Famosa escola Parsons forma primeira turma de mestres em Moda

De forma geral, o trabalho da turma revela como os jovens estilistas de hoje estão vendo a moda

 Lucia Cuba usou imagens de Fujimori, ex-presidente do Peru, em suas criações
Lucia Cuba usou imagens de Fujimori, ex-presidente do Peru, em suas criações Foto: Ruth Fremson


Nova York – Mesmo do outro lado da sala dava para ver que havia algo especial na jaqueta pendurada no manequim de costura de Lucia Cuba: com linhas simples, era estampada com fotografias repetidas, em branco e preto, de um garotinho de rosto atento. Dava até para pensar que a peça era uma graça.

Ou se encantar com o menininho ‒ até a estilista, com óculos verdes e uma expressão de satisfação por eu ter perguntado, explicar que aquele, na verdade, era Alberto K. Fujimori, o ex-presidente do Peru, que, apesar de muito popular, estava ligado a escândalos de corrupção e abusos de direitos humanos, incluindo a esterilização forçada de milhares de mulheres nos anos 90.

? Quando você descobre quem é o cara, fica pensando o que ele está fazendo ali ? diz Lucia, que possui diplomas de universidades de Lima, sua terra natal, em especialidades aparentemente incongruentes entre si: Saúde Pública, Psicologia e o atual, Moda.

? Gosto de pensar nas minhas criações como agentes de mudança ? diz ela.

No departamento de moda da Parsons the New School for Design, que fica na Sétima Avenida, Lucia é uma dos 18 aspirantes a estilista que compraram a briga, há dois anos, para encarar o mundo da moda como algo além da simples produção de roupas.

Recentemente, num dos pequenos ateliês da escola, Beckett Fogg, de Lexington, no Kentucky, encarapitada numa das mesas, estudava um retalho de chiffon branco com um padrão em relevo inédito, criado por uma prensa de couro para assentos de carro de Newark. Na mesa do lado, Ruby Hoette e Elisa van Joolen, que se conheceram quando estudavam na Gerrit Rietveld Academie, em Amsterdã, trocavam ideias sobre criações em parceria enquanto montavam peças feitas de retalhos de roupas.

Todas fazem parte da primeira turma que, em maio, concluiu o novo programa MFA de Moda e que já atrai um enorme interesse do setor. Os grandes estilistas em Manhattan ‒ e certamente os conglomerados de artigos de luxo da Europa ‒ sempre consideraram a Parsons como a melhor escola nessa área nos EUA, ainda que um pouco inferior às europeias (em especial a Central Saint Martins de Londres). Como disse Donna Karan, uma das estilistas mais famosas a sair dela (mesmo tendo sido reprovada em Drapeado, em 1968, e só tendo recebido o diploma quase vinte anos depois):

? Não é lá que as empresas vão procurar um diretor criativo.

Assim como a moda norte-americana de forma geral, a Parsons, merecidamente ou não, tem a fama de dar mais destaque para o lado comercial e não o criativo. Em 2006, Donna gastou milhões de dólares para subvencionar uma cátedra na escola e modernizar sua abordagem de ensino, passando a incorporar elementos de cultura geral, política, economia e ecologia.

Simon Collins, diretor da escola de moda da Parsons, minimiza a rivalidade com a escola londrina.

? Nosso destaque é no lado comercial e na moda ? diz ele. ? Para sobreviver no setor, é preciso conhecer os dois.

Porém, não resiste à alfinetada.

? Quando muito, o nosso MFA passou a cobrir uma área que antes era considerada só deles.

Na apresentação dos projetos de tese dos alunos, montado num escritório vazio da Broadway, a reação foi extremamente entusiasmada. Julie Gilhart, consultora de moda que trabalha para empresas como a Amazon, descreveu o trabalho como algo que poderia perfeitamente vir do ateliê de um profissional; de fato, acabou pegando emprestado um vestido branco criado por uma das estilistas, Noriko Kikuchi (cuja luminosidade foi projetada para criar uma “ausência de cor”), para usá-lo num evento do Instituto de Moda dias depois.

? Não parecia que era um evento acadêmico, de jeito nenhum ? afirmou Julie.

Donna Karan, que também inspecionou os trabalhos, disse:

? A diferença entre o que foi e o que é nos dá todos os motivos para sermos otimistas.

Sob vários aspectos, a turma de 2012 reflete as ambições globais da Parsons e as mudanças na dinâmica do setor, com alunos de Taiwan, China, Japão, Peru, Inglaterra, Austrália, Holanda, Suíça, Coreia do Sul, Noruega e Irlanda – e apenas uma norte-americana: Beckett Fogg, que já é formada em Arquitetura pela Universidade da Virgínia. Com uma única exceção, a classe inteira era de mulheres.

A princípio, vinte alunos foram aceitos pelo programa, escolhidos por Shelley Fox, diretora e ex-professora da Central Saint Martins, mas dois pediram para sair ao fim do primeiro semestre porque não se ajustaram ao esquema de trabalho. O valor do curso é de US$ 40 mil/ano, embora alguns tenham recebido bolsa de estudo e outros tenham conseguido patrocínio de empresas que doaram materiais para os projetos.

Shelley disse que queria criar algo semelhante a um ateliê para os alunos. O currículo consistia basicamente numa série de desafios ‒ como criar uma peça inspirada na exposição de Alexander McQueen no Museu Metropolitano de Arte, por exemplo, ou trabalhar com nomes como Donna Karan e Olivier Theyskens. Há também matérias que analisam a teoria da moda. Numa das aulas, analisando consumismo e cultura, os alunos tiveram que comparar McQueen a Steve Jobs.

Talia Shuvalov, uma australiana de 24 anos, estudou moda na Universidade de Tecnologia de Sydney e passou um tempo em Londres fazendo estágio com McQueen, em 2009. Embora a experiência a tenha exposto a um local de trabalho extremamente criativo, onde os estilistas podem passar semanas desenhando estampas à mão, ela confessa ter tido dúvidas a respeito de morar em Londres e a respeito de si mesma ‒ e decidiu se matricular na Parsons.

? Eu cresci muito. Nem sei que tipo de estilista eu era quando cheguei aqui ? diz ela.

Seu projeto final foi um dos mais bem recebidos; apesar disso, penduradas numa arara, suas peças pareciam ser apenas um jeans e um moletom comuns. Mais de perto, porém, os detalhes se revelaram num efeito tridimensional criado através de um meticuloso trabalho com retalhos. Talia explica que o conceito foi baseado em seus próprio hábito compulsivo de compra, depois que ela percebeu que comprava sempre os mesmo itens – camisetas, jeans, moletons – só para empilhá-los no guarda-roupa. Poder criar um jeans baseado na sua própria pilha de jeans é, sem dúvida, uma façanha e tanto.

? Ele é parte do look e se torna o look em si ? disse ela. ? Gosto da linha conceitual que tem um objetivo específico.

De forma geral, o trabalho da turma revela como os jovens estilistas de hoje estão vendo a moda. Algumas das coleções se mostraram incrivelmente refinadas, como o corte minimalista e sofisticado de Jun Juyeon Hong, ou as peças esculturais de Claire Diederichs, de 26 anos, que combinam vários tecidos para enfatizar determinadas partes do corpo como o ombro ou o perfil. (Claire fez suas opções baseada num estudo de linguagem corporal das pessoas cruzando umas com as outras na rua.) Outras preferiram provocar politicamente, como Lucia, que também criou peças estampadas com trechos da legislação federal que se referiam aos direitos de uso de métodos anticoncepcionais.

O resultado tem um grande senso de realismo. Nada na apresentação ‒ que será repetida em setembro com um desfile durante a Semana da Moda de Nova York ‒ sugeria que as peças não eram “vestíveis”, o que, de certa forma, reflete suas experiências práticas. Muitas das alunas já trabalham em tempo integral (ou fazem estágio); outras receberam ofertas antes mesmo de concluírem o curso. Beckett disse que teve que recusar uma oferta de trabalho de Cynthia Rowley.

Carly Ellis, 24 anos, é de Liverpool, na Inglaterra, e trabalhava com a grife londrina de streetwear Cassette Playa quando foi aceita na Parsons. Ela explica que os conceitos de processo e pesquisa foram uma novidade, mas conseguiu um estágio com Marc Jacobs e se empenhou tanto nos projetos que quase acabou sendo presa.

Foi em março do primeiro ano. Carly, mais que qualquer outra aluna, se inspirava nos estilos que descobria na rua, principalmente no bairro de Bedford-Stuyvesant. Para um dos trabalhos, no qual os alunos tinham que mostrar como venderiam suas criações, ela pediu para vários homens que viu ali que posassem para as fotos usando jaquetas com estampas em neon e segurando um cartaz em que se lia: “Compre Carly Ellis”.

? Eles não toparam ? conta Carly. ? Aí fiz uma sacola de camisetas e comecei a oferecer para quem me deixasse tirar uma foto com ela; deu certo, mas quando percebi, estava deitada no chão com as mãos para trás! A polícia achou que eu fosse camelô.

Depois de se safar da confusão, Carly ainda conseguiu se formar e, para seu grande alívio, tem várias entrevistas agendadas para conseguir um emprego de respeito.

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