Ronaldo Fraga: apaixonado por desenho, estilista reúne suas coleções em livro

Ronaldo lançou em Porto Alegre, na terça-feira, seu "Caderno de roupas, memórias e croquis"

Página do livro do estilista
Página do livro do estilista Foto: Divulgação

? Desde criança, o melhor presente que eu podia ganhar eram lápis de cor. Meu sonho era ter um daqueles estojos com 36 lápis.

Foi assim, através da paixão pelo desenho, que Ronaldo Fraga, um dos estilistas brasileiros mais respeitados da atualidade, desenvolveu seu talento para a moda. Reunindo rascunhos de traços autorais, sua marca registrada, o mineiro organizou um livro. Cadernos de Roupas, Memórias e Croquis (Editora Cobogó, 272 páginas, 2013) foi lançado em Porto Alegre na última terça-feira, durante a FestiPoa Literária.

Até colocar suas criações na passarela, o estilista registra ritualmente tudo. Do tema ao tecido, da cartela de cores às estampas, tudo passa pelos cadernos artesanais. E toda esta memória gráfica despertou o interesse de pessoas ligadas à moda: havia a necessidade de conhecer o processo de criação de um designer brasileiro.

Ao rever os cadernos, Ronaldo se deu conta de que eles valiam um livro, de fato. Assim, Zuzu Angel, Nara Leão, Lupicínio Rodrigues, Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa, Pina Bausch, Athos Bulcão e Rio São Francisco são alguns dos personagens interpretados pelo estilista nas 36 coleções reunidas na publicação. A jornalista Regina Guerreiro, a consultora de moda Costanza Pascolato e a pesquisadora Cristiane Mesquita assinam textos sobre o estilista e sua obra.

? A ideia de juntar meus desenhos e inspirações neste livro nada mais é do que uma nova forma de registrar a moda. Esta busca por novos formatos sempre fez e fará parte da minha trajetória profissional ? explica.

Donna conversou com Ronaldo Fraga sobre
suas origens e seu processo criativo autoral

Donna – Como você desenvolveu o gosto pelo desenho?

Ronaldo Fraga – Vem desde criança. O melhor presente que podia ganhar eram lápis de cor. Meu sonho de infância era um estojo de lápis de cor daqueles de 36 cores, mas eu não tinha grana. Meus pais morreram cedo e meus irmãos não tinham condições. Hoje em dia, sempre que estou na frente de uma caixa de lápis de cor, eu compro.

Donna – E como esse interesse foi canalizado para a moda?

Ronaldo – Na adolescência eu fazia qualquer curso de desenho, desde que fosse gratuito. Numa destas, acabei fazendo um curso técnico de desenho de moda. Como tirei a nota maior, me chamaram na semana seguinte e me ofereceram um emprego em uma loja de tecidos.

Donna – Já se frustrou ao comparar um desenho no papel com a criação finalizada, já enquanto roupa?

Ronaldo – Isso acontece sempre. Hoje menos, é verdade. Com a minha experiência em loja de tecidos, eu aprendi a ouvir a voz deles. Hoje, eu consigo falar da composição de um tecido pelo simples cheiro dele. Então, quando eu vou fazer um desenho para um material específico, eu os ouço e eles pedem para ser determinada coisa. Claro que às vezes você fala: ‘Ah é, você quer ser isso? Então vou tentar fazer outra coisa!’ E isso é bem-vindo, estes experimentos, esse exercício. A coisa do desenhar é igual ao projeto de um arquiteto. Ela faz um projeto no papel pensando no material, pensando em um formato específico, e quando aquilo vai tomando forma, às vezes há mudanças de percurso. E este tipo de ajuste também acontece nas criações de peças de moda.

Donna – Você é um estilista que trabalha muito com a questão autoral. O que acha fundamental para impor este estilo?

Ronaldo – Acredito que tem a ver com autobiografia. Você não pode perder de vista o desejo de se conhecer, de passar nas entrelinhas o que você é, sua visão de mundo. E visão de mundo tem a ver com memória. Costumo falar para estilistas em formação que o mais importante é ter um olhar difuso da moda. É importante prestar atenção em outras coisas: literatura, história, música, economia… Não ficar focado e preso na revista de moda.

Donna – E esse processo é uma crescente?

Ronaldo – Não, infelizmente. As pessoas estão bitoladas e repetitivas. Mas acredito que a saída é a autoralidade mesmo, principalmente neste momento de euforia pós-globalização, que é quando o genuíno passa a ter mais valor. O olhar individual é o que ainda pode fazer frente ao modelo chinês.

Donna – Quando começou a pensar no livro?

Ronaldo – Eu nunca tive a pretensão de lançar um livro. Nunca valorizei meus rascunhos, na verdade. Mas no meio acadêmico, quanto mais as pessoas viam os meus cadernos, mais diziam: “Neste momento da moda brasileira é importante que tenhamos publicações com processos de criações de estilistas brasileiros, até mesmo para poder mostra que os caminhos são vários de abordagens sobre moda”. Pensei: “No mínimo, isso vai me ajudar a organizar o tanto de caixa e cadernos que tenho”. E eu não tinha noção de que tinha tantos. Tanto que o livro, que em um primeiro momento seria um registro de todas os projetos, teve que focar só nas coleções. Figurinos ficaram de fora, o infantil ficou de fora, e os desenhos de produto ficaram de fora. Nunca tive a noção de que isso, além de provocar o desejo de alguém, poderia ser um registro da minha própria história.

Polêmica na São Paulo Fashion Week

Ronaldo Fraga provocou o maior tititi da última edição da SPFW, realizada em março. Suas modelos subiram na passarela com esponjas de aço nos cabelos, em uma coleção inspirada no futebol dos anos 1930, 1940 e 1950. O stylist, executado pelo cabeleireiro Marcos Costa, não foi entendido por parte da crítica e do público, que usou as redes sociais para acusar o estilista de racismo. Houve, inclusive, um desfile de protesto de modelos negros, no dia 25 de março, na Avenida Paulista.

? Seria engraçado se não fosse trágico ? lembra o estilista. ? A questão toda evidenciou um patrulhamento cego que estamos vivendo no país, que manda pessoas para o pau de arara ou corredor polonês das mídias sociais antes de ler ou se informar.

O foco não era os negros: ? Primeiro porque eu não faço homenagens, eu faço pesquisa. Então, não foi uma homenagem aos negros ? defende. ? Eu estava falando do futebol dos anos 1930, 40 e 50, quando o esporte saía da várzea para a profissionalização. Considero que esta foi a primeira vitória da mestiçagem brasileira, que se apropriou de algo que nem foi criado por nós, mas pelos chineses, pegou regras das mãos dos ingleses, e no entanto, com a ginga brasileira, ganhou uma marca de Brasil.

Ronaldo lembra que, no início, o futebol era um esporte de elite, em que os negros tinham que se pintar de branco e esconder os cabelos debaixo de chapéus para poder entrar em campo ou assistir a uma partida.

? O negro que queria jogar trouxe para o campo a ginga da capoeira, e aí nasce o futebol arte. Eu acho isso lindo! Então, quando eu pensei na história da beleza, resolvemos fazer os cabelos ondulados, que meu pai, mulato, tinha, no seu tempo de jogador.

O desenrolar da história, no entanto, o assustou: ? No começo eu disse; “Ótimo, está sendo proposta uma discussão”. Mas o negócio durou mais de uma semana e tomou uma proporção muito grande e eu me assustei. Pensei, levando em conta meus dois filhos: “para onde que essa onda moralista está levando o Brasil?” É um lugar onde não há espaço para a licença poética, onde a verdade é única e absoluta, sem espaço para crítica e análise e absorvendo formulas que já não deram certo em outras culturas ? afirma.

Para ele, o que poderia ter sido uma discussão válida, de raça, se transformou em um retrocesso, pois foi algo cego.

? Eu nunca procurei ser unanimidade, muito pelo contrário. Mas pensei: “Gente, seria, muito mais fácil para este estilista colocar todas as negras de cabelo alisado, de nariz fino e lindas, como geralmente estão na passarela, que ele ia vender mais roupas. Por que ele resolve fazer isso? Será que é só para debochar de uma raça – da qual ele, inclusive faz parte?” Foi um raciocínio muito raso, muito superficial. Para mim, isso sinaliza tempos difíceis.

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