Entrevista! Estilista Fernanda Yamamoto vem a Porto Alegre para participar de bate-papo e exposição

Foto: Tavinho Costa, Divulgação
Foto: Tavinho Costa, Divulgação

Autoral, com viés contemporâneo e inspirações que fogem das tendências: assim é a moda de Fernanda Yamamoto, estilista que vem a Porto Alegre na próxima semana como uma das convidadas da Demo². Em sua passarela, tem vez uma roupa atemporal, que mescla sentimentos e atenção aos detalhes. Não à toa, uma das premissas de sua marca, na lista das mais bacanas e aguardadas do line-up da São Paulo Fashion Week, é o trabalho artesanal.

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Por aqui, Fernanda compartilha um pouco de seu universo criativo e o processo de confecção de suas peças durante um bate-papo na sexta-feira, mediado por Eduardo Motta, da Radar.

– Vou levar alguns looks também. A ideia é apresentar um pouco do trabalho atual. Vou selecionar alguns trabalhos que tenham o DNA da marca, que representem a marca – conta, em entrevista por telefone desde São Paulo. – Além da conversa, vamos fazer uma exposição do último desfile, que foi apresentado no final do ano passado.

A seguir, Fernanda analisa o mercado de moda, a relevância da semana de moda e a valorização do handmade.

Sua marca própria completa 10 anos no ano que vem. Como avalia essa trajetória? O que mudou da primeira coleção que você assinou para a mais recente?
Houve um amadurecimento em todos os processos. No início era mais intuição de que caminho a seguir. Você vai tateando, fazendo algumas escolhas. Hoje isso se consolidou. Tenho bem claro o DNA da marca, o cliente, o que queremos transmitir através das roupas que fazemos. A moda tem esse poder de transmitir muito além da tendência ou do que as pessoas em geral associam à moda, que é visto como algo superficial e passageiro. Alguns pilares guiam nosso trabalho. Um deles é o artesanal, presente em todas as coleções, seja no momento do desfile, mais conceitual e de sonho, até a coleção que apresentamos para a nossa cliente. Há toda essa questão humana. Não tenho a pretensão de ser uma marca enorme. Aqui é um atelier, não uma fábrica.

Seu trabalho é normalmente conduzido por temas que passam longe de tendências, como o desfile inspirado nas obras do artista plástico Hélio Oiticica (verão de 2013). Como é trabalhar pensando mais no que inspira você pessoalmente do que em tendências passageiras?
Não vivo em uma bolha, pelo contrário. Quando falo que fujo das tendências é porque elas vêm pasteurizadas, prontas. As marcas vão no evento, compram a revista e aquilo chega mastigado. Vão na tecelagem e há cinco painéis, o romântico, a sustentabilidade… Isso é muito superficial e raso. O que acontece é a reprodução deste padrão e das tendências que são comercializadas como um produto. Nosso processo de criação é diferente. Tem, sim, uma inspiração, que é relevante pessoalmente, mas que diz alguma coisa em um contexto macro. Falo que fujo das tendências, mas, de alguma forma, estamos dentro de um mercado. Compramos os tecidos dentro da cartela de cores da tecelagem, que fez a pesquisa para essa cartela dentro das tendências. De alguma forma, também estamos inseridos dentro deste contexto maior de mercado e do que é oferecido. Tem algo que é autoral, mais particular, mas sempre dentro deste mercado.

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As dobraduras ao estilo origami surgem com frequência nas suas coleções.  É uma maneira de homenagear suas origens?
Com certeza! Às vezes de uma maneira mais explícita, outras mais veladas. É uma maneira de pensar a construção, não dessa maneira tão dimensional e chapada. Como uma forma de tentar trazer maneiras novas de mexer e explorar o tecido e as formas.

Me fala um pouco sobre o seu estilo pessoal: o que você ama e o que não usa?
Não uso calça! Adoro vestidos, saias e blusas, acho que têm uma versatilidade. Você está no dia e emenda um evento à noite. Vestido é sempre superfeminino. Gosto bastante de roupas confortáveis, mas, claro, com um corte bem feito e um detalhe diferente.

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Como você vê a importância das semanas de moda atualmente? Muitas marcas, como À La Garçonne, estão deixando o line-up oficial para fazer desfiles individuais, por exemplo.
Precisamos repensar algumas coisas. Sem dúvidas, a SPFW perdeu muita relevância e força. Se você der uma olhada nos últimos 10 anos em quais eram as marcas, e olhar hoje… Não são trabalhos tão relevantes como já foram. (Perdeu) a força que o evento tinha como lançador de trabalhos autorais. Existe espaço para todos os perfis de marca, mas há uma falta de marcas com trabalhos mais inteligentes. Para nós, o desfile é um momento muito importante, em que colocamos a essência daquilo que a gente acredita na passarela. É o ápice de um processo de criação, e só depois desdobramos em uma coleção mais comercial.

Em de seus desfiles mais belos, você trouxe o trabalho da rendeiras do Cariri (inverno de 2016), inclusive com as artesãs na passarela. Como você vê essa valorização do feito à mão?
É um reflexo de um momento em que vivemos, de desaceleração e de repensar todo o processo de como a gente constrói uma sociedade. É na moda, na maneira como a gente se alimenta… Vejo como um movimento bastante positivo. A moda reflete esses anseios e questões da nossa sociedade, de tocar e falar sobre tantas outras coisas… Falamos da valorização do trabalho artesanal, inclusive com uma questão social, ao trabalhar com comunidades. E acho que cada vez mais as pessoas estão incorporando isso. Precisa sempre ter cautela com essa história de sustentabilidade quando isso é um discurso de marketing, de grandes empresas. Mas existe um movimento genuíno, que vem principalmente de ações individuais, então são de marcas pequenas, de consumidores que buscam entender de onde vêm os produtos.

Veja mais fotos da coleção de verão de Fernanda Yamamoto

Neste mês, você e o designer japonês Kisaburo promoveram um workshop que desconstrói as diferenças de gênero com os quimonos. Você vê a quebra de gênero como uma aposta consolidada para o futuro?
Vejo sim. Esse workshop foi muito bacana. A sociedade japonesa é muito machista. Para nós é mais desconhecido, mas lá tem o quimono de homem, o de mulher, e quebrar isso é algo muito revolucionário. Ainda temos muito a avançar, mas cada vez mais vai se falar sobre moda sem gênero.

Como você vê a moda brasileira atualmente?
Existe esse lado positivo de gente repensando as maneiras de produzir, todas essas marcas jovens questionando os modos tradicionais, o upcycling, o trabalho manual e artesanal, com comunidades… Vou muito dar palestra em faculdades e isso é uma coisa que cada vez mais os alunos estão engajados. Por outro lado, é um mercado muito difícil e tradicional. Todo esse movimento ainda é muito de nicho. Precisa se consolidar muito mais. Os gigantes do mercado ainda são as marcas de fast fashion, mais tradicionais, que não investem tanto em produto, no artesanal.

Quem são os novos designers brasileiros que você curte e indica?
Indico a Comas, que faz upcycling. Já desenvolvemos um desfile com a Comas, que entrou para a coleção. Tem o Diego Gama, que foi meu assistente por três anos e agora abriu a marca dele, desfila na Casa de Criadores. Tem uma marca que inclusive é daí, a Nuz, que é muito legal. Acompanho bastante o trabalho.

Ia perguntar sobre a sua relação com a moda gaúcha, e você acabou falando já da Nuz, mas tem alguma outra marca que você goste e que seja daqui?
Conheço sim! É engraçado que a Hybrida, uma loja que tem aqui da Marisa Ota.Quando fui lá, conversei com ela sobre as marcas, e foi engraçado que só tinha marca gaúcha. A Helen Rödel também. Tem uma representatividade de marcas gaúchas bem fortes aqui, com trabalhos bem autorais. Porto Alegre tem muito a ver com o mercado de São Paulo.

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