João Camargo, o alfaiate das estrelas

Com criações impecáveis, o paulista João Camargo contribui para rejuvenescer a palavra alfaiate

O paulista de 37 anos é o preferido de grandes executivos, atores e cantores
O paulista de 37 anos é o preferido de grandes executivos, atores e cantores Foto: Jefferson Botega

Em um dia de trabalho, João Camargo atende do grande executivo que tem quatro aviões até o noivo que economizou meses para casar com um terno de grife. Aos 37 anos, o alfaiate paulista acumula duas lojas, uma fábrica, um rol de clientes de dar inveja e um espaço na lista dos grandes nomes da moda masculina do país. Atende pessoalmente cerca de 200 homens todo mês: tira medidas, ajuda a escolher tecidos, determina o melhor corte para cada um e supervisiona todo o processo de criação das roupas que saem de seu ateliê.

O encanto pela profissão começou cedo, aos 11 anos. Trabalhava como estoquista em uma loja de roupas masculinas gerenciada pelo pai e, de tanto ouvir funcionários comentando ajustes, cortes e tecidos, decidiu que queria fazer aquilo também. 26 anos depois, comemora as conquistas.

A conversa com Donna aconteceu no horário do almoço, pausa no meio de uma agenda corrida. Camargo faz questão – e jura que não pretende mudar nunca – de atender pessoalmente seus clientes mais fiéis. Tem na lista de habitués nomes como Guilherme Paulus, fundador da CVC, e Líbano Barroso, ex-presidente da TAM. Também cria para os atores Rodrigo Lombardi, Luciano Szafir, Bruno Gagliasso e para jogadores de futebol como Cafu e Nilmar. Uma vez por ano, coloca vários destes famosos na passarela, fazendo dos desfiles de suas coleções um dos eventos mais concorridos de São Paulo. Essa lista estrelada de clientes, ele garante, é mérito de sua forma de atender.

– O mundo da moda tem muita frescura e estrelismo. O dos artistas também. Vejo que os atores gostam de ser tratados como pessoas normais, por isso primo pela simplicidade. Eles gostam tanto que vários deles se tornaram meus amigos.

A lista de fãs é grande. O ator e cantor Daniel Boaventura conheceu João Camargo quando procurava quem fizesse o figurino de seu novo show.

– Eu sou um homem largo, e é bem difícil costurar para mim. De cara, no primeiro encontro, fiquei impressionado com o estilo dele. O atendimento foi fantástico. É um cara simples, que domina o que faz. A precisão do corte me conquistou.

O modelo Paulo Zulu, com anos de experiência em passarelas e desfiles de grifes internacionais no currículo, também chancela o alfaiate:

– Já fiz vários desfiles do Camargo. Ele faz uma moda chique e bem atual, do jeito que eu gosto.

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Alinhavando a carreira

Antes de cortar ternos para grandes nomes, Camargo fez escola na área de vendas. Trabalhou na loja do pai e passou pela Bruno Minelli, uma das maiores alfaiatarias do país. Anos mais tarde, foi trabalhar com Ricardo Almeida, destaque na moda masculina no Brasil. Ficou três anos como gerente de uma das lojas, até decidir sair e seguir a carreira admirada desde criança. Insistia que vender roupas sob medida era um grande negócio, ainda mais em tempos de luxo banalizado.

– Estava fácil demais ter acesso a grifes poderosas. Ter um Armani não era mais um privilégio de quem tinha como pagar por um traje de qualidade. A falsificação também tomava conta, e todo mundo andava parecido. A forma de se destacar era a alfaiataria.

Dessa convicção nasceu, em 2005, a Camargo Alfaiataria. A primeira loja foi aberta na rua Mário Ferraz, em São Paulo, endereço que ocupa até hoje. Começou com uma equipe pequena: um sócio de vendas, um cortador e dois alfaiates. Hoje, trabalham lá 50 pessoas. O porte dos desfiles também aumenta a cada ano. No último, recebeu os aplausos abraçado ao cartunista Maurício de Souza, o ex-jogador Cafu, o cantor Frejat e o apresentador Amaury Jr. Todos, é claro, clientes.

“O gaúcho compra roupa como se estivesse escolhendo um bom vinho.”

Casado há 15 anos e pai de quatro filhos, João Camargo espreme a agenda para acomodar um mundo de compromissos. Atende pessoalmente cerca de 15 clientes por dia, mas abre a agenda para o jiu-jitsu – está a um passo de se tornar faixa preta. A rotina inclui ainda viagens para costurar para clientes locais.

O Rio Grande do Sul entrou na rota há pouco mais de dois anos e já é um dos destinos preferidos. Uma vez por mês, ele vem a Porto Alegre e se instala numa sala do ateliê da estilista Solaine Piccoli, atendendo por lá executivos e toda a gama de homens envolvidos em um casamento: noivo, padrinhos e pais. A cada passagem pelo Estado, recebe até 10 clientes. Traz na mala amostras de tecidos, gravatas e todos os apetrechos de um bom alfaiate.

Os próximos alinhavos da carreira de João Camargo incluem reabrir a loja nos Jardins, em São Paulo, e vender lá trajes semiprontos, faltando apenas um ajuste fino que pode ser feito na hora por uma equipe de alfaiates. A estratégia fará com que abra o negócio para um público maior. A ideia é fazer trajes com preço partindo de R$ 1,9 mil – um modelo sob medida não custa menos de R$ 4,5 mil. O atendimento personalizado, com peças criadas do zero – segundo ele, um trabalho que consome muito tempo -, será mantido apenas na loja da Mário Ferraz. Os planos também preveem aumentar a participação fora de São Paulo.

– Tenho que escolher uma outra praça para atuar. Financeiramente, Brasília seria mais interessante, mas fazer moda para o homem gaúcho é fantástico. O gaúcho entende o que compra. Ele é daqueles que não escolhe o vinho mais caro só pelo preço, mas por entender que é realmente bom. Vale o mesmo para a roupa. Gaúcho é um baita formador de opinião. Ele compra contigo e traz mais três, quatro amigos. Isso é bacana para alguém como eu, que não vende apenas o terno. Eu vendo um estilo, um comportamento.

A regra de ouro de João Camargo

“Compre roupa do seu tamanho. Pode parecer básico, mas muita gente se ilude achando que uma roupa mais larga vai disfarçar um corpo fora de forma. O traje ideal tem que casar com o biotipo do brasileiro. Não pode ser tão largo quanto o dos americanos e nem tão justo quanto o dos europeus.”

Lá vem o noivo

No casamento com a atriz Giovanna Ewbank, Bruno Gagliasso usou traje cinza de tecido italiano feito sob medida por Camargo. Até a camisa branca foi criada do zero, seguindo as medidas do ator.

João Camargo fez duas visitas a Porto Alegre para criar calça, colete e paletó usados por Nilmar em seu casamento, em março de 2009. O traje foi confeccionado com lã inglesa Dormeuil, de tiragem limitada, que mistura fios de várias regiões do mundo. Um traje do tecido pode custar algumas dezenas de milhares de reais.

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