Estilista Patricia Bonaldi conquista o Brasil com vestidos bordados e onipresença na internet

O corpo mignon, a timidez e a voz mansa e baixa enganam quem encontra pela primeira vez Patricia Bonaldi, 35 anos. A aparente delicadeza da mineira esconde uma gigantesca obstinação. Tão surpreendente quanto a ambivalência que ela guarda é a sua própria trajetória: em 12 anos, se tornou uma das empresárias de moda de maior sucesso no Brasil com duas marcas desejadíssimas entre mulheres das mais variadas faixas etárias. A Patricia Bonaldi é a mais poderosa das grifes de moda festa, segmento que ela revolucionou numa volta ao feito à mão, ao bordado e ao excessivamente rendado, características até há pouco tempo consideradas cafonas.

— No início eu sofri essa pressão: por que essa pessoa está fazendo roupa bordada? Mas eu sempre fui de defender um ponto de vista, nunca tive medo de ir na contramão. Não por rebeldia, mas por acreditar. Eu acreditava e era impossível alguém me deter.

Esse é o tipo de frase que escuto dela durante o Minas Trend, realizado em Belo Horizonte, em uma entrevista batalhadíssima e cronometrada. Ideias fortes que ela profere com a voz macia e sempre olhando nos olhos do interlocutor. É dessa cabeça que saem os vestidos mais cobiçados do Brasil, seja na versão imponente da marca que leva seu nome, seja na interpretação casual batizada de PatBo, outro sucesso de público. Mas ela ainda queria (e quer) mais: criou, ao lado do marido, o empresário Luis Morais, a Nohda, uma holding independente de moda que reúne, além de suas grifes, mais duas marcas mineiras que adquiriu: a Lucas Magalhães e a Apartamento 03, de Luiz Claudio Silva.

O estilo apaixonado e perseverante parece permear tudo o que a empresária – e workaholic – faz.

— Eu sou louca por trabalho. Meu tempo hoje é muito escasso, eu trabalho por horas e tenho minutos com as pessoas. Mas eu fico muito feliz quando consigo me preencher dessa maneira, pois tenho muita energia. Todos esses projetos com os quais me envolvo tiram o melhor de mim — reflete a estilista, que exporta para mais de 20 países e está nos principais centros de compras de luxo do mundo, como Harrods, Neiman Marcus e Luisa Via Roma.

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patriciabonaldi

O caminho da internacionalização fez com que a empresária valorizasse ainda mais seu grande diferencial: a delicadeza (e até a possível imperfeição) do artesanal e do saber das bordadeiras mineira (ela conta com 100 na equipe) aliados ao design de moda.

Dividida entre abrir novos mercados e profissionalizar os estilistas de sua holding utilizando o próprio conhecimento adquirido, Patricia não se abala pela crise. Ao contrário: se alimenta do desafio.

— Nenhuma crise me faz pensar: “Vamos deixar de fazer as coisas”. A minha escola é a da dificuldade — professa a dona de uma comunicação digital que também virou um case de sucesso, com mais de 1 milhão de seguidores no Instagram @patriciabonaldi.

O nome Nohda surgiu conforme uma inspiração oriental: noh deriva da palavra japonesa talento ou habilidade. O batismo faz pensar no quanto os três anos que passou no Japão ao lado do marido, trabalhando para ganhar dinheiro e assim montar seu negócio no Brasil, influenciaram seu jeito firme e persistente. Jeito de quem quer ganhar o mundo.

Alessandra Ambrosio e Fernanda Lima

Alessandra Ambrosio e Fernanda Lima

 

Direito x moda

“Queria ser juíza quando fui morar fora. Mas sempre gostei de moda e acho que, intuitivamente, eu já sabia que trabalharia com isso. Tanto que, quando voltei do Japão com grana pra montar um negócio, pensei na moda como única opção. Era onde eu tinha segurança de trabalhar. Eu não tinha estudado sobre esse assunto, mas sabia que podia fazer bem. Minha mãe sempre mandou fazer roupa, a gente frequentava lojas de tecidos, esse universo sempre me encantou. Minha maior alegria quando tinha evento era ir à loja e passar horas escolhendo tecido, conhecia todo mundo. Era o meu mundo encantado. E eu também já gostava de desenhar. Em vez das bonecas, eu pegava caixa de lápis de cor e brincava como se as cores fossem pessoas. Eu não identificava isso em mim como profissão, achava que era um hobby. Fui aprendendo e crescendo naquilo. E ainda estou nesse processo de evolução. Não quero que ele pare nunca.”

Dificuldades

“Minha entrada na moda foi diferente da de outras pessoas (refere-se ao fato de começar sozinha, sem o apoio financeiro da família, por exemplo). Mas foi diferente não porque deveria ser, mas porque naturalmente foi. Eu me aproveitei disso da melhor maneira que pude. Fui passo a passo, comecei de uma situação mais adversa, mas acho que pode dar certo de qualquer maneira. O segredo é não pular etapas e vencer as dificuldades.”

Início da marca

“Em Uberlândia, as pessoas têm muito o costume de mandar fazer roupa. Eu via que a roupa que comprava pronta (na época em que era dona de uma loja multimarcas) não vendia e eu não estava conseguindo tocar o negócio daquela maneira. Mas as pessoas gostam das minhas roupas, as que eu mesma fazia. Então, por que não começar a fazer para elas? Resolvi aceitar um pedido de uma cliente e, quando eu vi a expressão de felicidade no rosto ao provar a peça produzida por mim, foi uma emoção tão grande! A partir daí, uma avalanche de pessoas veio depois dessa primeira cliente. Eu aprendi no laboratório, fazendo os vestidos para as pessoas.”

Moda festa

“Na época em que eu comecei, o bordado, a renda e a transparência não estavam na moda. Pelo contrário, eram coisas até consideradas cafonas. No início, eu sofri essa pressão: por que essa pessoa está fazendo roupa bordada? Mas eu sempre fui de defender um ponto de vista, nunca tive medo de ir na contramão. Não por rebeldia, mas por acreditar naquilo. Eu acreditava e era impossível alguém me deter.”

Cópias

“Existe a cópia, existe a inspiração e existe o limite de tudo. No início eu me sentia roubada, me sentia mal. Hoje já não me incomoda mais. Não existe a mesma pessoa ocupando o mesmo lugar no espaço. Isso é físico. O meu lugar é o meu lugar e depende muito da minha evolução e do que eu faço pra continuar ocupando meu espaço. Hoje tenho mais discernimento, estou em um momento mais calmo e não desperdiço tanta energia com isso.”

Nohda

“Meu desejo com a holding é fazer as marcas crescerem com saúde, expandirem o universo que elas têm à frente delas, o que às vezes sem amparo e sem suporte não seria possível. É um trabalho de 360 graus: no produto, na qualidade, na mídia, na assessoria de imprensa. Amparando o negócio como um todo. Com o Lucas Magalhães, por exemplo, a gente melhorou os acabamentos, a matéria-prima e fazemos reuniões comerciais. Aplico meu know-how neles.”

Crise

“Eu entendo que no geral o país está passando por uma grande dificuldade. É natural as pessoas recuarem um pouco, mas nada disso me faz pensar “vamos deixar de fazer as coisas”, a minha escola é a da dificuldade. Para mim se chama desafio. Quanto mais dificuldade, mais desafiador, esse é o meu território, isso me ajuda a ver as coisas diferente. Quem só procura um estágio ideal das coisas se assusta mais. Eu não tenho tanto medo. Óbvio que você tem que ser mais responsável, procurar custos menores, ampliar sua venda, melhorar seu marketing. Tudo isso te leva a ser mais eficiente. Mas a crise não vai te aniquilar, não acredito que não consiga evoluir na crise. Talvez com mais dificuldade sim, mas estagnada não.”

Para o verão

Da marca PatBo: “Eu quis sair do que se espera da PatBo, que é aquela roupa mais justa e colada. Fiz uma viagem no tempo pelos anos 1960 e reinterpretei a mulher que viveu naquela década com a minha cara. Nos bordados, trabalhei com um visual mais plástico e, dessa vez, usei materiais como resina e acrílico. O aspecto do bordado é mais divertido e menos pretensioso. Eu sempre começo pelo tecido, mas dessa vez comecei combinando pantones”.

Da marca Patricia Bonaldi: “Busquei inspiração no Japão, onde eu morei. Trouxe as cerejeiras, fiz algo bem lúdico e romântico, que é a cara da marca. Nos decotes, tentei colocar umas golinhas de quimono, sempre com delicadeza, mas com um perfume oriental.”

Nicki Minaj e Sharon Stone

Nicki Minaj e Sharon Stone

 

Sonhos e projetos

“Eu planejo ser melhor do que hoje. Há pouco mais de um ano, não planejava a holding, foi uma coisa que percebi e na qual trabalhei rápido. Espero continuar tendo uma cabeça aberta, que eu possa continuar percebendo as coisas ao meu redor e consiga transformar o meu entorno. Não quero olhar só para mim, mas sim tentar transmitir isso para as pessoas. Não é só uma questão de colocar dinheiro em outras marcas, mas colocar paixão. Quero fazer mais disso, e acho que isso vai crescer no seu tempo. Com relação a minhas marcas, também vejo um crescimento, a internacionalização é um processo que já tem cinco anos e cada vez mais vou conquistando meu espacinho. E quero levar os meninos nessa também.”

Efeito blogueira

“A relação da marca com blogs e redes sociais nasceu percebendo o potencial que estava por vir. Eu tinha uma loja para inaugurar em Uberlândia, há cerca de 10 anos, e ia contratar uma celebridade. Na época, os blogs de moda estavam começando e pensei: vou trazer uma blogueira, vai ser diferente. Então, convidei a Camila Coutinho. Ela achou superestranho: nunca tinham-na convidado para ser presença e ela me cobrou baratinho. Aquilo foi uma explosão na internet, a minha marca não era digital, mas, quando ela colocou no blog, aquilo explodiu. Eu tive de colocar uma pessoa para ficar só no telefone atendendo a pedidos. A partir dali, entendi a força daquilo e comecei a desdobrar, fui contatando outras pessoas. Na época, foi um feeling, e hoje ela (Camila) é convidada para o desfile da Diane von Fürstenberg. Só temos uma parceria formal com duas blogueiras, o restante é espontâneo. E, mesmo com essas duas, elas me entregam muito mais do que eu invisto.”

Prazeres

“Gosto muito de viajar, são sempre períodos bons criativamente falando. Adoro arte e amo ler. Sou uma pessoa pacata, não gosto de muita badalação. Curto estar com amigos em pequenos grupos. Mas hoje em dia preciso aparecer. Sei que a minha principal função não é essa, encaro como um desdobramento, não como o centro do meu mundo. E é claro que o contato com as pessoas é muito positivo: a gente procura esse reconhecimento e, quando ele vem, acho que tem que ser abraçado da melhor forma.”

Laura Neiva e Fiorella Mattheis; Fotos: Divulgação

Laura Neiva e Fiorella Mattheis; Fotos: Divulgação

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