Entrevista! Blogueira de moda mais influente do Brasil, Camila Coutinho fez de seu nome uma grife

Em uma madrugada de insônia de 2006, Camila Coutinho deu o primeiro clique para se tornar a blogueira de moda mais influente do Brasil. Naquela noite, contudo, a então estudante de Design de Moda de Recife estava simplesmente decidida a substituir os e-mails de notícias compartilhadas com duas amigas por um espaço que reunisse o que elas mais gostavam de ler: os maiores bafões da época, como o último chilique da garota-problema Lindsay Lohan. Nascia, assim, o Garotas Estúpidas, blog pioneiro em moda no país. Foi batizado em homenagem ao single da cantora P!nk, Stupid Girls: uma brincadeira com a despretensiosa proposta de comentar tudo aquilo que faz parte do lado mulherzinha de todas nós em um lugar onde, como a própria Camila diz, “ninguém enchesse o saco”.

– Demorou muito para ter uma audiência considerável porque na época não tinha quase redes sociais nem outros blogs para linkar. A audiência era basicamente vinda do Google, que você fidelizava e acabava sempre voltando – conta Camila, em entrevista por telefone. – Lembro que, quando tive cem visitantes únicos, fiquei bem assustada e feliz, porque tinha criado o blog para três pessoas lerem, incluindo eu.

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E a audiência não parou de crescer. Quando o blog começou a alcançar  2 mil visualizações por dia, Camila foi logo contar ao pai, o empresário Marcelo Valença, dono de um bistrô na capital pernambucana:

– Ele me disse: “Filha, 2 mil pessoas é muita gente. Compra esse domínio, faz um layout e vai em frente, porque isso não está normal não, está muito bom!”. Foi o que fiz, e logo recebi a primeira proposta de anúncio.

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A conversa entre amigas havia virado trabalho em tempo integral, a ponto de Camila deixar de lado o emprego com um estilista de Recife, cidade onde mora até hoje, para se dedicar exclusivamente ao Garotas Estúpidas. Os assuntos também se ampliaram: o mundo dos famosos passou a dividir espaço com notícias sobre beleza, compras e novidades de moda. E foi dando dicas do que vestir e sendo sua própria modelo que a it girl de Recife foi ainda mais longe: virou ela mesma uma grife e uma empresária à frente de uma equipe que se divide na produção de conteúdo e nas áreas comercial e financeira. Sem contar as duas assessorias de imprensa – no Brasil e no Exterior – para cuidar da agenda requisitada da queridinha do mundo fashion.

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Aos 28 anos, Camila não para de acumular superlativos. O título de blog mais influente do Brasil, citado no início deste texto, é literal: foi eleito pelo portal de tendências Signature 9 – que analisa, entre outros itens, visualizações, popularidade e qualidade do conteúdo. Camila também é a quinta blogueira de moda mais importante do mundo, atrás apenas de nomes como o The Sartorialist, principal referência quando o assunto é street style.

Não bastasse o sucesso virtual – mais de 1,7 milhão de seguidores no Instagram e mais de 12 milhões de visualizações no YouTube –, Cami chegou às prateleiras das lojas, com coleções de sapatos, roupas e acessórios. Na mais recente empreitada, criou a terceira parceria com a fast fashion Riachuelo, vendida em todo o Brasil. Para 2016, tem contrato assinado com a Coca-Cola Clothing para uma linha de pins especialmente para as Olimpíadas do Rio. Pausa para respirar? Que nada! Entre posts no Insta, matérias no blog e presença VIP em eventos, ainda deu tempo para, em novembro, clicar uma campanha da Jimmy Choo (na foto abaixo), uma das maiores grifes de sapatos do mundo.

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Quer mais? Além dos vídeos que mostram sua rotina e os bastidores de semanas de moda, Camila criou três programetes que já somam centenas de visualizações no YouTube. O mais famoso, De Carona, convida celebridades a dar uma volta de carro e compartilhar segredos – já dividiram o banco com Cami os atores Chay Suede e Bruno Gagliasso, a estilista Charlotte Olympia, a cantora Ivete Sangalo e, mais recentemente, a über model Gisele Bündchen. Quem mais falta na lista, hein?

– Acho que Kim Kardashian. Meu pai falou que está ficando difícil. Falei: “Pai, e Gisele, hein?”. E ele: “Filha, agora você tem um problema. Seu nível está mais alto, não pode mais descer”. Além de Kim, Beyoncé também seria muito legal.

Assista ao De Carona com Gisele:

 

Ao lado da amiga Vic Ceridono, editora de beleza e criadora do blog Dia de Beauté, Camila protagoniza um reality que percorre os mais bacanas destinos espalhados pelo globo, como Dubai, Londres e Nova York. Para completar, ainda estreou em 2015 o quadro Me Ensina, em que personalidades mostram para as leitoras algo que sabem fazer muito bem. Ufa!

Para dar o play! O primeiro episódio da série #CamiEVicTakeNY

 

Mas, afinal, o que faz com que Camila tenha ganhado a simpatia e o follow de tanta gente? Entre os possíveis motivos, a personalidade sem frescura e gente como a gente, que transformou a garota nada estúpida apaixonada por famosos em uma verdadeira nativa do mundo das celebs. Também vale citar o estilo hi-lo da moça, que mistura como ninguém o sapato comprado em dólares com vestido de magazine – e que, claro, gera identificação imediata com o público que não tem o closet recheado com Louboutins. E a fórmula, à primeira vista simples, não poderia ter dado mais certo: transformou o que era somente um blog em duas marcas, o site Garotas Estúpidas e a persona Camila Coutinho. Passados nove anos, ela própria é hoje sua maior criação e seu maior negócio. Além de grife disputada, seu perfil pessoal supera o do GE em mais de 1 milhão de seguidores no Instagram.

– Quando comecei o blog, nunca imaginei que Camila Coutinho ia virar alguém que assina coisas, vai a eventos. Imaginei sempre o Garotas Estúpidas como veículo.

Na entrevista a seguir, Camila analisa o papel das blogueiras – e a pertinência deste termo hoje –, compartilha sua visão de moda e conta como é circular no mundo das celebridades.

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O importante para se vestir bem é a informação, não o dinheiro

Donna – Qual o papel da blogueira de moda hoje?
Camila Coutinho – Na época em que comecei, a gente realmente apresentou o mundo da moda para os consumidores mais leigos, que não trabalhavam com isso. A moda era um clubinho muito fechado. Algumas pessoas trabalhavam, eram experts e ditavam aquilo. Os demais só tinham como saber de moda em sites muito especializados ou revistas, que usavam termos mais técnicos, com uma linguagem diferente. Só quem estava muito interessado em moda pegava uma revista para ler de cabo a rabo. As blogueiras abriram um novo mundo para várias pessoas. Claro que isso não veio somente delas, e sim do movimento do mundo na internet. A informação chega mais rápido, e isso faz com que as pessoas queiram saber e consumir mais. O papel das blogueiras humanizou e simplificou a moda e ajudou o mercado a girar.

Donna – O que você acha do termo blogueira? Ainda faz sentido?
Camila – Acho que a palavra blogueira está um pouco defasada. Vem de blog, e blog hoje é só uma das dezenas de coisa que você pode ser na internet. Dá para ser só instagrammer, youtuber, snapchater. O termo que acho mais certo para definir hoje em dia é realmente digital influencer, mas não amo porque deixa muito aberto, como se qualquer pessoa que tivesse um Instagram pudesse ser. O que, se você for pensar, é mesmo, porque qualquer pessoa que tem 10, 50, 100 ou mil seguidores acaba influenciando aquelas que a seguem.

Donna – Você ainda consegue parar e escrever para o blog?
Camila – Consigo, mas confesso que, nas fashion weeks, mando por áudio mesmo, as fotos dos looks e a Andressa (colaboradora no Garotas Estúpidas) faz. Depois, dou uma revisada quando precisa – estamos muito alinhadas com linguagem. Mas, sem dúvida, escrevo.

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Donna – Você acaba de assinar uma parceria com a Riachuelo e, antes disso, já havia emprestado seu nome para outras grifes. Como escolhe as marcas com que vai trabalhar?
Camila – É muito natural. Cada vez mais, tenho pensado que quero fazer parcerias a longo prazo. Gosto muito de projetos criativos, não simplesmente fazer um post. Marcas como Riachuelo e Dummond, e agora a Coca-Cola Clothing, com que estou assinando uma linha de pins para as Olimpíadas. Esse tipo de projeto me deixa muito animada. São marcas com que já tenho um relacionamento muito bom, porque vai ser a longo prazo, então precisa ter identificação e sinergia. Eu realmente me jogo! Tem algumas pessoas que escolhem os itens quando já está tudo pronto, mas, quanto mais eu puder, mais me meto. Na Riachuelo, os estilistas criaram a coleção em cima do moodboard que eu criei. Fizemos várias reuniões pessoalmente e por WhatsApp, mandando prova de roupa por vídeo. Dou opinião no tamanho da manga, do decote, na etiqueta, em ideias de como promover, em tudo. Sou bem detalhista.

Donna – No início do blog, você falava muito de celebridades, e hoje está inserida nesse meio. Como é ir para o mundo das famosas que você queria conhecer?
Camila – É muito engraçado, porque realmente vivi todos os estágios, de falar sem conhecer e depois ir para a fashion week e estar lá como repórter, na ralação. Sei que as pessoas lembram muito de mim porque acompanharam isso, não só as celebs, mas também as da moda. Toda temporada em que eu podia, estava lá trabalhando. São pessoas a quem hoje tenho mais acesso, mas que, para mim, são normais no final do dia. Fico muito feliz de elas conhecerem e admirarem meu trabalho.

Donna – E quem foram as pessoas mais legais que já conheceu?
Camila – Nossa, muitas! No Brasil, posso dizer que conheço e que me conhecem as pessoas de moda que mais admirei. Costanza Pascolato é um ícone que admiro não só por se vestir muito bem, mas também por ela ter o dom de se atualizar que a gente tem que olhar e aprender – porque ela é conhecida por todas as gerações. De fora, a (estilista) Diane von Fürstenberg (na foto abaixo, ao centro, junto com a socialite Paris Hilton)  é uma pessoa com quem tenho um relacionamento muito bom, já almocei na casa dela, já a entrevistei, já fiz vários trabalhos. A (designer de sapatos) Charlotte Olympia também, muito fofa. A própria Gisele (Bündchen) é fora da curva de legal, você aprende muito convivendo com ela. O estilista Tommy Hilfiger também, e Christopher Bailey, (diretor criativo) da Burberry, é um doce.

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Donna – Quando você viaja para as temporadas de moda internacionais, como faz a curadoria do que quer mostrar aos seus seguidores? E o quanto se preocupa com seu próprio look?
Camila – A primeira fashion week que fui foi a de NY, e acho que nenhuma blogueira havia ido antes. Fui como veículo, e não como Camila. Foi labuta total! Me preocupava com o que estava vestindo, claro, mas ia de tênis, casaquinho, coisas confortáveis. Hoje, a fashion week funciona para as blogueiras como uma vitrine diferente, elas também são vistas como parte daquilo, no sentido de gerar conteúdo e mostrar as tendências. Além de ver o que a gente fala nos posts, ainda tem que pensar na mala, no que vamos usar em cada desfile. Há uma preocupação com a imagem da blogueira, e não somente com o conteúdo do veículo.

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5 lições de sucesso da Cami

1. Não tenha medo de aparecer

Desde o início do blog, Camila correu atrás para fazer com que o Garotas Estúpidas ficasse mais e mais conhecido. Em uma época em que os sites pessoais eram novidade, ela criou o próprio anúncio e espalhou por comunidades do Orkut que tinham a ver com o conteúdo proposto. Hoje, é muito mais fácil de divulgar seu espaço com as redes sociais

2. Networking é tudo

Morando fora do eixo Rio-São Paulo, Camila achou um jeito de conhecer as pessoas certas para sua carreira deslanchar.

– Por mais que você possa trabalhar de onde quiser com a internet, é muito importante esse contato pessoal. O GE já tinha um ano quando o site Chic fez uma lista dos cinco blogs mais legais do Brasil. Eu não estava na lista, mas fui atrás de todo mundo que estava. Aí conheci o blog de Vic Ceridono (Dia de Beauté), o de Ale Garattoni. Mandei e-mail para os que eu mais gostava me apresentando. Foi quando comecei a construir um networking na base da cara de pau mesmo.

3. Invista em conteúdo

Ainda que as redes sociais tenham virado protagonistas e até deixado os blogs em segundo plano, Cami faz questão de investir em conteúdo – um diferencial frente às blogueiras de look do dia.

– Sem dúvida, a atenção das pessoas está mais disseminada. Estamos cada vez mais em busca de notícia e informação rápida. Os blogs que eram muito baseados em imagem perderam um pouco para Instagram, Pinterest, Tumblr. Como o GE sempre foi baseado em informação, sentiu um pouco o fortalecimento das redes sociais, mas nossa audiência é muito fiel.

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4. Não esqueça  das redes

Principalmente do YouTube, aposta forte de Camila para os próximos anos:

– O YouTube está crescendo muito, é uma rede social muito estável, que você sabe como funciona, imagina onde vai parar, é a longo prazo. O Snapchat é muito legal, mas você não imagina até onde vai.
5. Seja fiel aos  seus critérios

Todo mundo sabe que a maioria das blogueiras faz publieditoriais (posts patrocinados), ganha cachê para participar de eventos – afinal, virou profissão e todo mundo precisa de dinheiro. Mas nem todo anunciante vai funcionar e ser bem-recebido pelo seu público. Por isso, é fundamental saber com quem você está se comunicando e escolher o que mais tem a ver.

– Primeiro, penso se esse conteúdo serviria para o meu leitor, sendo publi ou não. Basicamente, são coisas que uso ou gostaria de usar, que mostraria para uma amiga. Nunca venderia nada algo em que não acredito.

 

 

* Fotos: Felipe Carneiro, Bruna Valença e Luiza Ferraz

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