Conheça os segredos por trás da caracterização e figurino da novela “Liberdade, Liberdade”

(TV Globo/Divulgação)
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Por Márcio Gonçalves, Globo

Os profissionais escalados para interpretarem personagens de época sabem que a tarefa exige desapego da vaidade. Principalmente as atrizes. Em ‘Liberdade, Liberdade’, por exemplo, as mulheres foram instruídas a parar com a depilação. Tudo para remeter à realidade das pessoas que viveram no início do século XIX.

—É importante reproduzir o que se passava naquele período. A gente pede para todo mundo deixar os pelos de debaixo do braço e da virilha. Para quem fez depilação laser, colocamos uma peruquinha no lugar — entrega Lucila Robirosa, a responsável pela caracterização da novela.

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Mas essa não é a única tática empregada para causar impacto nas cenas. Lucila também recorre a alguns efeitos especiais fundamentais. A maquiagem, que normalmente serve para embelezar o elenco nas histórias contemporâneas, ganha importância por fazer justamente o contrário. No rosto, quase nada é utilizado. Exceto uma mistura de glicerina para dar brilho excessivo e, assim, reproduzir o suor. E outra escura, que é esfregada nos atores para deixá-los sujos. Naquela época, os banhos não eram tão frequentes.

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O que mais impressiona, no entanto, é a agilidade com que Lucila cria as cicatrizes e queloides fictícias que marcam os corpos dos escravos da novela. A aplicação é feita quase como um carimbo, a partir de moldes já prontos. E o processo pode ser realizado em menos de cinco minutos, como Lucila comprova ao abrir a bolsa e, rapidamente, aplicar o trabalho no antebraço de uma pessoa. Como a cor de cada marca depende do tom de pele, sombras para os olhos ajudam a deixá-las mais claras ou escuras.

— É claro que, dependendo da situação, precisamos caprichar um pouco mais. Só que já estamos treinados e, por mais difícil que seja, conseguimos dar conta de arrumar todo mundo relativamente rápido — garante a caracterizadora. Isso porque, em algumas sequências, além do elenco principal, há mais de 150 figurantes para serem preparados.

E as cicatrizes não se limitam aos escravos. Dionísia, interpretada por Maitê Proença, sofria abusos intensos do marido e terá diversas marcas espalhadas pelo corpo.

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A sujeira também não aparece só na pele. Dentes e unhas se destacam, incluindo os atores e atrizes mais belos da produção.

— Mesmo a Joaquina,  Andreia Horta, e os nobres precisam aparecer assim. Só os negros que não, porque os escravos eram escolhidos pelos dentes brancos — explica Lucila, que usa batom escuro para deixar as unhas de nomes como Mateus Solano e Bruno Ferrari com aspecto de encardidas.

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O ambiente inóspito e as condições precárias em que o Brasil se encontrava em 1808 criou um trabalho extra para a equipe liderada pela figurinista Paula Carneiro. As roupas e acessórios da época costumavam ser repetidos várias vezes e, por isso, desgastados. Então, para ‘Liberdade, Liberdade’, milhares de tecidos foram comprados, lavados, modelados, depois envelhecidos e sujos com uma mistura especial desenvolvida pela equipe. Muitas vezes, as peças são até cortadas para parecerem rasgadas pelo uso intenso.

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Quanto mais contato com a terra e serviços manuais, maior o desgaste necessário da roupa. Se os nobres usavam cerca de seis a oito peças no dia a dia, entre chapéus, casacos, coletes, corpetes, camisas, luvas, rendas, calças, saias longas, anáguas e botas, os negros usavam duas ou três no máximo, como vestidos, saias, blusas e turbantes.

Cintura alta

O realismo ganha liberdade de criação com as mulheres mais nobres e o cabaré de Virgínia, vivida pela atriz Lília Cabral. Já Joaquina mistura referências contemporâneas com o período da novela: os bordados são atuais, com tipos de manga e tecidos confeccionados no estilo da época. Por ter sido criada em Portugal e acompanhar a corte, Joaquina traz para o Brasil trajes que até então as mulheres não conheciam. Caso, por exemplo, das peças com cintura alta.

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Já Virgínia abusa dos corseletes, anáguas, vestidos e robes longos para valorizar sua beleza. Branca, interpretada por Nathalia Dill, tem vestidos em formatos bem brasileiros, com a cintura baixa, de uma só cor e bordados, tom sobre tom. O maior problema para as atrizes, no entanto, é o excesso de tecidos e as altas temperaturas que têm sido registradas no Rio de Janeiro, onde a trama é gravada.

— Cheguei a comentar que o figurino era muito quente para utilizar assim, embaixo de sol forte e calor. Mas a Paula (figurinista) disse que ‘naquela época o clima era mais ameno e fazia até um pouco de frio no Brasil’, para tentar ajudar a gente — brinca Andreia Horta.

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