Estilista Glória Coelho define o que é luxo na moda: excelência, criatividade e tecnologia

Foto: Julio Cordeiro
Foto: Julio Cordeiro

Por Paola Pasquale, especial

Apaixonada. Não há outra maneira de descrever Glória Coelho no auge dos 41 anos de uma mais do que bem-sucedida carreira. Aficionada por inovação, tecnologia, astrologia e física quântica, a estilista ama o que faz e só para de criar quando está assistindo a algum filme: vê três todas as noites, revela.

Nascida em Pedra Azul (MG), Glória passou a infância na Bahia e cresceu em São Paulo, cidade pela qual é maravilhada. Estudou moda em Paris antes de retornar ao Brasil para lançar sua grife própria, em 1974. Junto com o estilista Reinaldo Lourenço, seu antigo assistente, com quem foi casada por 27 anos, formou aquela que ficou conhecida como a “família real” da moda nacional. O filho deles, Pedro Lourenço, se lançou na carreira dos pais aos 12 anos, na São Paulo Fashion Week, assumindo a criação da segunda linha da mãe, a Carlota Joakina. Mesmo após a separação, ela conta que eles mantêm a amizade.

– Casei errado: casei com um criativo, mas devia ter casado com um empresário para administrar os negócios – ri, sem cerimônias.

A Dama da Moda brasileira, título que ganhou da revista britânica Wallpaper, esbanja elegância e simplicidade ao dissertar com naturalidade sobre design, arquitetura, ciência, espiritualidade e, é claro, moda. Para alguém com tantas referências e uma curiosidade incansável, é difícil ficar parada – como demonstram as inúmeras parcerias firmadas pela estilista. A passagem por Porto Alegre, por exemplo, foi para a inauguração da primeira loja gaúcha da Inverness, marca de meias que produz os acessórios de sua grife e com a qual mantém colaboração desde 2001.

Além da linha de meias, Glória já assinou sapatos para a gaúcha Tches Brazil, lustres para a Bertolucci, móveis para a Dell Anno e está produzindo uma exposição no Senac São Paulo, aberta até março de 2016, sobre sua trajetória. Seu trabalho e seu estilo ainda inspiraram a construção do primeiro hotel fashion do Brasil, da rede Best Western, com inauguração prevista para abril de 2016, no Rio de Janeiro, um projeto que contou com a consultoria da própria estilista.

Ao prezar pela excelência de tudo em que coloca as mãos, ela acredita que o primor seja sinônimo de luxo, assim como design único e tecnologia avançada. Por isso, enxerga o mercado da alta moda nacional com necessidades bem diferentes da opulência de antigamente: hoje, os compradores mais requintados procuram nas novas etiquetas desenhos inovadores e roupas de alta performance. Uma das principais representantes desse novo luxo, Glória Coelho é dona de um estilo minimalista e prático, misturando suas inúmeras referências para criar peças arrojadas para suas clientes fiéis.

Donna – Na coleção de Inverno 2016, você se inspirou no Castle Black, onde vive o personagem Jon Snow, da série Game of Thrones. É uma aproximação a um público mais jovem? Você assiste ao seriado?
Glória Coelho – Eu sou muito fã da série! Assisto a “só” três filmes por noite (risos). Olha, eu sou muito mais jovem do que muita criança de 15 anos. Se eu pudesse, faria, sim, roupas para um público mais jovem, dá para brincar mais. Mas tenho um público fiel, que me acompanha nesses 41 anos e que não posso abandonar. Fazemos a coleção para três mulheres: 60% é para essa que nos acompanha desde o início, tem a minha idade e é mais discreta, não gosta de sair “piriguete”. A segunda mulher é uma menina com uma beleza irreal, sem gordura no corpo, tem entre 15 e 20 e poucos anos e quer vestir roupas lindas e ousadas – e, se eu fosse ela, eu estaria de maiô hoje conversando com você (risos). E tem a mulher especial, muito inteligente, trabalha muito, mas gosta de sair, comer e beber, então ela pode estar um pouco fora do peso.

Donna – Nessa mesma temporada, você apresentou uma coleção mais casual, repleta de mantôs. Acredita que o mercado de moda festa está saturado?
Glória – Não acredito nisso. Sabe por quê? Sempre vão existir casamentos, formaturas. O que dá pra dizer é que tem muita oferta por aí, mas nós fazemos algo que ninguém faz: mantôs. Você não tem onde buscar mantôs, então pode buscar com a gente.

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Donna – Como vê o mercado de luxo hoje no Brasil?
Glória – Enxergo o mercado de luxo para uma elite de 1% da população, o que é bastante gente. Estão principalmente em São Paulo, mas tem no Brasil inteiro. Esse público gosta das novas etiquetas que estão entrando no Brasil, de grande qualidade e desenho diferenciado. O conselho que dou para as crianças é: ter excelência no que fazem, independente do que for, e fazer o que sabem. Não sabe fazer, não faz. Tem que acabar a roupa de maneira que pareça um produto tecnológico, mesmo que não seja.

Donna – O que é luxo na moda? Está associado ao valor que se paga?
Glória – Acho que, em primeiro lugar, o luxo é a excelência, independente do valor. Em segundo lugar, é criatividade, aquela ideia que faz acontecer, a inovação, a arte. Em terceiro lugar, a tecnologia, que erra menos. Imagina fazer uma roupa inteira em uma impressora 3D, sem erro algum. Ou um tecido que é mais macio, não tem cheiro, é antibacteriano, ou até que mude de cor enquanto a gente conversa? Isto é luxo.

Donna – Qual a definição de luxo, então?
Glória – Luxo é excelência. Não digo perfeição, porque só a natureza nos dá, mas a melhor qualidade, a melhor tecnologia.

Donna – Este ano, com a renovação do logo, você lançou uma linha de camisas polo e acessórios, a Polo Coelho. A marca está ficando mais acessível?
Glória – Sim. Todas as marcas são assim, têm um produto de imagem, que acaba sendo muito caro e apenas 1% da população vai poder comprar, contra toda a concorrência que você tem. Aí, se você faz uma roupa para a mulher que trabalha, a alfaiataria, já representa 20% da população. Mas as polos todo mundo pode ter. Todas as grifes têm uma bolsinha mais barata, um perfume, que é para dar acesso à excelência da marca.

Donna – Novos valores, como a sustentabilidade, estão mais presentes também?
Glória – Sustentabilidade é indiscutível, a coisa mais importante que tem no planeta. Precisamos cuidar da nossa casa, não é mesmo? Esse é o valor mais importante, e muita gente ainda precisa acordar pra isso.

Donna – Vivemos um momento em que muito se fala no empoderamento da mulher. Como isso se reflete na moda?
Glória – Essa luta sempre esteve presente, já aconteceu na França muito antes e não refletiu em nada na moda. Uma mulher lutando pelos seus direitos não deixa de ser mulher e não muda seus gostos. O que tentamos entender é por que um homem ainda ganha mais que uma mulher ou por que a mulher não está mais presente na política. O que tem que influenciar a moda é o clima, a tecnologia. A mulher vai ser sempre mulher.

Donna – Como mulher, o que você sente que mudou ao longo dessas quatro décadas de carreira?
Glória – Quando cheguei a São Paulo, a mãe de uma amiga amava a minha mãe, que era baiana e não tinha preconceito. Para ela, não tinha judeu, católico, branco ou negro. Na época era raro, mas todo mundo foi ficando mais assim. O mundo está muito violento, mas sinto que tem uma coisa no ar, espiritualmente, de compaixão, respeito. Ainda tem muitos que julgam, mas já tem muitos que aceitam o outro como um complemento. E eu nem dou bola pra quem julga.

Donna – Na moda, há condições igualitárias entre homens e mulheres?
Glória – No mercado da moda, sempre teve espaço para os dois. Tivemos Chanel, Schiaparelli, Madeleine Vionnet, grandes mulheres que se destacaram na expressão da roupa feminina, porque têm a sensibilidade de uma mulher. O homem é mais direto, mecânico. A mulher é mais física quântica, e o homem é mais física mecânica.

Donna – Uma mulher pode ser empoderada através da moda?
Glória – As coisas que você faz de forma mais orgânica, natural, com mais cabeça, têm mais sucesso. Tudo que se faz com amor tem mais chances de dar certo.

Donna – Seu filho, Pedro Lourenço, está encerrando as operações de sua grife no Brasil este ano. Você o incentivou?
Glória – Incentivei. Tenho grandes amigos empresários que falam que a sociedade no Brasil tem 30% de ladrões, 30% de gente honesta e um meio que se mistura entre os dois lados. Então, como ele, de longe, trabalhando na Itália e morando em Londres, vai administrar a empresa nessas condições? Eu já sofri pra caramba nesses 41 anos com desonestidade, tive grandes problemas com isso. Então, não é pra ele ficar.

Donna – Como fica o coração de mãe com ele longe?
Glória – Invento tanta coisa pra fazer… E sei que ele está bem, feliz. É o que importa.

Donna – Como enxerga essa nova geração de estilistas? Tem algum novo criador que você goste de acompanhar?
Glória – Eles são focados, poderosos, inteligentes, trabalhadores. Tem novos criadores que gosto de acompanhar, mas não vou falar, sabe por quê? Porque eles não me pagam. Se pagassem, eu falaria (risos).

Donna – O que esperar para 2016?
Glória – Estamos fazendo um hotel que vai ser lançado no início do ano, uma exposição no Senac em São Paulo, a Polo Coelho, uma placa quântica para a Dell Anno, as meias com a Inverness…

Donna – Algum projeto pessoal?
Glória – Acho que meu plano maior é ter organização para poder me divertir mais, viajar mais. Amo o que faço, mas estou muito só numa coisa. Faço tudo com alegria, amor, paz e pensando em um todo, mas, se eu pudesse só criar, não ter que lidar tanto com a administração, seria o máximo.

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Inspirada na série “Game of Thrones”, a coleção inverno 2016 de Glória Coelho apresentada na última São Paulo Fashion Week apostou em mantôs e looks mais nórdicos

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