Representatividade! Ronaldo Fraga faz primeiro desfile da história da SPFW somente com modelos trans e travestis

Fotos: Agência Fotosite, Divulgação
Fotos: Agência Fotosite, Divulgação

Ele já contou a saga dos refugiados, rememorou a história de nomes da cultura nacional como Nara Leão e Lupicínio Rodrigues e, agora, deu voz a um dos grupos que mais sofre preconceito em pleno 2016. Para seu desfile na 42ª edição da São Paulo Fashion Week, Ronaldo Fraga foi mais uma vez precursor em misturar moda e discurso político e social ao escalar um casting somente com modelos transexuais e travestis – feito inédito na semana de moda paulistana.

Entrevista!
:: Ronaldo Fraga fala sobre o papel da moda e exposição que inaugura em POA

Se levarmos em conta que, na segunda-feira, a Laboratório Fantasma colocou na passarela um número muito maior que o habitual de modelos negros, além de três plus size, pode-se dizer que esta edição será lembrada pela bandeira da representatividade. Com Ronaldo, vai além: ele empresta o protagonismo do desfile a quem sempre foi minoria. Mas, ali no palco do Theatro São Pedro, em São Paulo, 28 mulheres puderam se exercer perante a sociedade.

Ronaldo Fraga SPFW - N42 Outubro / 2016 foto: Sergio Caddah/ FOTOSITE

Veja também
:: Harm, OMINIMO e PHSD: três promessas da moda made in RS que vale a pena conhecer
:: Lilian Pacce avalia o que há de novo na moda e faz suas apostas para a temporada

Tudo começou com o próprio Ronaldo Fraga lendo uma mensagem em áudio sobre a falta de visibilidade e as dificuldades que as transexuais e travestis encontram todos os dias – o Brasil, por exemplo, é um dos países em que elas mais morrem. O estilista mineiro aproveitou para explicar também o nome com que batizou a coleção, El Dia Que Me Quieras: Uma Música, Um Vestido, Muitas Estórias. Trata-se de uma referência a Ney Galvão, que comandou um espaço de resistência em Itabuna, no interior da Bahia dos anos 1970. “O” vestido também têm explicação: Ronaldo criou uma coleção inteira com um único modelo da peça, que ganhou diversas interpretações e estampas, desfiladas por cada uma das modelos assim que se abriram as cortinas. Quem inaugurou a passarela foi Patrick Rigon, artista do Rio Grande do Sul.

– Ele queria fazer algo revolucionário para mostrar que somos seres humanos como qualquer outra pessoa – diz Mirella Cândido Simplício, uma das modelos. – Não precisamos ser somente cabeleireiras ou dançarinas. Podemos ser quem nós quisermos – completou, em entrevista à Donna no backstage.

Mais sobre as fashion weeks
:: O melhor do Minas Trend, com as tendências para o inverno 2017
:: Tudo o que rolou na última edição da SPFW
:: Rio Moda Rio: a estreia da nova semana de moda carioca

Veja como foi o desfile:

Com trilha sonora que incluiu uma versão instrumental de She, de Charles Aznavour, o desfile levou às lágrimas muitos dos convidados – e, ao final, até o próprio estilista, que agradeceu com beijos nas mãos de cada uma das modelos. Para encerrar, fecharam-se as cortinas e, quando as luzes se acenderam novamente, elas surgiram apenas de lingerie, dançando entre si em um grande baile no qual eram as estrelas da noite. Delicadas, as peças são assinadas pela label gaúcha Oh! Studio. Ao fundo, o cenário assinado pelo artista gaúcho Renan Santos.

#DonnaNaSPFW
:: SPFW, dias 1 e 2: o balneário cool da Animale, o militarismo pop d’A La Garçonne e o show de representatividade da Lab
:: SPFW, dia 3: a desconstrução detalhista de Fernanda Yamamoto e o jogo de proporções da Experimento Nohda
:: Modelos plus size desfilam na SPFW e comemoram: “As pessoas precisam saber que o gordo existe”

 

– O que menos importa é a roupa. Não precisamos mais de roupa e de desfile, nós precisamos de outras coisas. A moda precisa fazer esse exercício de estabelecer diálogos com outras frentes – afirmou o estilista, em papo com a imprensa ao final do show. – A moda brasileira nega e desconhece essa figura (a trans), A minha coleção fala de amor, fala de resistência, fala de moda como instrumento de libertação, e libertação de uma história muito séria. É a moda libertando o corpo, o corpo como prisão. Você imagina o que é uma alma que não cabe naquele corpo, porque nasce desconhecendo aquele corpo. Ela não reconhece aquele corpo. E o que vai libertar é a primeira saia, o primeiro batom, a primeira sandália. Isso justifica todo esse universo, essa mágica da moda. Isso que justifica a moda existir – explica.

Mais uma vez, Ronaldo Fraga transcendeu a passarela com um desfile repleto de poesia e sensibilidade, como só ele sabe fazer. Prova, novamente, que a moda pode – e deve – ir muito além da roupa.

Leia mais
Vídeos recomendados
Comente

Hot no Donna