Música para passarela: a trilha sonora que dita o ritmo dos passos das modelos

DJ Max Blum, que assinou as trilhas de 21 dos 61 desfiles das semanas de moda deste ano, conta o processo criativo por trás do que toca nos desfiles

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Quando começam as semanas de moda, revistas, blogs e sites de notícia viram uma grande galeria de imagens e críticas acerca das coleções. Mesmo quem não está na primeira fila dos desfiles consegue ver detalhes das coleções apresentadas: estampas, acabamentos e acessórios. Dá até para emitir opiniões bem fundamentadas sobre os acertos e os erros dos estilistas. Há, no entanto, algo fundamental nas passarelas que não está ao alcance dos olhos: a batida do som que embala os passos das modelos e, em alguns casos, as canetas dos fashionistas, batendo nos seus bloquinhos de notas conforme manda o ritmo.

O casamento entre moda e música não é recente. Mais de uma vez, as principais passarelas do mundo receberam coleções inspiradas em estilos musicais e homenagens a grandes nomes da música. Amy Winehouse foi a musa de Jean Paul Gaultier na coleção de alta-costura apresentada em Paris no início do ano. Fora do croquis, a música é capaz de criar a atmosfera ideal para a interpretação da coleção, evocando sensações e lembranças dos convidados – ou, em uma nota fora do tom, colocar tudo a perder.

– Na passarela, a música proporciona uma condução rítmica para complementar ou induzir os ritmos, as trocas de cores, as variações dentro do tema. Ela cria atmosferas, complementa o cenário e ajuda muito na narrativa e na personalidade da marca – explica o DJ Nepal, responsável pela trilha da Ausländer, uma das mais dançantes do último Fashion Rio.

Esta temporada teve de Gretchen a Louis Armstrong. Paisagens sonoras que misturavam vários estilos e décadas. Ainda no Fashion Rio, a Reserva, de Evans Queiroz e Rony Meisler, explorou a trilha para contagiar o público e incrementar a apresentação quase teatral da coleção. Assinado pelo DJ Felipe Venâncio, o set trouxe uma dançante sequência de sons feitos por bandas formadas por pais, filhos, irmãos, maridos, mulheres – o tema do desfile era “Família é o novo cool” – intercalados pela familiar vinheta do Jornal Nacional. O resultado foi um público animado, que saiu com New Sensation, do INXS, na cabeça.

– Desfiles geralmente começam impactantes e firmes na comunicação para terminarem apoteóticos, com todos indo para casa cantarolando a trilha final – frisa o diretor Evans Queiroz.

O mago dos bootlegs

Se o DJ Max Blum ainda não entende de moda, pode pelo menos dizer que entende do som que ela tem. Entre passarelas cariocas e paulistas, Max assinou as trilhas de 21 dos 61 desfiles da temporada de verão 2013. Marcas como Alexandre Herchcovitch, Gloria Coelho, Huis Clos, Triton e Fernanda Yamamoto confiaram a ele a batida que embalaria a apresentação de suas coleções.

Pergunta – Como é o processo de criação de uma trilha?

Max Blum – Para fazer essa quantidade de desfiles, antes de tudo, é necessário ter um repertório muito grande. Por isso, passo o ano todo ouvindo coisas novas e buscando opções. Quando a temporada de moda se aproxima, me encontro com o estilista, e ele passa o conceito da coleção (tema, cores, intenções etc.). Algumas vezes, ele já tem até alguma ideia de trilha. Nesse caso, trabalho em cima desse caminho. Se não, o próximo passo é nos encontrarmos para ouvirmos algumas músicas juntos e definir a sonoridade. O último passo é a aprovação da trilha montada.

Pergunta – Ver a coleção e saber o que o estilista quer passar no desfile é fundamental na criação da trilha?

Max – Para mim, ver a coleção não é tão importante quanto entender a intenção que a marca quer passar na passarela.

Pergunta – Acertar no setlist ajuda o público a captar melhor a ideia da coleção?

Max – Acredito que sim, já que para mim a trilha do desfile reflete os sentimentos do estilista ao criar a coleção. Penso que a música certa posiciona as roupas no “local ideal” imaginado pelo criador delas.

Pergunta – Batida mais lenta funciona na passarela tanto quanto a batida mais forte, mais dançante?

Max – Claro. O que importa é criar o clima certo. Uma batida rápida em um desfile que pede leveza e romantismo pode ser um erro. Na verdade, as batidas mais dançantes, atualmente, são provavelmente as que menos funcionam em um desfile. Ninguém quer transformar sua passarela em boate.

A dança da moda, por Roger Lerina

Não existe uma fórmula pronta para trilha sonora de desfile. Cada cabeça de estilista é uma sentença, cada coleção, uma proposição. A brasilidade de Ronaldo Fraga pede um som que certamente não é o mesmo sugerido pelo oitentismo de Alexandre Herchcovitch; se Björk é a cara de Alexander McQueen, Jacques Brel é quem rima com Chanel. No entanto, há músicas que soam naturalmente elegantes e que sem dificuldade conseguimos associar com o clima fashion das passarelas.

Aqui vai uma lista de alguns temas musicais que parecem nascidos para o catwalk, preparada por este DJ amador. Garanto que o setlist abaixo não puxa o tapete de nenhum designer – e pode mesmo acrescentar mais graça à cadência das modelos.

1) So Easy (Röyksopp)

2) Today (Zero 7)

3) Libertango (Grace Jones)

4) Adonde Van los Pájaros (Supervielle)

5) Bubuia (Céu)

6) Sexy Boy (Air)

7) Bonnie and Clyde (Serge Gainsbourg & Brigitte Bardot)

8) If (Etienne Daho & Charlotte Gainsbourg)

9) Shameless (Groove Armada & Bryan Ferry)

10) A Dança da Moda (DJ Dolores)

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