De Porto Alegre, a estilista Helen Rödel tece moda artesanal para romper barreiras geográficas

Raquel Chamis*
Especial

Um olho no microscópio, o outro no telescópio: não é difícil identificar nessa descrição a maneira como Helen Rödel vê a moda. Nascida em Lajeado, a gaúcha lida com fios e agulhas ciente de que elas formam bem mais do que peças de roupa com muitas cores. Tendo Porto Alegre como ponto de partida, ela não perde a minúcia de cada arremate, mas encara as próprias ideias com uma densidade incomum: entre seu ateliê e a lua, parece haver apenas o tempo de um nó.

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Ao lado de Guilherme Thofehrn, parceiro de vida e diretor executivo da marca, Helen fez uma opção por estabelecer base no Paralelo 30:

– Nos perguntamos o tempo todo sobre qual o lugar que queremos transformar. Na verdade, bem mais do que um questionamento, trata-se de uma crença. Queremos produzir de forma local, sabendo que pertencemos ao mundo e que podemos entregar nosso trabalho para além de qualquer fronteira alfandegária – diz a estilista, que estreou nas passarelas da Casa dos Criadores, em São Paulo, no ano de 2012.

(Eduardo Carneiro/ Divulgação)

(Eduardo Carneiro/ Divulgação)

Como se percebe de imediato, o encontro do casal foi fundamental para a criação da label. Quando decidiram trabalhar juntos, há mais de uma década, Helen já tinha passado pelas faculdades de letras e de publicidade, e estava prestes a ingressar nos cursos técnicos de moda do SENAI e do SENAC. Foi ao lado do advogado com vocação para empreendimentos criativos que ela concretizou novos voos.

– Guilherme é quase meu oposto nas experiências profissionais e nos métodos de pensamento, e isso virou nossa força. A falta de experiência não foi um entrave, pelo contrário: havia um empenho diário em aprender coisas novas e realizar as ideias ao nosso alcance. Fizemos tudo, do logo ao site, passando pelas decisões administrativas.

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O tempo se encarregou de trazer colaboradores assíduos para campanhas e editoriais, como o fotógrafo Eduardo Carneiro, que cria a imagem da marca há seis anos. Em movimento de expansão, a dupla ainda ganhou a força e a experiência em varejo de Simone Gavillon, que se tornou sócia e terceiro pilar em 2015. O projeto se fez múltiplo de dois.

O gosto pelas agulhas, porém, é anterior: data da infância no interior do Rio Grande do Sul. As primeiras técnicas foram ensinadas por sua mãe, exímia em trabalhos manuais.

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– Queria aprender tudo que ela podia ensinar. Íamos para os armarinhos e eu ficava maravilhada com as paredes imensas cheias de fios. Ali eu podia ver todas as cores e texturas do mundo – recorda.

Juntas, elas desenvolviam suéteres para a família, misturando tricô, crochê e bordado – um cruzamento de referências que já subvertia a ordem e abria caminho para todo o trabalho que depois Helen levaria para passarelas tão longínquas como a Semana de Moda da Islândia.

– Há alguns anos, o tricô e o crochê andavam desatualizados. Hoje, existe uma gama muito maior de criação, mas por muito tempo o handmade na moda esteve limitado a supostas vocações: crochê para o verão, tricô para o inverno. Sentia ganas de desestruturar esses statements, bem como de ir contra o mito de que o artesanato era uma atividade de vovó – explica, em pleno acordo com o espírito do tempo.

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Design precisa de mãos

A livre fruição do pensamento é, para Helen, um movimento tão natural ao trabalho manual como a técnica em si. Enquanto metade da energia está dispensada no fazer, a outra está em deixar a cabeça rodar. A estilista se comove com o tanto de ideia que habita cada ponto (em especial o pipoca, um de seus preferidos), e se orgulha de ter conseguido conciliar no trabalho do próprio estúdio algo tão genuíno e prazeroso: gosta de produzir e gosta de pensar sobre o impacto de cada roupa feita.

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Os números são bem diferentes de uma produção industrial: peças integralmente manuais são feitas em pequenas quantidades, muitas vezes sob medida, e as híbridas, que misturam maquinário e artesania, estão sendo preparadas para uma primeira linha a ser lançada em 2016 na Europa, na China e nos Estados Unidos (sem perder a identidade e o cuidado com os processos). Essa postura indica um alinhamento ao conceito de slow fashion, que vai na contramão do consumo desenfreado e da lógica de renovar os desejos de moda a cada estação. É um manifesto, mas, acima de tudo, uma prática:

– Nunca acreditei que uma peça desenvolvida a partir de tamanha entrega pudesse ser usada apenas durante uma temporada. Nós acreditamos em roupas para uma vida inteira – comenta a estilista, que faz parte de uma família na qual as roupas são transmitidas entre gerações.

O núcleo de desenvolvimento da marca em Porto Alegre é composto hoje por uma artesã-chefe e um time de 11 mulheres, reunidas após uma intensa busca por profissionais de altíssimo nível técnico que estivessem abertas às concepções de design propostas por Helen.

– As pessoas que estão comigo, além de maravilhosas em seus fazeres, são extremamente aguerridas. Passamos juntas por tempos árduos: fazer, desmanchar e reconstruir o caminho da criação exige muito de mim e de quem está perto.

Mas as trocas são inúmeras, entre agulhas e histórias de vida. E formam um sentimento coletivo que se imprime em cada peça:

– Muitas das artesãs dominavam a técnica, mas não percebiam o quão longe podiam ir. Faço questão de mostrar todos os passos, até o desfile e a foto que é feita para a campanha. Quero que elas conheçam o potencial do que desenvolveram com as próprias mãos.

Algo que ela atribui ao design: é um motor para ir além na feitura das peças.

Tempo de findar 

Agulha, fio e mãos são os elementos que compõem o tricô e o crochê. E, nesses casos, a mão muda tudo, mais do que os próprios materiais: a natureza de cada pessoa e a tensão colocada em cada ponto geram resultados diferentes. Também é da essência do trabalho manual a disposição a movimentos constantes de tecer e de desmanchar, um vaivém por meio do qual se entende o desdobramento do tempo e se constrói uma metáfora da qual a estilista muito gosta:

– No crochê temos chance de voltar e consertar os erros, de refazer o caminho, como não é possível na vida.

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O ato de tecer também fala, com sutileza, sobre a necessidade de saber parar.

– Gostamos de ver as ideias materializadas. É lindo quando conseguimos olhar para trás e reconhecer a evolução de uma ideia. Por isso, é preciso deixar de lado as pretensões de perfeição e saber encerrar períodos de trabalho para começar a pensar em outras peças – defende.

Inspirações para seguir por novas veredas criativas não faltam, por sorte: o fluxo de pesquisa de Helen é intenso, e mistura desde obras de arte a formas encontradas nos objetos da casa.

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– Às vezes, são as ideias que dão direções. Em outras, a inspiração vem da prática, como é o caso do ato de trançar, muito forte em mim.

Diferentemente das coleções voltadas ao mercado, baseadas em pesquisas sobre os desejos do consumidor, a estilista acredita que a inspiração vem do infinito, e que criar é um ato contínuo. Mas se a maturidade lhe impôs um modo de trabalho mais pragmático, que coloca limites – até o artesanal, para que aconteça, precisa de um tempo de findar -, por trás disso está a certeza de que concluir uma coleção abre possibilidades para que a moda feita de afetos se fortaleça.

– Como uma menina do Interior, costumava ver tudo na perspectiva de uma lupa, tudo muito grandioso em relação a mim. Aos poucos aprendi a desmanchar a ideia de que somos pequenos.

Um olho no microscópio, o outro no telescópio – a definição já foi usada para definir a escrita do uruguaio Eduardo Galeano, que transitava sobre os pequenos relatos do cotidiano e os macrotemas do mundo com a mesma força. E serve também para Helen, que se faz ainda mais grandiosa ao olhar a moda simultaneamente pelo microscópio e pelo telescópio.

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