Há quatro décadas na Globo, Marília Carneiro fala sobre a criação do figurino para a novela ‘Ligações Perigosas’

Por Márcio Gonçalves, Agência Estado

Assim que recebeu o convite para ficar à frente dos figurinos de ‘Ligações Perigosas’, minissérie da Globo, Marília Carneiro soube que teria grande prazer nesse trabalho. Aos 74 anos e mais de quatro décadas de história na Globo, ela não esconde que a década de 1920 é sua favorita. Isso desde que se consagrou com as vestimentas criadas e adotadas em ‘Gabriela‘ (1975), que se passava no mesmo período.

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Na entrevista a seguir, Marília fala sobre a experiência em ‘Ligações Perigosas’ e de como mudou a relação dos atores com o figurino nesse tempo em que atua na área, além de outros assuntos.

Donna- Quais foram suas inspirações para criar o figurino de ‘Ligações Perigosas’?

Marília Carneiro – Seria pretensão dizer que é minha especialidade, mas talvez 1920 seja a década que eu mais goste. É a época mais louca que já existiu! As mulheres começaram a fumar e a beber e o povo vivia como se não houvesse amanhã. Isso se reflete nas roupas, em uma grande liberdade.

Minissérie tem menos elenco, mas o cuidado é maior do que em uma novela. Como você lida com essas diferenças?

Marília – Na minissérie, o artístico é valorizado e não dá para embromar. Você tem tempo e recursos, então é ruim se algo der errado. Adoro esse tipo de situação. Tenho uma segurança que penso já ter nascido comigo. Lembro que fiz ‘Gabriela’, que se passava nessa mesma época, e estava toda metida, mesmo sem a experiência de hoje. Os anos 1920 viraram meu talismã.

As peças utilizadas em ‘Ligações Perigosas’ foram compradas ou produzidas pela sua equipe, na Globo?

Marília – Produzimos quase tudo. Se eu pudesse buscar na Europa, seria maravilhoso! Mas meu orçamento não dava. Também gostaria de ter contado com mais tempo. Tive uns dois ou três meses de preparação, o que é relativamente pouco. Figurinista quer sempre mais!

Augusto (Selton Mello), Consuêlo (Aracy Balabanian) e Mariana (Marjorie Estiano) nos bastidores das gravações, na Patagônia argentina

Augusto (Selton Mello), Consuêlo (Aracy Balabanian) e Mariana (Marjorie Estiano) nos bastidores das gravações, na Patagônia argentina

Tem alguém do elenco com quem você estabeleceu uma parceria mais intensa nesse trabalho?

Marília – Selton Mello e eu tivemos um encontro diabólico. Acho que consegui ajudá-lo a dar aquele salto para virar um verdadeiro galã nessa minissérie. O personagem dele é um Don Juan. Selton é um ator fenomenal, mas se não tivesse esse lado externo espetacular, não sei se as mulheres entenderiam essa sedução. Modéstia à parte, consegui isso com a ajuda dele.

Hoje em dia, é mais difícil se relacionar com os atores do que era há 42 anos, quando você estreou na Globo?

Marília – Ego de ator não tem tamanho. Figurinista precisa amá-los, ser carinhosa e ver que o cara está morto de insegurança, querendo agradar. Mas agora tem toda a parte econômica também: os atores de hoje não são só atores, vendem produtos. São espécies de vitrines. Isso era inviável, impensável antes. Quando fiz ‘Dancin’ Days’ e rolou o sucesso das meias de lurex, não ganhamos um centavo. Nem sabíamos que poderíamos ganhar. Só a Casa Olga (loja de meias) se deu bem, vendeu demais!

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É mais fácil lançar moda hoje?

Marília – Temos os dois lados. Sim, é mais fácil e a própria internet ajuda nisso. Mas fica um pouco diluído. A Giovanna Antonelli, por exemplo, é excelente: a gente coloca batom e esmalte nela e todo mundo copia. Mas dura pouco tempo, logo aparece outra coisa. A gente nunca mais vai ver um sucesso como o da meia de ‘Dancin’ Days’.

Assim que recebeu o convite para ficar à frente dos figurinos de 'Ligações Perigosas',   minissérie da Globo, Marília Carneiro soube que teria grande prazer nesse trabalho

Assim que recebeu o convite para ficar à frente dos figurinos de ‘Ligações Perigosas’, minissérie da Globo, Marília Carneiro soube que teria grande prazer nesse trabalho

Você pensa em se aposentar?

Marília – De jeito nenhum! Tenho 74 anos e comecei minha carreira em 1968, quando fiz meu primeiro filme, que tinha a Marília Pêra no elenco (‘O Homem que Comprou o Mundo’, de Eduardo Coutinho). Hoje, minha maior curtição ainda é meu trabalho. Depois, vêm meus netos, meus filhos e minhas viagens, nessa ordem. Não quero parar nunca.

Já tem algum trabalho para breve?

Marília – Ainda não sei exatamente como vai ficar a grade da Globo neste ano. Talvez eu pegue uma novela, até porque eu gosto muito, mas não tenho certeza. Cada vez mais a emissora está dando importância ao horário das 23 horas. Se me quiserem nessa faixa, vai ser ótimo! Dá um pouco mais de liberdade. Agora, estou ajudando a dar uma cara para o figurino do ‘É De Casa’. As meninas são lindas, boas para lançar moda! A direção pediu minha supervisão porque o programa começou a fazer sucesso e estão buscando uma harmonia nas roupas.

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