Para eles: as novas tendências na semana da moda masculina de Londres

Estampas vivas, bermudas, moletons, jaquetas esportivas e estilo skatista dos anos 80: a moda do momento para eles

Alfaiataria contemporânea: shorts são tendência
Alfaiataria contemporânea: shorts são tendência Foto: Jonathan Player

Romain Brau, fundador da loja de vanguarda Ra, em Antuérpia ‒ onde o estilista mais comercial é o conceitualista belga Walter Van Beirendonck ‒ depende de criatividade e talento jovem para atrair a curiosidade do consumidor e Londres é, quase sempre, o lugar onde ele encontra ambos.

– Não há nada como Londres – elogia ele. Eles têm toda uma estrutura e os patrocinadores estimulam a garotada.

Durante um evento de moda que durou quatro dias e terminou em 17 de junho, dedicado pela primeira vez só à moda masculina, era difícil não notá-lo, alto e magro, usando uma jaqueta enorme de pele sobre uma túnica e um minhocão branco enfiado dentro da bota. Na cabeça se destacava um pássaro enorme, ou uma tiara feita de penas de pavão brilhantes que tinha que ficar segurando para enviar que esvoaçassem enquanto ele caminhava.

Excentricidade na moda é lugar comum e Londres, com suas escolas prestigiadas e a fama de produzir figuras de enorme potencial criativo como Vivienne Westwood e Alexander McQueen, adota a individualidade mais do que qualquer outra capital.

Por isso, de certa forma foi surpresa que tantos jovens participantes oferecessem uma visão, no mínimo, segura e convencional, baseada ou na alfaiataria tradicional ou nas estampas animadinhas e roupas esportivas fluorescentes dos anos 80. Em vez de rebelião, eles ofereceram ao público shorts (e nem foram tantos assim.)

Um pouco de rebeldia seria mais do que bem-vinda, embora servisse para mostrar o quanto Londres mudou em relação aos dias da parceria incendiária e arrogante de Westwood com Malcolm McLaren, sob a grife Sex: ela estava entre os estilistas que participaram da recepção oferecida pelo príncipe Charles no Palácio St. James’.

– Alguém até sugeriu que eu fosse um ícone da moda – disse o príncipe na festa. Demorou 64 anos para que isso acontecesse.

Mesmo assim, havia muito que descobrir e o suficiente para provocar na primeira Semana da Moda Masculina de Londres, que deu início à temporada de primavera/verão e será seguida pelas coleções exibidas em Florença, Milão e Paris. Brau mencionou a coleção promissora de Kit Neale, um dos três estilistas novos de um grupo chamado Fashion East, que exibiu estampas de lagostins cor de laranja e caças em tons pastel que lembravam os temas dos lençóis infantis.

Jonathan Anderson, que está fazendo um trabalho interessante com a grife J.W. Anderson, criou twin sets unissex e conjuntos com cara de pijama de renda pintada, incluindo um preto que, segundo muita gente, lembrava o infame vestido da Comme des Garçons que Marc Jacobs usou na festa do Instituto da Moda em maio. Houve apresentações excelentes com vários níveis de criatividade ‒ desde Jonathan Saunders à equipe de estilistas excêntricos da Meadham Kirchhoff, marcas que estão rapidamente se expandindo além dos limites da cidade.

– Ninguém nem se lembra da última vez que houve um evento voltado só para a moda masculina por aqui – disse Christopher Bailey, o estilista da Burberry, que deu uma festa na filial da Brompton, embora ainda tenha um desfile em Milão para fazer. Vários profissionais norte-americanos também ofereceram festas ou jantares, incluindo Tommy Hilfiger, Tom Ford, Thom Browne e Italo Zucchelli da Calvin Klein. Mais de 50 estilistas apresentaram suas coleções, na passarela ou em showrooms espalhados pela cidade.

– É uma grande oportunidade de revelar uma nova geração de estilistas e de outras grifes participarem – diz Bailey.

No fim, aquilo que definiu o grupo tão heterogêneo que exibiu suas roupas no evento inaugural, chamado “London Collections: Men”, não foi tão diferente dos desfiles de Nova York ou Milão.

O look predominante, com estampas vivas, bermudas, moletons e jaquetas esportivas, vem da streetwear da Costa Oeste e do estilo skatista dos anos 80, refletindo a moda descolada universal do momento, além da influência da nova-iorquina Opening Ceremony, que inaugurou uma loja em Londres há poucas semanas. As semelhanças entre as coleções, às vezes, eram incríveis.

Um exemplo que primeiro pareceu divertido, mas depois meio frustrante, foi o fato de tantos estilistas exibirem modelos usando shorts com meia social preta. Em três dias, apareceram pelo menos meia dúzia, incluindo Lou Dalton, Topman, Christopher Shannon, Richard Nicoll, James Long e Saunders ‒ o que sugere que todos foram buscar o mesmo ponto de referência, mais provavelmente na revista Fantastic Man do que na GQ. Eles trabalham nas mesmas fábricas e showrooms e geralmente têm as mesmas ideias.
Eric Jennings, diretor de moda masculina da Saks Fifth Avenue, disse que ficou maravilhado com as coleções que combinaram a tradição e sobriedade de Savile Row com uma atitude mais juvenil, descolada, uma categoria que as lojas estão chamando de “alfaiataria contemporânea”.

E ela apareceu em abundância. Saunders incluiu ternos estreitos em risca de giz de cores contrastantes ou estampas com ilusão de ótica em sua coleção. Outro destaque foi a grife E. Tautz, divisão prêt-à-porter do alfaiate de Savile Row Norton & Sons, adquirida em 2005 por Patrick Grant, um jovem estilista que vendeu a casa e o carro para arrebatar a marca. Desfilando num cais na região leste de Londres, Grant apareceu na passarela e fez um pequeno discurso sobre sua inspiração: o explorador Sir Wilfred Thesiger, que, ao encontrar um guerreiro Afar que levava os testículos de suas vítimas pendurados na cintura, comentou que o homem lhe lembrava mais um aluno arrogante de Eton que tinha acabado de ganhar um jogo de críquete.

Na verdade, a coleção E. Tautz só mostrou um terno, pois se preocupou mais em mostrar paletós combinados com shorts e moletons de algodão e casacos casuais de lona grossa amarelo gema, pink ou turquesa.

– A moda britânica é ótima porque ela evolui em todas as direções – diz Grant. – Antigamente, o pessoal nos rotulava como tradicionalistas ou estilistas de streetwear sem imaginar que poderia haver nada intermediário. Acho que mostramos nossa coragem de ousar.

A coleção de Lou Dalton, que incluiu camisas sociais e esportivas numa estética minimalista em tons de cinza, foi um bom exemplo da seriedade com que os estilistas de hoje tocam seus negócios. Londres era conhecida como a cidade em que havia estilistas criativos, sim, mas despreparados para vender ‒ ou, como resumiu Paul Smith:

– A maioria achava que VAT (imposto) era a abreviação de vodca e tônica.

– Estamos nos colocando em relação a estilistas muito famosos e queremos crer que nossas coleções podem ser tão relevantes quanto as deles no futuro – disse Dalton. – A moda de Londres também pode ser uma blusa de moletom bem cortada ou uma bela calça porque, no fim das contas, é isso que vende.

Há, porém, alguns profissionais que se irritam com qualquer sinal de conformismo, representando a divisão em Londres entre os que seguem a tradição e os que vão além dos limites. Nesse aspecto temos nomes como Meadham Kirchhoff, a grife fundada por Edward Meadham e Benjamin Kirchhoff, que se conheceram quando ainda eram estudantes na Central Saint Martins. Em seu desfile, os modelos, usando jaquetas acolchoadas, saias tipo sári bordadas, shorts esportivos, regatas listradas, túnicas transparentes e um ou outro vestido floral, se espalharam sobre colchões imundos dispostos entre pilhas de restos de junk food e rosas apodrecidas. Uma cena decadente que, de certa forma, endossou a globalização total da moda.

– Não tem mais essa de liberdade pessoal ou estilo pessoal – disse Kirchhoff. – Isso se perdeu, não só em Londres, mas ao redor do mundo.

Outro estilista novato, Aitor Throup, conseguiu apresentar sua coleção sem na realidade mostrar as roupas. Ele, que é consultor de grifes como C.P. Co., vem desenvolvendo sua própria grife com a intenção de introduzir novidades quando estiver pronto e não forçosamente em toda temporada. A única peça que apresentou numa sala tão abafada que os convidados chegaram a pensar que estavam sendo vítimas de uma pegadinha, foi um tipo de bolsa de mão cinza na forma de crânio, como um zíper atravessando a cabeça e outro ligado à mandíbula. Ele vem desenvolvendo a mesma bolsa desde 2006, por isso vários modelos surgiram dispostos ao longo de uma parede, como se fosse um quadro evolutivo.

Foi uma iniciativa diferente (se não potencialmente equivocada), sinal que a individualidade ainda não está de todo perdida numa cidade invadida por meias pretas. Aliás, nenhum dos estilistas que usaram o acessório disse entender como, de repente, ele virou tendência. James Long, cujos vinte looks incluíram as tais das meias combinadas com shorts em estilo japonês, se disse perplexo tanto quanto os outros:

– Eu não gosto de pé, então prefiro cobri-lo sempre que possível.

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