O luxo mora nos detalhes | Entrevista com Mara Mac

Como Mara Mac Dowell mantém-se, há 40 anos, símbolo de uma moda elegante e atemporal

Rio de Janeiro

Uma joia caríssima, um carro importado, um hotel cinco estrelas, uma champanhe francesa. Qual é a definição de luxo para você? Há quem diga que o luxo se concretiza somente nas coisas materiais (tipo ostentação), mas, em pleno 2014, quando a luta é por causas como menos tempo no carro, mais tempo com a família, este parece um conceito muito raso.

Foi nessa busca por significado e significante que pairamos sobre o emblemático universo de Mara Mac Dowell, uma das empreendedoras do ramo da moda que compreendem e traduzem o luxo na sua maneira mais pura. Gaúcha de berço – nasceu em Santana do Livramento, mas também morou em Alegrete e Porto Alegre -, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro na adolescência, e lá vive até hoje. Com formação em jornalismo pela PUC-RJ (atuou como repórter do jornal O Globo durante dois anos), a vocação para a moda falou mais alto – tão mais alto que hoje a estilista celebra uma carreira sólida de mais de 40 anos (a idade, Mara prefere não revelar).

Mara

À frente da Mara Mac, marca do segmento de moda de luxo com produção de 14 mil peças/mês (distribuídas entre 12 lojas próprias e atacado, que atende a todo o Brasil), a criadora se mantém fiel ao estilo moderno e minimalista que a tornou conhecida desde o início. Se hoje ela defende que suas roupas representam “o estilo da mulher atual, sensual, única, todas em uma só”, há 10 ou há 30 anos ela poderia fazer exatamente a mesma afirmação. Seja observando os arquivos da marca precedente, Mariazinha, ou os dos desfiles Mara Mac do início dos anos 2000, a sensação que se tem é a de que toda e qualquer peça tem estilo moderno e, ao mesmo tempo, atemporal. O conceito de “peça-investimento” – do tipo que dura para a vida inteira – cai como uma luva. Julia Lemmertz, Maria Fernanda Cândido, Lília Cabral, Patrícia Poeta e Sophie Charlotte estão entre as clientes que desfilam seus vestidos de seda, suas pantalonas de linho e seus organzas pintados à mão. Os acessórios também são ponto alto em suas coleções – a linha Light Bag, desenvolvida em parceria tecnológica com a Universidade UniRitter, de Porto Alegre, possui uma delicada luz de LED no interior de cada modelo, iluminando os milhares de itens que acompanham uma bolsa feminina.

E onde entra o luxo? Na visão de negócio, no cuidado com o detalhe, no apreço pelas pessoas. Donna teve a honra de realizar esta entrevista no atelier de Mara Mac, no Rio de Janeiro, e conhecer uma equipe notável de profissionais que pensam e preparam o produto que chega às lojas. Da recepcionista à modelista, da equipe de estilo ao financeiro, ali há gente exercendo seu trabalho feliz. Em tempos de escândalos envolvendo marcas caras trabalho escravo, luxo é poder adquirir ou proporcionar felicidade e condições decentes. Saber de onde vem seu vestido ou que a modelista e a costureira estão usufruindo de um 13º salário: isso, sim, é luxo. E não tem preço. (Aliás, tem – e deveríamos ter todo o prazer em pagar.)

Mara Mac Raízes do norte

DonnaComo começou seu envolvimento com moda?
Mara Mac Dowell – Sempre gostei de moda. Era aquela que dava palpites nas roupas das amigas, bolava vestidos para toda a família e devorava revistas de moda. Minha mãe costurava para mim, e minhas criações faziam sucesso no meu grupo.

Donna – Você é uma estilista autodidata. Sentiu falta de algum tipo de formação no início da carreira?
Mara – Aprendi moda fazendo, criando, experimentando. O que valia, e vale até hoje, é o bom gosto, o olhar certo para as proporções e o amor pelo seu objeto de trabalho. Nunca senti falta de um suporte formal para criar. Viajar, ler, assistir a concertos, peças teatrais, balés… Isso sempre me bastou. Hoje tudo é mais científico, as coleções são planejadas com bases financeiras, os estilistas têm conhecimento de mercado – uma outra experiência é necessária. Você tem que ter noção de administração porque, hoje em dia, estilo não é só desenhar bonitinho.

 Donna – Isso é o que mais falta no profissional de hoje, né?
 Mara – É, não é só desenhar, ter bom gosto. Estilo hoje demanda uma pesquisa de mercado, uma série de coisas. Uma administração do que você vai comprar, do que vai entrar na coleção. Não é como era antigamente. Tem gente que só sabe desenhar, só tem bom gosto e acaba se afundando, porque às vezes a coisa bonitinha não é comercial. Você vê que os negócios não perduram.

Donna – E sobre sua experiência de estilista, como foi sua trajetória profissional até chegar ao lançamento de uma marca própria?
Mara – Comecei como compradora de um grande magazine, a Mesbla, que tinha filiais no Brasil inteiro. Foi uma grande escola e me despertou para minha verdadeira vocação. Depois, fui contratada como compradora da estilista da Mariazinha, a primeira boutique de Ipanema. Foi aí que aprendi tudo realmente, desenvolvia coleções, comprava acessórios, coisas de casa e moda. Mais tarde, passei a ser sócia da marca e, mais adiante, a ser a única proprietária. Em 2000, mudamos o nome para Mara Mac, e desde então estamos expandindo as lojas e chegando a novas praças.

 Donna – Hoje, a Mara Mac é uma marca carioca que foge completamente dos estereótipos da mulher que se veste com estampa de flores e só associa sensualidade com “pele à mostra”. O conceito é tão atual que é desejado até em Estados mais tradicionais, como o Rio Grande do Sul. Como você define esse estilo? É um “carioca cool” ou um “cool universal”?
Mara – Não criamos moda para as cariocas, criamos um estilo de vida mais casual e despojado inspirado na cidade. É uma roupa feita para a mulher inteligente, que tem seu jeito próprio, quer qualidade e conforto para estar bem em qualquer ocasião e lugar. O Rio é uma cidade solar, cores fortes e estampas fazem parte da paisagem. Vale mostrar a pele, mas sempre insinuada através de fendas, de decotes que descubram os ombros, de recortes localizados. Não gosto quando tudo fica muito explícito.

Donna – O que é elegância para você?
Mara – A elegância começa na atitude. Vem de dentro e salta aos olhos. Uma pessoa elegante é segura de si, confiante. A roupa apenas ressalta essa coisa natural. Saber escolher o look certo para cada ocasião e tratar a todos da mesma forma: isso é elegância.

Donna – E sensualidade?
Mara – A sensualidade é subjetiva. Para mim, transparências, fendas e a insinuação das curvas do corpo bastam para despertar esse lado feminino. Minha sensualidade nunca é vulgar. É muito mais sobre a mulher do que sobre a roupa; ela é elegante porque a atitude vem dela, de dentro.

Donna – Que mulheres te inspiram? Você tem alguma musa?
Mara –
Minhas musas são todas as mulheres. Várias famosas já inspiraram coleções Mara Mac: as loiras geladas, como Grace Kelly e Catherine Deneuve, foram musas de inverno; Billie Holiday inspirou uma coleção romântica, e outras que admiro ainda serão homenageadas. Mas, de agora, ninguém. Eu não penso em mulher alguma pra realizar a moda atual. A moda atual é sempre construída em cima de uma história que envolve personagens.

Donna – Você já foi referida diversas vezes como a “Coco Chanel brasileira”. O que acha disso?
Mara – Ah, bobagem (risos). Eu admiro muito a Chanel.

Donna – O que a mulher Mara Mac nunca usaria?
Mara – Uma roupa sem qualidade, mal feita e com péssimo caimento.

Donna – Fast fashion, então, nem pensar?
Mara – Nem pensar.

Donna – Com a ascensão do normcore, até as grandes redes têm aderido à tendência dos anos 1990. Mas esse minimalismo sempre fez parte do seu DNA. Isso já afetou de alguma maneira seu processo criativo? E a receptividade do público tem sido melhor?
Mara – Vejo com otimismo essa democratização da moda. Existe público para todo tipo de marca. Acredito que o menos é mais como estilo, mas esse menos não se traduz em falta de qualidade. Muito pelo contrário: para fazer a roupa minimalista, é preciso investir na textura, no corte e no acabamento impecável. Mínimo não é sinônimo de pouco, mas de simplicidade chique.

 Donna – Durante anos, você fez parte do calendário oficial do Fashion Rio. O que ocasionou essa parada nos desfiles em semanas de moda?
Mara –
Sinto saudades dos desfiles, da criação do cenário, escolha da trilha, casting, mas acho que foi importante essa parada. Fizemos lindos desfiles, memoráveis mesmo, por mais de 15 anos participamos de todos os eventos de moda carioca. Gosto de unir o estilo, a arte, o comportamento, então sempre fiz desfiles temáticos. Guardo os catálogos de todos. São muitos, viu, Larissa… (Interrompemos a entrevista para relembrar alguns momentos históricos de Fashion Rio através dos catálogos. Mara se emociona e compreende-se a importância da passarela na vida de um estilista.) Reavaliar as prioridades e optar por mostrar a coleção à imprensa e clientes de forma mais intimista tem sido interessante. Espero em breve voltar a desfilar as coleções Mara Mac.

Donna – E este novo formato de apresentação tem sido melhor?
Mara –
Não existe uma questão de melhor ou pior nesse caso, é apenas uma nova abordagem. O desfile ainda é a melhor maneira de mostrar uma proposta de moda, mas acho que é tempo de mudanças, de pensar fora da caixinha, de inovar. O desfile exige que você faça um pouco mais de conceito, e isso é muito bom. Quando a gente fica fazendo só looks comerciais, acaba perdendo um pouco da magia. Tenho saudades dessa época de desfiles, mas no momento em que houve essa restrição comercial – nós éramos todos patrocinados -, ficou inviável. Um desfile com coreografia, 30 manequins, você não faz por menos de R$ 400 mil ou R$ 500 mil. E ninguém tira do seu giro, especialmente em uma época difícil como está agora, né?

Donna – Como você enxerga o cenário atual da moda brasileira? Está mais competitivo e criativo ou repleto de “mais do mesmo”?
Mara –
Vejo uma mudança grande nesse cenário, principalmente no comportamento do consumidor. É tempo de inovar na criação e na comunicação das marcas de moda. Quem ficar no “mais do mesmo” vai se perder nesse processo. Também está mais competitivo porque tem muita gente. A escola de moda proporciona isso. Hoje os estilistas são heróis – está difícil começar alguma coisa. Os impostos são exorbitantes, aniquilam, e, se você não tem uma coisa estabelecida – que assim mesmo você carrega com muito sacrifício -, para começar no Brasil está difícil, principalmente do zero. O momento está terrível. Espero que isso passe.

Donna – Quem são os estilistas brasileiros que você admira?
Mara –
A moda brasileira é criativa e tem muito a conquistar. Admiro todos que têm coragem de criar nesse mercado instável, em que os impostos quase inviabilizam a produção das peças. São todos heróis. Os novatos trazem as novas técnicas de produção e o entusiasmo de criar. A união da experiência dos veteranos com essa força de juventude é muito positiva. Nesse tempo de rapidez da informação, transformada em pequenas pílulas de conhecimento, talvez eu sinta falta de uma preocupação cultural mais profunda. Essa cultura que serve de base para criação da moda.

Donna – Dizem que a profissão de costureira está em extinção. A Mara Mac é uma das poucas empresas que investe no seu próprio atelier, sua própria equipe de costura e modelagem. Como é isso no dia a dia?
Mara –
Não vejo dessa maneira a questão das costureiras, acho que está tudo em transformação, elas também vão ter que investir em aperfeiçoamento. Como eu tenho a modelagem feita internamente, é muito fácil de manter a qualidade. Aqui você faz uma coisa, põe no corpo, desce para ver, arruma, sobe, acabou; faz enviesado, faz fio reto… Eu não faço modelagem, só corrijo. Não sai nada sem passar por mim. Olho e já vejo onde está o defeito na manga, aqui e ali.

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