Hollywood: o poder dos stylists e o tapete vermelho

Diretores de elenco ficam atentos aos looks das celebridades

Modelo desfila criação de Zac Posen, vestido que foi escolhido por Tara Swennen para o tapete vermelho do Globo de Ouro
Modelo desfila criação de Zac Posen, vestido que foi escolhido por Tara Swennen para o tapete vermelho do Globo de Ouro Foto: Richard Termine

 

Todo tapete vermelho tem modelos estonteantes, vestidos que conquistam, tendências de estilo que se destacam e chegam até a marcar momentos importantes na história de uma estrela. As festas do Globo de Ouro e a do Oscar contaram com tudo isso, mas, nas edições anteriores, os visuais também ajudaram inclusive a confirmar o prestígio de algumas e alavancar a carreira de outras.

Quando Reese Witherspoon se destacou, em 2007, logo depois de se separar de Ryan Phillippe, seu modelo amarelo justo de Nina Ricci lhe deu um brilho; ela estava mais sensual que nunca ? ou pelo menos foi o que pareceu.

Há dois anos, Maggie Gyllenhaal recebeu uma injeção de sofisticação em seu perfil para lá de discreto com o sereia em tom pêssego de Roland Mouret. No ano seguinte, na cerimônia do Oscar, Katherine Heigl usou um vestido vermelho espetacular que a transformou de garota engraçadinha e simpática numa diva glamorosa.

? Aquele vestido mudou muita coisa ? diz Nicole Chavez, que foi quem convenceu a atriz a usá-lo.

Na opinião da stylist, que já trabalhou com Catherine Zeta-Jones e Scarlett Johansson, momentos como esse podem afetar uma carreira.

? As pessoas (diretores de elenco, executivos) param e prestam atenção e, de repente, se interessam em trabalhar com você.

Essa influência enorme exercida pela imagem, que há muito é controlada por agentes e assessores de imprensa, começa a ser dividida (em parte) com um grupo de stylists influentes e lançadores de tendências como Annabel Tollman, Petra Flannery, Estée Stanley, Deborah Waknin e nomes famosos como Rachel Zoe, cuja fama já se equipara à das mulheres que elas vestem ? e até as ofusca.

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A maioria delas defende a ideia de que a exposição no tapete vermelho serve de outdoor para os estilistas, que se beneficiam em centenas de milhares de dólares de promoção gratuita, e transformam ilustres desconhecidos como Elie Saab e Naeem Khan em grifes cobiçadas. Pouca gente lembra que ela também serve para destacar o talento de seu criador e transformar um simples profissional da costura numa autoridade com poder para alterar o curso da carreira de uma atriz.

E quem tem esse poder hoje em dia? Segundo a lista feita pelo Hollywood Reporter no ano passado, ele está nas mãos de Elizabeth Stewart, Leith Clark, Anna Bingemann e Jessica Paster. Esse grupo seleto também inclui Jennifer Rade, que trabalha com Angelina Jolie, e Tiina Laakkonen, que construiu sua reputação baseada no trabalho que fez com Carey Mulligan, a jovem estrela com quem a maioria das stylists daria o braço direito para trabalhar.

Em temporada de premiações e festas, você é basicamente quem você veste. Quando Hailee Steinfeld, de 14 anos, roubou a cena na cerimônia do Globo de Ouro do ano passado num vestido branco de Prabal Gurung, suas stylists, Karla Welch e Kemal Harris, dividiram a atenção com ela; quando Natalie Portman causou furor em 2011, também no Globo de Ouro, com o vestido pink de cetim de Viktor & Rolf, Kate Young, que é quem a veste, abocanhou parte da glória.

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Essa promessa de reconhecimento talvez ajude a explicar por que esses profissionais aceitem trabalhar horas sem fim em favor da moda, mas geralmente subjugando seu próprio gosto e instinto em favor da estrela para quem trabalham.

Mesmo assim, como os profissionais mais experimentados do ramo ressaltam, é preciso mais do que um olho bom, uma ética de trabalho puritana e a capacidade de abdicar de si mesmo para se tornar um stylist poderoso: hoje em dia, essa distinção é reservada àqueles que conseguem fazer suas clientes se destacarem com vestidos deslumbrantes o suficiente não só para lhes garantir os melhores papéis, mas capas de revista e contratos de lançamento de perfumes e representação de cosméticos que as celebridades de hoje se acham no direito de conquistar.

? Vestir-se para um grande evento não é o mesmo que se preparar para uma festa e apenas se arrumar ? afirma George Kotsiopoulos, stylist e ex-editor da T: The New York Times Style Magazine, que hoje é um dos apresentadores do programa “Fashion Police” no canal a cabo E!. ? Ultimamente é mais uma questão de vender sua imagem como uma marca.

O modelo lavanda pálido de Reem Acra que Olivia Wilde usou no Emmy Awards de 2008 chamou a atenção dos executivos e teve força para alavancá-la do elenco de “House” para filmes comerciais como “Tron: O Legado” e “Cowboys & Aliens”. Como sua stylist, Karla diz:

? As roupas certas abrem muitas portas.

Os chefões da indústria tendem a concordar.

? Os estúdios têm o estilo em alta conta ? confirma Terry Press, consultora de marketing do entretenimento.

Tanto que a comissão desses profissionais já está incluída no orçamento.

? Hoje, um stylist é mais um item na lista de despesas ? ela diz.

Porém, segundo o pessoal da indústria, o investimento vale a pena: um pequeno detalhe no tapete vermelho pode ajudar a mudar a imagem de uma atriz.

? Se a sua cliente sempre faz papel de vilã, você pode vesti-la com tule, por exemplo, para demonstrar que, na verdade, ela é uma mocinha ingênua ? explica Jeanne Yang.

Há quem se destaque pela tradição. De fato, o visual sempre chique, mas jovial de Hailee inspirou os executivos da Miu Miu a contratá-la para estrelar sua campanha publicitária. A transformação de Mila Kunis, nas mãos de Flannery, de hipster meio desleixada em diva sensual ajudou-a a conquistar o cobiçado título de novo rosto da Dior ? e um contrato como esse pode render milhões de dólares a uma atriz.

Na era da Internet, quando todo mundo virou crítico e tem o poder de massacrar as estrelas, “os stylists começaram a se tornar extraordinariamente poderosos”, como explica Melissa Rivers, produtora executiva do “Fashion Police”. Esse fenômeno também se deu numa época em que estrelas conscientes de seu estilo ? como Nicole Kidman, Sharon Stone e Cate Blanchett ? foram manchete graças às suas escolhas. “Sob vários aspectos, tudo contribui para esse estado de coisas.”

E foi ele que alçou os stylists a esse novo status.

? Muitos inclusive têm fome de poder ? revela Melissa. ? Seguram os vestidos e só os liberam na véspera do evento. É um tentando sacanear o outro.

Com isso, deixam um rastro de clientes furiosas. Alguns tentaram até passar a perna em profissionais estabelecidos há tempos. Uma costureira famosa chegou ao cúmulo de correr nos bastidores da festa do Oscar para ajustar a barra de um vestido por que a concorrente era responsável.

Hoje em dia, os stylists de maior sucesso têm menos controle sobre as roupas e, consequentemente, sobre a fama.

? O ego tem que dar uma baixada ? revelou Cher Coulter, que vestiu Kate Bosworth e Kirsten Dunst.

Assim como alguns outros profissionais, ela concordou em canalizar sua competência ? e competitividade ? para uma série de opções de potencial lucrativo, tanto que, há pouco tempo, se uniu a Kate Bosworth para lançar uma linha de joias, e parece que uma coleção de jeans está a caminho.

A profissão, para a maioria, requer precisão cirúrgica e o radar sensível de um analista.

? Tenho que saber quando parar de forçar a barra ? conta Tara Swennen, cujas clientes incluem Kristen Stewart e Kate Beckinsale. ? Se dou a uma delas um vestido e elas me olham de lado, já sei que não querem vesti-lo e pronto.

Criar laços também é inevitável.

? Você entra no quarto delas e acaba fazendo coisas que só faria com suas melhores amigas ? explica Leslie Fremar, responsável por elevar o nível de sofisticação de clientes como Charlize Theron e Julianne Moore.

Ela recorda a noite, no ano passado, no Shutters, reduto das celebridades de Santa Monica, na Califórnia, quando começou a convencer Maggie Gyllenhaal a usar o vestido da festa do Oscar. Dries Van Noten tinha mandado dois: um, mais escuro, o outro com padronagem exuberante.

? Todo mundo deu palpite, a maquiadora, a mãe dela, as amigas, mas todas esperavam de mim a decisão. Eu fiquei meio insegura porque algumas clientes são minhas melhores amigas mas, no fim das contas, tenho que lembrar que são também minhas chefes ? conta.

Maggie optou pelo floral.

? Fiquei feliz, mas lembro de só dizer: ‘Então é com ele que vamos’.”

The New York Times News Service/Syndicate

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