Feito para eles! Estilista João Pimenta aponta moda masculina como futuro da indústria fashion brasileira

Único estilista a desfilar uma coleção masculina na última edição da São Paulo Fashion Week, João Pimenta já fez de tudo um pouco até ver seu nome como um dos principais do circuito de moda nacional além da marca própria, é diretor criativo da West Coast. Antes de ser um dos precursores por aqui a vestir homens com elementos como renda e modelagens acinturadas, o mineiro começou a carreira dando forma para o talvez mais tradicional traje feminino: o vestido de noiva.

Em Porto Alegre para o lançamento da Maratona MUDE, evento do qual é mentor na edição que ocorre dias 25 e 26 de setembro, João conversou com Donna sobre os rumos da moda para eles no Brasil e como o futuro da indústria é abrir os olhos para este consumidor, que pouco se vê representado.

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Donna – Quais são os desafios de criar moda para homem, normalmente não tão ligados a roupas?
João Pimenta – Parece ser uma coisa complicada, mas não é. Eles são até mais exigentes do que as mulheres, mas o mercado todo está voltado para elas. Eu comecei fazendo feminino. Abri uma loja e percebi que os meninos vasculhavam as araras procurando qualquer coisa que servisse neles. Percebi um campo gigante ali. As pessoas acham que o homem brasileiro não quer experimentar, que não tem ousadia, mas isso é muito fora da realidade. O homem tem uma sede muito grande de inovação. É desafiador, porque as pessoas ainda associam orientação sexual com a cor da roupa e o tipo de sapato, e o homem ainda tem medo de se mostrar ousado. Parece complicado, mas é fácil porque existe um desejo muito grande do mercado masculino.

Donna – O que eles geralmente pedem e buscam mais?
Pimenta – É engraçado, pois todos querem a mesma coisa: um pequeno diferencial. Eles não querem se vestir igual ao outro, mas também têm um certo limite. Um dos motivos para se vestirem bem é conquistar mulheres, e os mais inteligentes sabem que elas vão prestar mais atenção a alguém mais sensível. O homem ainda tem uma dificuldade muito grande com essa questão de delicadeza. A mulher sabe se divertir com a roupa, cada dia está de um jeito e assume isso como uma qualidade. Eles são travados neste sentido, mas não querem ser iguais.

Donna – Sua grife é a única exclusivamente masculina a desfilar na SPFW. Como você vê o mercado de moda para eles no Brasil?
Pimenta – Se tem um lugar para a moda crescer, é na ala masculina. Já se experimentou muito para o feminino, então querer inovar nessa área é até déja vu. Antes a mulher escolhia o que eles iam vestir, e hoje o homem compra as próprias roupas. Existe uma necessidade gigante no mercado de inovação, tanto dos estilistas quanto da indústria têxtil. Temos uma vontade tão grande de fazer moda brasileira e acredito que investir no masculino pode ser um mote forte. As semanas de moda do mundo hoje já têm pelo menos um dia voltado ao masculino, ou até uma semana totalmente para eles. Teve uma época em que a mulher brigou pelo seu espaço, e hoje a gente vê o contrário: o homem tendo de brigar pelo espaço dele. O sexo frágil agora somos nós (risos). O homem não quer tomar o espaço delas na moda, mas sim dividir.

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Donna – Como é o estilo do brasileiro? Que peça eles procuram mais?
Pimenta – Um homem francês ou italiano você identifica fácil. Agora, o brasileiro, não. Não existe uma moda brasileira masculina porque não se parou para pensar nisso. O que seria uma alfaiataria tropical? Somos um país quente, então o tipo de fibra e composição dos tecidos deveria ser pensado dentro da indústria. O que pode tirar o calor de um tecido? Que tipo de forro ajudaria? E a questão das cores também: o homem está muito acostumado a preto, marinho, cinza. Precisamos abrir essa cartela. Os malandros cariocas da década de 1930 são, para mim, o ícone. O homem negro se preocupa mais com moda do que o homem branco, e isso vem dessa história do malandro carioca, do samba. Vejo mais linguagem de moda neles do que em quem quer ser Prada ou Gucci. A gente precisa parar de olhar para o que acontece lá fora e olhar para dentro, ver o que encontramos aqui. Há uma desconexãoo muito grande de autoestima que precisa ser repensada.

Donna – Você começou a carreira na moda fazendo vestidos para noivas. Como foi migrar para a moda masculina?
Pimenta – Hoje eu faço roupas de noivos! (risos) A roupa de casamento para mulher, de noiva, parece ser algo muito complicado, mas não é. O traje de noiva é muito simples de fazer, porque é composto de efeitos. As pessoas que fazem alta-costura vão me matar por dizer isso! É uma roupa ornamentada, então, quanto mais você borda e dá volume, vai somando e transforma aquilo em algo incrível. Mas não é tão difícil como fazer alfaiataria para o corpo de homem. A mulher tem formas mais fáceis, mais bonitas de desenhar, enquanto o homem é mais reto, mais quadrado. O público masculino consome de uma forma mais consciente, não segue tendência, pensa que a roupa tem que ter qualidade. Quando o noivo percebe que tem espaço, ele sempre sabe exatamente o que quer ou não. Na prova de roupa, eles são extremamente exigentes, não aceitam uma costura que não esteja perfeita. Homens se preocupam com a matéria-prima, sempre me questionam a composição do tecido. Quando eu fazia feminino, não lembro de tê-las ouvido perguntando sobre isso. Valorizo o público masculino porque eles têm uma deficiência, por não ter opções, e sabem o que querem. A indústria precisa virar para eles e pensar: “Está aí!”.

Donna – Ouço você e concordo mentalmente. Sinto muito isso quando compro roupas, e sinto constantemente que não tenho peças que me veria usando daqui a dez anos…
Pimenta – É tão estranho quando você está com o armário lotado e pensa: “Poxa, vou ter que tirar coisas”. O quão importantes são aquelas peças de verdade, não é? Talvez mais importante seja o que está por vir.

Donna – Quais foram os seus primeiros passos na moda?
Pimenta – Comecei trabalhando nas Casas Pernambucanas: me apaixonei por roupas vendendo tecidos. Entrei na loja para trabalhar como empacotador, com uns 17 anos. Foi quando comecei a observar os meninos montando vitrines. Neste tipo de loja, eles montam com o tecido e fazem as moulages, que são as amarrações. Pouco tempo depois, já estava fazendo as vitrines e aprendendo sobre os tecidos. Comecei a trabalhar em uma marca pequena de Ribeirão Preto (SP) criando peças e me apaixonei. Gosto muito de contrapontos, masculino e feminino, pobre e rico, reciclagem. Tenho um respeito muito grande pelos tecidos, gosto muito, mas não para mim, acredita?

Donna – Queria comentar exatamente isso: seu estilo pessoal parece ser muito atemporal, sem tanta preocupação com o que você veste.
Pimenta – Isso pode até acabar virando assunto para terapia, mas eu não tenho paixão por roupas para mim. Não sei se é porque faço para tantas pessoas que eu não me incomodo, não tenho paixão por ficar horas escolhendo uma roupa, pego a primeira que vejo na frente. Faço todo esse discurso, mas na minha casa é diferente. Infelizmente, pois adoraria que fosse de outro jeito.

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Donna – Na sua coleção de verão 2016, o que se viu foi uma nova androginia. Recentemente, um grande magazine também aboliu as divisões de seções por gênero das suas lojas. Você acha que esse é o novo caminho da moda?
Pimenta – Sim, sabe por quê? Sempre imaginamos que os detalhes são para valorizar, mas, na verdade, os enfeites só poluem a roupa. Quando tivermos uma matéria-prima boa e um design muito forte, não vamos mais precisar de bordados, lacinhos. Quando a roupa não tiver mais isso, não estará destinada para quem foi feita. Hoje, a gente distingue a roupa do homem e da mulher pela quantidade de detalhes, pelas cores. Tenho certeza de que o futuro será muito mais minimalista, e as pessoas vão acabar se livrando de tanto detalhezinho. Quando isso acontecer, as roupas vão ficar mais parecidas. Hoje é tão bacana a mulher vestir a roupa do namorado, mas e o contrário? Não tem como? Seria muito interessante se as roupas não fossem obrigadas a definir nada. Você se apaixonar pela peça não por cor ou forma, mas pelo que ela representa para você. Costumo dizer que as pessoas não deveriam seguir tendências, mas sim a própria intuição para cada um criar o próprio guarda-roupa. A sua coleção deveria ser criada por você, juntando de várias marcas coisas e editando algo seu, que não venha necessariamente da ala feminina, até para ter sua identidade definida.

Donna – Aliás, você está dentro de uma tendência de grandes nomes da moda nacional assumirem marcas mais comerciais, como Dudu Bertholini na Lunender e Juliana Jabour na Lez a Lez. Como encara esse novo nicho de mercado? É uma saída?
Pimenta – Mais do que uma alternativa, é uma solução. Por mais que a gente se desdobre, quem faz a moda hoje são as novelas. É mais fácil as pessoas digerirem algo que está na TV do que o que se vê na passarela. A indústria de moda que não é fashionista também estava bem saturada. É muito difícil ser autoral e manter uma marca no Brasil. Sempre levei com muita dificuldade a minha marca. Fazer uma coleção é extremamente caro. Existe um desejo muito grande de fazer moda, mas é complicado. Quando você vai para baixo do guarda-sol de uma indústria grande, que tem grana e pode investir na sua marca também é muito confortável, fica uma troca muito justa e o desejo de retribuir da mesma forma. A West Coast também ajuda a gerir minha marca, e eu investi minha energia e conhecimento neles. O limite que eu tenho para trabalhar não vem deles, vem de mim. Sei que tem de ser diferente do eu faço, mas é muito seguro você entender que pode andar por outros caminhos.

Donna – No que você se inspira?
Pimenta – A dificuldade de fazer moda me inspira, a dificuldade de não ter matéria-prima me dá vontade de fazer o tecido. Parece triste, mas a deficiência de moda que temos no Brasil me inspira muito. E também dá uma certa ira. Quando coloco um cara na passarela com uma saia arrastando no chão, também é para causar com as pessoas. Dizem que eu faço roupas que não vou vender, que coloco renda e quadril nos meninos, mas é para discutir. Me inspira muito ir na contramão. Quando não gostam, às vezes é bom. Dependendo de quem não gosta, então, é melhor ainda! (risos)

 

* Fotos: Andrea Graiz

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