Por que esta edição da SPFW foi tão transgressora e revolucionária

Fotos: Agência Fotosite, Divulgação
Fotos: Agência Fotosite, Divulgação

SPFWTransN42. De cara, o nome escolhido para batizar a 42ª edição da maior semana de moda do Brasil já anunciava que a “transformação, a transgressão e a transição” estavam, de alguma forma, no DNA do evento. O que não se imaginava era que, de fato, finalmente haveria diversidade na passarela – bem longe do ideal, mas um primeiro grande passo para sair do quadrado em que nos encontramos ainda.

#DonnaNaSPFW
:: SPFW, dias 1 e 2: o balneário cool da Animale, o militarismo pop d’A La Garçonne e o show de representatividade da Lab
:: SPFW, dia 3: a desconstrução detalhista de Fernanda Yamamoto e o jogo de proporções da Experimento Nohda
:: Ronaldo Fraga faz primeiro desfile da história da SPFW somente com modelos trans e travestis

:: SPFW, dia 6: a camiseta de banda moderninha da Cotton Project e o genderless de João Pimenta
:: Modelos plus size desfilam na SPFW e comemoram: “As pessoas precisam saber que o gordo existe”

Tudo começou já na segunda-feira, com um show de representatividade em muitas cores e formas: assim pode-se tentar definir um pouquinho do que foi a estreia da Laboratório Fantasma, aplaudida de pé nesta SPFW. Ou a LAB, como chamaram carinhosamente os criadores da label, o rapper Emicida e o irmão Evandro Fióti, sob a batuta criativa do estilista João Pimenta. Mais do que pelas peças com pegada street wear, o desfile ganhou holofotes pelo casting escolhido. A coleção começa democrática já na modelagem, que vai até o 5G. E mais: pela primeira vez na história da fashion week paulistana, uma grife colocou mais de uma modelo plus size na passarela. Mas gorda mesmo: uma das modelos a desfilar, Bia Gremion, de 19 anos, veste manequim 60. A cantora Ellen Oléria, ex-The Voice, e o modelo GG Akeen Kimbo completaram o elenco mais diverso – e rico! – que a Semana já viu.

000000plus

O destaque fica também para o grande número de modelos negros na passarela, como nunca antes visto. Mais do que uma linha com identidade forte, Emicida e sua trupe entraram para a memória da SPFW como a primeira marca que, de fato, se importou em representar e dar cara (real!) a seu público. E o resultado não poderia ser outro: palmas e assovios a cada nova entrada na passarela, como se fosse um suspiro de alívio e comemoração por tantos e tantos anos sem se ver representado. “Hoje é o dia da favela invadir a fashion week”, encerrou o rapper.

LAB_N42_012

Mais sobre as fashion weeks
:: O melhor do Minas Trend, com as tendências para o inverno 2017
:: Tudo o que rolou na última edição da SPFW
:: Rio Moda Rio: a estreia da nova semana de moda carioca

Depois foi a vez de Ronaldo Fraga dar voz a um dos grupos que mais sofrem preconceito em pleno 2016. Mais uma vez, o estilista foi precursor em misturar moda e discurso político e social ao escalar um casting somente com modelos transexuais, travestis e andróginas – feito inédito na semana de moda paulistana. Somando-se à iniciativa da Laboratório Fantasma, pode-se dizer que esta edição será lembrada pela bandeira da representatividade. Com Ronaldo, vai além: ele empresta o protagonismo do desfile a quem sempre foi minoria. Mas, ali no palco do Theatro São Pedro, em São Paulo, 28 mulheres puderam se exercer perante a sociedade.

Ronaldo Fraga SPFW - N42 Outubro / 2016 foto: Marcelo Soubhia / FOTOSITE

Tudo começou com o próprio Ronaldo Fraga lendo uma mensagem em áudio sobre a falta de visibilidade e as dificuldades que as transexuais e travestis encontram todos os dias – o Brasil, por exemplo, é um dos países em que elas mais morrem. Com trilha sonora que incluiu uma versão instrumental de She, de Charles Aznavour, o desfile levou às lágrimas muitos dos convidados – e, ao final, até o próprio estilista, que agradeceu com beijos nas mãos de cada uma das modelos.

– O que menos importa é a roupa. Não precisamos mais de roupa e de desfile, nós precisamos de outras coisas. A moda precisa fazer esse exercício de estabelecer diálogos com outras frentes – afirmou o estilista, em papo com a imprensa ao final do show. – A moda brasileira nega e desconhece essa figura (a trans), A minha coleção fala de amor, fala de resistência, fala de moda como instrumento de libertação, e libertação de uma história muito séria. É a moda libertando o corpo, o corpo como prisão. Você imagina o que é uma alma que não cabe naquele corpo, porque nasce desconhecendo aquele corpo. Ela não reconhece aquele corpo. E o que vai libertar é a primeira saia, o primeiro batom, a primeira sandália. Isso justifica todo esse universo, essa mágica da moda. Isso que justifica a moda existir – explica.

RonaldoFraga_n42_013

A diversidade na passarela se refletiu nos corredores. Como nunca, o backstage e os arredores do espaço armado para o evento no Parque do Ibirapuera estavam repleto de gente de todos os tipos. Convidadas gordas e gordinhas, meninas de cabelo afro, colorido, com dreads, cacheadas, coloridas e diferentes, como as ruas são e como a semana de moda deveria ser também. As blogueiras mais conhecidas (assim como as nem tanto assim) e as colunáveis da fila A estavam lá, mas agora dividem espaço – mais do que nunca – com gente de verdade, que consome moda e quer ver e ser visto, também ali na passarela. Mais do que isso, quer ser representado. Se era essa a ideia do prefixo Trans, não sabemos, mas é fato que a edição N42 emocionou. Teve cor, teve pessoas reais, teve vida. E que sirva de inspiração, tanto para as próximas edições quanto para nosso mercado fashion: representatividade importa, sim. E é mais urgente do que nunca.

Leia mais
Vídeos recomendados
Comente

Hot no Donna