Na festa dele vale tudo! Estilista André Lima aposta na ausência de regras para os looks festivos

Criativo, talentoso, irreverente, avesso a regras e sem papas na língua. Filho de comerciante de tecidos e neto de costureira, desde pequeno o paraense André Lima colecionava retalhos com os quais criou vestidos, ao som de Maria Bethânia. Depois de passar por marcas como Cavalera, lançar-se em carreira solo em 1999, na Casa de Criadores, e estrear na São Paulo Fashion Week, em 2001, o estilista agora volta-se para a moda festa. Sua inspiração: mulheres fortes, musas de Hollywood, de novelas e da música.

– Eu gosto mais de fazer este tipo de roupa: de festa, de altar, noiva, roupas especiais que têm aquela importância, aquela coisa de protagonista na festa – disse à revista Donna, por telefone, do escritório em São Paulo.

Em quase uma hora de uma conversa deliciosamente divertida, André contou que quase sempre chega atrasado às (poucas) festas a que vai, já que gosta de se preparar “tomando aquele banho” e curtir a vibe do evento. Assim, dá para entender bem o reposicionamento de mercado do estilista. Ele deixou claro que não se prende a padrões, mas compartilhando sua experiência, mesmo sem querer, acabou dando várias dicas sobre o que fazer (e até o que não fazer) na produção para uma festança daquelas. A principal delas: liberte-se e sinta-se bem com o que você estiver vestindo.

– Eu odeio regras. O importante é o que a roupa faz por dentro, muito mais do que o efeito que ela causa por fora. Festa é para se divertir! Você vai para uma festa parecendo uma múmia, cheia de “não pode”? Que horror, né?

Inspire-se!

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Sem a patrulha do calendário 

“O que eu acredito que existe na noite é uma certa atemporalidade. E essa coisa de verão, inverno, de estação, parece que perde um pouco o sentido. Então, eu também me descolei um pouco dessa patrulha do calendário. Eu vou lançando as peças. São roupas clássicas, são roupas que você pode usar hoje e daqui a um, dois, três, quatro, 10 anos.”

Gala com curto, terno e alfaiataria

“Em evento de gala, você pode usar curto, se tiver um curto muito importante. Eu adoro mulher à noite de terno, sem gravata, claro. Adoro um smoking, alfaitaria é uma coisa que não sai de moda e deixa a mulher imediatamente elegante. Nem todo mundo quer ir para um jantar de gala superultramega sexy. Aliás, esta busca pelo sexy e overdose de autoestima… cuidado com isso. Você não precisa estar sempre gostosa, quase nua, transparente. Tão bonito uma mulher que é linda, tem o corpo legal e se cobre. Você vê o corpo do mesmo jeito, você só não vê a pele.”

Estampas e texturas

“Acredito muito na volta da estampa para a noite. Primeiro, porque sinto que estamos vivendo um momento nos tecidos de textura. O bordado é uma textura. Estou fazendo umas coisas 3D, mando fazer as pétalas de tecido e prego nas saias. A estamparia tem um caráter tropical, de exotismo. O nosso país é muito mais quente do que frio. Então, acho que tem a ver com o Brasil. ”

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Brilhos e brilhos

“O brilho tem o seu lugar, tem momentos em que ele faz total sentido, principalmente em festas mais importantes, mas acho que existe brilho de A a Z. Existe brilho que tem cara realmente de uma roupa trabalhada, preciosa, e existe brilho que tem cara de Carnaval, uma coisa que é feita para ser vista quase na televisão. E você deve saber que existem os dois, e você pode usar os dois. É tudo uma questão de quem é a mulher e de onde ela está. Acho complicado quando mistura tudo, brilho, joia, loirice, maquiagem.”

Com que joia eu vou?

“A roupa tem que valorizar a mulher. Sempre acreditei no corte e no caimento do tecido. Então, tenho muito cuidado na hora de fazer uma roupa de brilho, por exemplo. Porque quando você tem uma peça importante, você precisa que ela seja o grande destaque do look. Não estou dizendo que a joia é mais importante do que a roupa, mas acho que, nesses casos, a roupa deve servir como um suporte.”

Use a criatividade

“Adoro essa coisa de editar joia, de misturar pulseiras. Detesto conjunto! Acho coisa de gente preguiçosa e sem imaginação. E não gosto de uma edição muito combinadinha em termos de bolsa/clutch e sapato. Gosto muito quando é composto de um jeito quase pra descombinar. Não de propósito, para ‘chocar’, mas uma coisa que não seja tipo ‘o vestido azul com sapatinho azul ou prata’, sabe aquela coisa caretinha?”

Cores e tecidos para apostar

“Já fui muito colorido. Comecei lá atrás botando estampa em altar, depois me joguei nas estruturas (moulages e esculturas) e transitei por várias cores: laranja, amarelo, pink, verde, flúor. Hoje, estou mais para cores misturadas. Um azul um pouquinho mais esverdeado e um pouquinho mais sujo. Tons de pele e maquiagem, não o nude, mas terracotas e cerâmicas, cores que vão em direção ao vermelho, que lembrem uma coisa queimada. Nunca pensei que ia dizer isso: adoro cinza, prata, chumbo (risos). Apostaria em poucas cores no sentido de cor viva. O vermelho é eterno, o pink é eterno, dependendo da pele da mulher. Eu teria cuidado com o verde, principalmente para mãe de noiva. E renda verde, então, já é o clássico do clássico do clichê, e eu acho que envelhece. Tecidos vazados não precisam ser necessariamente renda. Pode ser um recortado, tela, organza, georgete, musseline têm esse papel. O vermelho é um clássico. Infelizmente, não dá para ser madrinha de preto, mas aquela zibeline linda, aquele cetim duchese poderoso num azul marinho é chiquérrimo, é eterno.”

 

andrelimamtg2As criações do estilista contam com cores, estampas, texturas, recortes e misturas inusitadas: a receita de André Lima é sentir-se bem com o que se está vestindo

Abaixo as bridezillas!

“Detesto noiva que fica escolhendo cor de gente no altar. Acho ridículo. Desculpa, eu acho que, se eu estou casando, quem está no altar comigo é quem me ama, quem eu amo, quem está ali torcendo. Gente tirando foto do tecido pra mandar pra noiva ver se aprova… Não, né? Menos. E outra também que eu acho uma loucura: essa coisa de não poder usar preto. Acho uma bobagem. Os homens vão de preto. Não é a cor de um vestido que vai fazer com que o casamento dê certo ou não (risos). Eu sou supersticioso pra ca**te, mas isso eu acho a maior burrice!”

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Lupita Nyong’o: a mais linda, sim!

“Maravilhosa, né? Sempre amei mulheres negras que fazem um barulho só da gente olhar, sabe? Grace Jones, que já foi modelo, Iman, mulher do David Bowie, Veluma, que é uma modelo brasileira dos anos 1980, deusa! Eu acho que esta quebra de padrões já está acontecendo há muito tempo. Modelo negra já tem no mundo há quanto tempo, né? O meu primeiro desfile, aqui em São Paulo, na boate Columbia, tinha só modelos negras. Isso em 1993. Então, sempre estive com elas. Sou fã, acho que a pele é linda. Hidratada, parece um chocolate suculento, aquela coisa profunda.”

Use o que acende você

“Adoro (a Lupita) com cor, mas também adoro quando ela usa alguma coisa que beira o étnico ou que tem uma pegada de cores mais sujas, de um metal escovado. Às vezes, tons mais pastel ficam lindos numa pele negra, um amarelo mais baixo, que não seja aquele amarelão gritando. Mas eu odeio regra. Se eu for dizer ‘negros não devem usar vermelho’… imagina! Diana Ross fica linda de vermelho! As pessoas têm que usar o que elas acham que as acende, o que as deixa brilhando. E você não brilha só com uma cor forte, você brilha às vezes de branco, né?”

O Oscar da moda

“Jennifer Lawrence! Eu amo esta mulher! Queria ser amigo dela, acho ela incrível. Acho que aquela queda no Oscar foi proposital (risos). Ela tem um sexy meio malucão, sabe? Não é aquela mulher oferecida, quase nua, decotada. E, ao mesmo tempo, ela tem uma sensualidade, uma feminilidade que eu acho arrebatadora. Quem eu gosto de ver como se veste: Nicole Kidman, Sarah Jessica Parker. Angelina Jolie é uma mulher eterna, uma diva. Para mim, está no mesmo caráter de uma Sophia Loren. E fora que ela casou com quem (risos)? Amy Adams é deusa, e tem ainda Cate Blanchett, Tilda Swinton.”

Summer para os homens

“Odeio smoking com brilho. Acho lindo o vestuário masculino clássico, que você sente que é nobre mesmo. Mas tem maneiras de usar. Às vezes, é um smoking azul marinho, às vezes é um colete por dentro do smoking, às vezes é uma gravata borboleta clara, que fica lindo. Adoro homem de summer em festa black tie, dá logo uma sensação de ser mais leve, mais despojado. Sabe aquele homem que gosta do verão? Eu (risos).”

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Nunca desça do salto ou tire o paletó

“Não consigo entender uma mulher se arrumar inteira e, lá pelas tantas, não aguentar o salto que escolheu. Então, não compre o sapato. Ou compre e fique em casa, sentadinha num jantar. Mas não faça isso. É feio, né? Vá com um sapato bem confortável, mas não saia do salto. Nunca! Nunca, nunca, nunca, nunca. Também não gosto que os moços tirem o blazer. Quer dizer, não gosto e gosto (risos), depende do moço (risos). Não, não é isso. Acho a mesma coisa: não precisa. Foi arrumado? Volte para casa lindo e arrumado. A gente não dança em festa black tie, de gravata, blazer? Dança. Ah, é tão bonito ver uma festa montada até o fim. Não falei de regras, mas falei de uma coisa que eu não acho legal, isso de tirar o sapato, e isso das madrinhas comandadas pela ditadura da noiva maluca (risos).”

Além de regras, André odeia…

“Short com salto alto: tenho pavor. O problema não é o material do short e o salto, o problema é a grossura da perna. Infelizmente, algumas coisas ficam bem em determinados tipos de corpos. Mas não consigo achar elegante uma mulher de short e salto alto. De dia, então, acho mais chocante ainda. Fica a dica. Fica bem a dica (risos). Essa febre de loira é uma coisa muito louca, né? Porque tem mulher que fica muito bem, tem mulher que fica um lixo. Outra que eu acho uma coisa séria para uma festa e quase ninguém percebe: essa coisa de cabelo degradê. Mechas californianas, ombré. Quando você prende o cabelo, fica com a raiz escura e aquele coque maravilhoso que parece colocado, peruca, de outra cor. Uma coisa é o cabelo do dia a dia, no verão. Quando vai para uma festa, é outra proposta. E acho que as pessoas deviam fazer menos mechas e menos ombré (risos) e cuidar mais da hidratação do fio. Brilho de dia também não é uma coisa que eu ame. Na verdade, não gosto. Cetim de dia… Nossa Senhora! Imagina: blusinha de cetim, um short jeans e um salto alto no shopping. Linda! Só que não! (risos)”


Em 2008, o talento de André Lima virou livro na Coleção Moda Brasileira (editora Cosac Naify) Acompanhe as criações do estilista no perfil instagram.com/andrelima_br e no site andrelima.com.br

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