de uma chapeleira que havia fechado sua produção

Donna – E o futuro do acervo acumulado no ateliê?
Rui –
Tenho medo que se perca. Eu sou capaz de doar tudo o que eu tenho sem cobrar nada, caso houvesse alguma entidade interessada. Nem precisa botar o meu nome. Vamos chamar apenas de museu de moda. Tenho preciosidades guardadas aqui. A revista Vogue Francesa, por exemplo, tenho tudo, desde os anos 60. Quando estudantes e pesquisadores vêm aqui fazer seus trabalhos, nós acabamos revivendo tudo o que está guardado. E eu percebo como a moda era simples. Havia somente o corte, a arquitetura da roupa. Era de uma simplicidade e um bom gosto impressionantes. Então penso que não posso deixar tudo isso se perder.

Donna – E como tem sido a chegada da idade?
Rui –
Não me sinto velho. Me sinto usado (risos). A cabeça continua a mesma da juventude, mas o meu físico já não me leva onde eu quero. Li que a velhice é um aprendizado de perdas. E isso é muito interessante, é verdade. Não posso mais isso, não posso mais aquilo… lá na Zona Sul, onde moramos, vemos os caras correndo na orla do Guaíba, cheios de vitalidade. Isso não posso fazer mais. Então, posso dizer, de cabeça, me sinto um jovem. Um jovem mais amadurecido, mas ainda assim um jovem. Mas o corpo pesa.

Donna – Qual a fórmula para a cabeça manter-se jovem?
Rui –
A moda é uma constante renovação. Apesar do estilo bem definido, eu leio tudo sobre moda e anoto o que for interessante. Depois, no momento da criação, tudo isso volta de alguma forma.

Donna – Você é feliz?
Rui –
Sou uma pessoa muito feliz. Posso dizer quase, quase realizado. Às vezes me pergunto o que eu poderia ter feito diferente. Mas não vejo. Fiz o que fiz com as oportunidades que se apresentaram na minha vida. Eu aproveitei. Fiz duas coisas decisivas na minha vida, que foram as melhores que eu poderia ter feito. A primeira foi ter ido para Paris estudar. E a outra foi ter casado com esta mulher (aponta para Doris, que está sentada à sua frente, acompanhando toda a entrevista).

Donna – Quais são os seus planos?
Rui –
Já fiz muitos planos. Agora não faço mais. Pessoas da minha idade não têm mais futuro. Temos um pouco de presente e temos o amanhã. Só isso. Quero que este amanhã seja o melhor possível. Mas daqui a cinco anos, pode ser que eu não esteja mais aqui, não sei.

Donna – A sua etiqueta vai permenecer?
Rui –
Eu quero continuar trabalhando até quando eu puder porque gosto e porque tenho muita responsabilidade com a minha equipe. Talvez a etiqueta, o estilo Rui possa continuar, possa sobreviver a mim. Não necessariamente com roupas, mas com cursos, estágios, enfim, com a formação de novos costureiros, novos estilistas.

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