4 gurias plus size contam como abandonaram regras de moda e resgataram sua autoestima

Fotos: Joana Carolina, Especial
Fotos: Joana Carolina, Especial

Jéssica Lopes

Ela cresceu ouvindo que, se não fosse magra, jamais iria arranjar um namorado. Que nunca encontraria roupas e se vestiria como queria. Que não seria feliz enquanto não emagrecesse. É justamente para mostrar que peso não é impeditivo para namorar, se vestir bem e andar com um sorriso no rosto que Jéssica Lopes, 23 anos, criou o blog e o canal no YouTube Femme Fatale by Jeh. O que começou com dicas de moda e beleza acabou se transformando em um espaço em que a moradora de Pelotas fala de vários assuntos relacionados ao seu dia a dia. Os vídeos mais recentes tratam desde cerveja artesanal a transtornos de ansiedade. É lá também que Jeh, como é conhecida pelos mais de 160 mil inscritos, aborda assuntos como aceitação do corpo e sexualidade, principalmente quando se trata de meninas gordinhas – e alguns com a presença de Maurício, seu namorado há nove anos.

— Quando as pessoas me relatam “Minha família diz que eu não sou bonita”, me coloco no lugar porque já passei por isso, sei o que se passa na nossa cabeça e como a gente se sente. Consigo ser um exemplo para mostrar que tudo isso que falam não é verdade. Fico muito contente por elas, porque eu não tive isso, ninguém para me inspirar quando era mais nova ou para mostrar que as pessoas estavam erradas. Cresci com as pessoas tentando colocar na minha cabeça que eu não seria nada do que queria porque sou gorda. O que eu tento fazer é mostrar que você pode ser bonita e se aceitar independentemente da forma física e usar o que quiser — defende.

plusjehfemmefataleJaqueta jeans By Kytsis, blusa By Kytsys, saia acervo pessoal Jéssica

Entre os tópicos que mais geram dúvidas entre as leitoras, a reeducação alimentar a que Jéssica se submeteu há menos de dois anos está no topo da lista. Em 2014, a vlogger atingiu os 110 quilos e começou a notar sinais de que sua saúde não andava tão bem.

— Era sedentária, e não via mais qualidade de vida quando subia uma escada e ficava ofegante. Tinha uma alimentação péssima, fui morar sozinha e passava o dia sem comer, e quando chegava a janta aquecia um congelado porque era mais rápido. Quis colocar a saúde em dia porque sou nova e também praticar atividades físicas para ter um pouco mais de qualidade de vida. Meu foco não era emagrecer, mas melhorar esses aspectos — diz Jeh, que perdeu 20 quilos desde então.

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Pelo Snapchat (jehfemmefatale), passou a compartilhar sua nova rotina, que inclui refeições a cada três horas e idas frequentes à academia. Mas nada que impeça Jeh de se jogar em um hambúrguer ou um bom copo de cerveja artesanal vez ou outra.

— Se estou com vontade, vou me permitir, porque acho que isso é manter não só o corpo, mas a mente saudável. O equilíbrio tem que estar em todos os lugares. O que não posso fazer é comer todos os dias. É assim que as pessoas conseguem ver que é possível. Fazer atividade física não quer dizer que você vai virar musa fitness da academia — brinca.

Além de incentivar meninas que querem melhorar a saúde, Jéssica também inspira quem ainda tem neuras quanto ao closet – a ruiva não tem pudor algum na hora de se vestir, para a alegria dos mais de 70 mil seguidores que acompanham seus looks no Instagram. Tem top cropped, saia rodada, listras, estampas e tudo aquilo que toda menina com quilinhos a mais cresceu ouvindo que “não pode” – e basta ver as produções da guria para ficar com vontade de usar também.

— Nunca liguei para regras. Se acho a peça bonita e acho que vou me sentir confortável usando, não me importa se dizem que pode ou não — garante.

Sei que é difícil ignorar o que nos falam, porque a gente cresce ouvindo. Mas coloque-se em primeiro lugar. Olhe no espelho e veja “gostei disso. Se estou me achando bonita, então porque se importar com o outro?”. O amor próprio vem em primeiro lugar.

DN010005160514_12190357_7Boina acervo pessoal, camiseta, jaqueta e saia Chica Bolacha e sapato Convexo

 

Gabi Ferst

Como tantas outras garotas que passaram a vida toda em briga com a balança, Gabriela Ferst fez de duas peças seu uniforme na adolescência: legging e camiseta.

— E camisetão tapando o bumbum! — brinca. — Eu acabava me escondendo porque não encontrava roupas de marcas como as que outras meninas usavam — recorda.

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Além do problema com o armário, Gabi também enfrentou muitas situações típicas de quem cresceu gordinha. O versinho “gorda, baleia, saco de areia”, que atormenta tantas meninas (e meninos!) em idade escolar, era ouvido com frequência. Aliás, foi no colégio ainda que a garota, baixinha e gordinha, viu o menino de quem gostava ficar com outra colega, “loira, magra e alta”.

— Depois que passei a dar atenção aos meus pontos fortes, percebi que tem gosto para tudo. Aprendi, aos poucos, a me gostar. Comecei a observar as pessoas diferentes e vi que ninguém precisa ser igual. Passei a me relacionar com pessoas que não se importavam com isso e que gostavam de mim. Meu marido (Alfonso) também me ajudou muito. Ele nunca tinha namorado uma menina gordinha, era sempre “as magrelas”, e casou comigo — conta.

00ba0274Moletom Chica Bolacha, casaco By Kytsis, saia acervo pessoal e tênis Convexo

Aos 32 anos, Gabriela divide-se entre a carreira de modelo plus size, iniciada em 2010, o trabalho na área comercial de uma agência de cinema e vídeo e a família: é mãe de Nicholas, oito anos, Antônia, quatro, e o pequeno Ernesto, sete meses. A experiência própria agora lhe ajuda nas conversas sobre autoestima com a filha.

— A Antônia é gordinha também, e ela ainda tem o lance do cabelo, que é bem cacheado e ela curte. Na hora de sair, a gente faz uns black power, coloca flores. Tento ensinar que somos todas diferentes. Uma amiga tem cabelo liso, outra é bem magrinha, tem a loira, tem a negra — explica.

No que depender de Gabi, portanto, Antônia vai crescer cheia de amor próprio também.

A gente demora a aceitar o corpo que temos, mas precisamos aprender a nos gostar.

00ba027bBlusa e calça Ashua, jaqueta Pompeia, bota e lenço acervo pessoal e bolsa Renner
Vestido Ashua, camisa-vestido sobreposto By Kytsis e tênis Convexo

 

Jéssica Lima

Jéssica Santos Lima é daquelas meninas que, desde pequenas, sempre se identificaram como gordinhas. Até hoje, aos 17 anos, é a única de manequim maior entre o grupo de amigas.

— É engraçado porque às vezes elas falam “nossa, como essa roupa fica bem em ti, e em mim não fica tanto”. A gente não nota essa diferença. Sempre convivi muito bem — garante.

Mas não foi tão fácil assim aprender a amar a imagem que via diante do espelho. Aos 14 anos, estava em um daqueles escorregadores gigantes de um parque aquático quando ouviu as palavras que não sairiam da memória. “Olha ela ali em cima! Como ela vai andar? Vai acabar quebrando o brinquedo”, disse alguém lá embaixo, em tom de gozação tão próprio de comentários gordofóbicos que acabam virando rotina na vida de quem não veste manequim 38. Embora tenham machucado à época, os dizeres infelizes foram deixados para trás quando Jéssica começou a se interessar por moda, no meio do ano passado.

— Estava com problemas de não achar roupa e queria me vestir de uma maneira mais estilosa. Foi quando comecei a me aceitar mais e entender que esse é o meu corpo, e é assim que eu vou viver com ele, e sempre do jeito que eu gosto — conta a adolescente, que estuda para ingressar no curso de Design Visual da UFRGS.

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Agora, acaba de estrear como modelo em uma campanha para a grife plus size gaúcha Chica Bolacha – e nem pensa em voltar a deixar o guarda-roupa perder a graça novamente.

— Eu tentava me esconder por ser gordinha. Quando percebi que tinha espaço na moda, me senti mais livre — conta.

Busque ser feliz do jeito que você é. Quando você se sentir bem com uma peça, saia com ela e se divirta.

00ba0278Vestido Chica Bolacha, cardigan e botas acervo pessoal

 

Betina Körbes

Antes de olhar no espelho e gostar, pela primeira vez, da imagem que via refletida, Betina Körbes enfrentou uma jornada que incluiu depressão e bulimia e, claro, muito julgamento de quem sequer a conhecia. Com pouco mais de um ano de idade, perdeu a audição por conta de uma meningite. Na adolescência, a deficiência auditiva dividia espaço com o efeito sanfona, que fazia a guria de 1m78cm engordar e emagrecer com frequência, tornando mais distante o sonho de ser modelo.

— Quando tentei entrar em uma agência, estava no manequim 40, e não sabia que o máximo era 38. Precisei fechar a boca, mas acabei desenvolvendo bulimia, não queria mais estudar e entrei em depressão — recorda.

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Em meio à recuperação, Betina se inscreveu em um curso de auxiliar administrativo voltado somente para pessoas com deficiência, que acabou sendo o divisor de águas na sua vida.

— Mudou completamente a minha visão. Foi lá que vi que existe gente com deficiência visual, na cadeira de rodas, sem braços. Eu só era deficiente auditiva, mas não tinha nenhum problema físico. Foi quando descobri que não podia reclamar tanto. Queria começar a viver.

00ba0277Camisa By Kytsis, saia Chica Bolacha, casaco e bolsa acervo pessoal e sapatos Convexo

Com a ajuda do irmão, Rafael, que é designer de moda, passou a dar uma chance para peças que nunca havia usado. Até a desejada saia lápis, que Betina morria de vontade, mas nunca havia usado, ganhou um espaço no guarda-roupa.

— Aprendi que eu preciso experimentar uma peça antes de imaginar se ela dá certo ou não – conta.
Inspirada na top model plus size norte-americana Tara Lynn, a guria de 27 anos e olhos esverdeados também encara a carreira de modelo, que tem ajudado ainda melhorar sua autoestima. Mas, quando alguém insiste em julgá-la por qualquer motivo, tem a resposta na ponta da língua:
– Já digo de cara que estou sem o aparelho auditivo. Não sou obrigada a ouvir que falem mal de mim, do meu tamanho ou da roupa que visto.

Me dei conta de que não preciso me comparar a ninguém, preciso ser eu mesma. Aprendi a me olhar no espelho e me amar do jeito que sou. Todo mundo tem seus defeitos.

00ba0276Blusa By Kytsis, casaco Ashua,  calça acervo pessoal e botas da Convexo

Ficha técnica

Direção, concepção criativa e styling: Mauren Motta
Assistente de produção de moda: Morgana Ludwig
Maquiagem: Savana Sá (Studio Leo Zamper) e Natália Marangoni (Cubo)
Cabelo: Isadora Oliveira (Cubo) e Stuart Forrester (Cubo)
Fotografia: Joana Carolina (Estúdio Catafesto)
Assistentes de fotografia: Bibiana Morena e Aline Barbosa (Estúdio Catafesto)
Tratamento de imagem: Carlos Cramer (Estúdio Catafesto)
Modelos: Betina Körbes (Ford Models), Jéssica Lima, Jéssica Lopes e Gabriela Ferst (Ford Models).

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