Requinte atemporal e sofisticação: stylists comentam o legado de Givenchy para a moda

Audrey em
Audrey em "Funny Face" (1957)

Amigo íntimo de Audrey Hepburn e discípulo de Balenciaga, o estilista francês Givenchy morreu aos 91 anos nesta segunda-feira e deixa um legado imponente para a moda. Donna convidou três consultoras de moda de Porto Alegre para compartilharem suas impressões sobre os clássicos do famoso couturerière.

Por Madi Muller, stylist:
“Falar sobre ele é mais do que falar sobre um estilista, é falar sobre uma lenda. Givenchy foi super precoce, descobriu o talento para a alta costura já aos 10 anos de idade, contrariando os pais que queriam que ele fosse advogado. Com 24 anos, após ser assistente dos grandes nomes da moda, como Pierre Balmain e Elsa Schiaparelli, abriu sua primeira maison. Uma coisa interessante é que ele surpreendeu bastante as pessoas usando tecidos de camisaria, coisas que não se usavam tanto na época, e também fazia muito uso de peças independentes, as coordenáveis, como ele chamava. Nessa época, anos 1950, era tudo na base do conjuntinho ainda – e ele já descombinou, desconstruiu as peças, separando as saias de calças, desmontou os conjuntinhos. Foi um dos primeiros a fazer isso. Claro que ficou muito famoso com a parceria que teve com a amiga e musa inspiradora, Audrey Hepburn: em todos os filmes que ela fez, exigia que ele assinasse os figurinos, de tanta confiança que tinha nele.
Seu legado está principalmente em ter seu nome sempre associado ao requinte, ao corte perfeito, ao luxo, à sofisticação. Isso fica para as gerações futuras: lembrar o quanto é importante uma roupa bem feita, bem pensada, com uma inspiração atemporal, acho que foi isso que o caracterizou, o vestido mais icônico foi o de Audrey descendo as escadas do Louvre em um vestido vermelho (foto acima). Essa cena é do filme Funny Face (Cinderela em Paris). Para mim, Givenchy está eternizado ali. Se a moda é um sonho, para mim ele fez esse sonho virar realidade com este vestido. É a síntese absoluta de uma moda atemporal.”

Audrey em Breakfast at Tiffany's

Audrey em Breakfast at Tiffany’s

Patricia Pontalti, consultora de moda e colunista de Donna:
Grande mestre que trabalhou a costura como poucos e que inovou trazendo conceitos até então raros para a moda na qual ele estava inserido, principalmente nos anos 1950 e 1960. Givenchy sofisticou com simplicidade a alta costura. Era um estilista de modelagens mais simples, mas precisas. A preciosidade dele estava no corte e uso impecável de tecidos. Foi pupilo de Balenciaga, era como um mestre para ele. Tinham uma relação muito interessante de inspiração. Ele fez com que a roupa tivesse sofisticação em sua essência. Não tinha nada muito exagerado, as formas eram mais contidas. Em uma das primeiras coleções dele, ele trabalha com algodão, que era um tipo de tecido considerado pouco nobre para o padrão de costura da época. Então ele foi um cara ousado, em trazer formas mais simples, tecidos mais simples e quando não, tecidos sofisticados em formas simples, esse contraste entre um e outro.
Givenchy também falou que nunca era uma mulher que deveria se acomodar às formas de um vestido, e sim o vestido que deveria se acomodar às formas de uma mulher. Essa valorização da silhueta sempre foi feita com muito requinte e sofisticação. O francês era o antagonismo de qualquer resquício de vulgaridade. Vestiu rainhas, princesas, atrizes francesas, mas sem dúvida nenhuma sua musa-mór, Audrey Hepburn, é a essência da moda de Givenchy. Eles tiveram uma longa relação de amizade. O modelo mais icônico que representa exatamente essa simplicidade e sofisticada que se tornou a essência desse mestre é o vestido preto (foto acima) que ela usou no filme Breakfast at Tiffany’s (Bonequinha de Luxo). Veste muito bem, contorna a silhueta, é fino e atemporal: tem tudo a ver a obra deles dois. Ele como criador, ela como o melhor exemplo dessa criação. Outra coisa interessante na obra dele é que, depois de Chanel, Givenchy talvez tenha sido o estilista que mais trabalhou com a cor preta, era bem essencial em suas criações. O que confirma essa convicção de uma roupa sofisticadamente mais simples.”

Grace Kelly's em vestido assinado por Givenchy na Casa Branca, em 1961

Grace Kelly’s em vestido assinado por Givenchy na Casa Branca, em 1961

Marcela Serro Frasson, colunista de Donna e consultora nas áreas de moda e marketing de luxo:
“Givenchy foi um dos estilistas mais icônicos do século 20, de grande importância não somente na moda, mas especialmente no segmento de luxo, já que a essência do seu trabalho e da sua obra foi a alta costura. O talento de Givenchy era tão evidente que as suas criações vestiram mulheres como Jacqueline Kennedy, Grace Kelly (foto acima) e Audrey Hepburn. O que mais admiro no estilista é o seu estilo imponente mas ao mesmo tempo sóbrio, o luxo sem cair no exagero. Givenchy fazia roupas elegantes para mulheres elegantes, acima de tudo. Não podemos esquecer ainda de que o legado do estilista vai além do vestuário, se estendendo aos segmentos da beleza e da perfumaria, incluindo o famoso Amarige de Givenchy, uma das fragrâncias mais icônicas dos anos 90 e um clássico até os dias atuais. ”

Roberta Weber, colunista de Donna, stylist e consultora de estilo:

“Ele é um dos últimos couturerière da alta costura daquela época. É importante falar que ele era um aristocrata, um gentleman, um cara bem old fashion nesse sentido, sendo um cavalheiro. Ele teve uma criação preocupada com as boas maneiras e etiqueta, acho que as criações dele refletiam isso, tudo de muito bom gosto, tudo muito clássico e icônico, e ao mesmo tempo ele era inovador. Ele foi o primeiro estilista a fazer uma coleção pet a porter que era de luxo. As colaborações dele com a Audrey Hepburn nos filmes, o pretinho básico a gente pode agradecer à ele por ter virado o que virou. Ele era um homem que não comprometia sua visão, ele estava vivo ainda e faz muitos anos que ele saiu da geração da marca. Era um cara que se preocupava em ser inovador mas sempre mantendo a visão dele, sendo fiel ao que acreditava e quem ele era, que era elegância acima de tudo. Acho que nesse caso dá para dizer que ele era um gigante não só de altura – ele tinha 1,98 – mas era gigante em todos os sentidos, de alguém que tinha uma grandiosidade, uma disponibilidade, uma vontade de perpetuar a visão dele e não se preocupava tanto com modismos. Era inovador, mas eram coisas que vinham da cabeça dele e não de seguir ninguém.”

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