Ronaldo Fraga lança exposição no projeto Moinhos Preview, em Porto Alegre, nesta quarta-feira

Mostra mo Moinhos Shopping contará com peças da coleção "Quantas Noites Não Durmo", uma homenagem ao gaúcho Lupicínio Rodrigues

Por Patrícia Pontalti, curadora da mostra

Se há um criador que sabe traduzir com mão contemporânea as mais diferentes manifestações, personagens e particularidades deste Brasilzão afora, sem dúvida é o mineiro Ronaldo Fraga. Nesta quarta-feira, dia 23, o estilista chega a Porto Alegre para participar do projeto Moinhos Preview, do Moinhos Shopping, com um dos desfiles mais emblemáticos de sua carreira, uma homenagem ao gaúcho Lupicínio Rodrigues. Algumas peças da coleção Quantas Noites Não Durmo criada no inverno de 2004 e comemorando uma década sem perder a atualidade também ganham exposição inédita e aberta ao público até 7 de agosto no primeiro andar do shopping, em celebração aos 100 anos do músico.

No desfile para convidados, 25 looks reverenciam os personagens boêmios e solitários, que trazem um ar de deboche com o sofrimento amoroso e a dor de cotovelo, característicos da obra de Lupi. Nos tons, preto, roxo, dourado e grafite, com bordados de flores inspirados em cortinas e toalhas de mesa. Com modelagens dos anos 30 e 40, brocados, bordados e rendados trazem o aroma de uma doce cafonice, assim como a obra de Lupi. Camisas marcadas de batom, vestidos desabotoados e a maquiagem borrada pelas lágrimas da noite anterior reforçam o clima boêmio da coleção, que será traduzida como arte na exposição.

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A mostra reúne 12 looks do desfile, em uma ambientação com clima de bar e poesia, criada pelo Pop Studio, com tecidos assinados pelo próprio Fraga com exclusividade para a Casa Rima. As peças vão fluir no espaço como em um delicado varal, com os vestidos expostos em cabides assinados pelo designer mineiro, que conversou com Donna sobre esse trabalho poético.

Entrevista

Donna – Por que Lupicinio atraiu teu olhar?
Ronaldo Fraga – Mais que um inventor da música para dor de cotovelo, ele foi um grande cronista musical de personagens solitários e amantes inveterados. Foi, sem dúvida, o Noel Rosa do sofrimento amoroso, mas com composições temperadas com muito humor e poesia. E, como acredito que moda é crônica e poesia, Lupicínio é uma referência e tanto.

Donna – Como isso se traduziu nas roupas?! Há estampas “dor de cotovelo”, cores de um “fora”
Fraga – Pensei em personagens chegando em casa pela manhã, com o sol nascendo, pão embaixo do braço, mas vestido de noite. Usei referenciais dos anos 30 e 40, com uma pitada de uma doce cafonice, marca da obra de Lupi.

Donna – Como é rever uma coleção depois de uma década?
Fraga – Essa coleção foi uma das mais desafiadoras da minha carreira, pois me impus trabalhar com signos e formas que não eram do meu universo, como a perigosa combinação de preto e dourado em roupas ajustadas e extremamente sensuais. E assim como a obra de Lupicínio, que transita na linha tênue entre o cafona e o sofisticado, essa coleção trazia brocados brilhantes misturados a bordados de florões de Clara, referência popular de gosto duvidoso (risos). Mas aqui o objeto pesquisado era afetuosa e escancaradamente brasileiro e atemporal. Sigo gostando de muita coisa que não datou no tempo. Abrir um baú de 10 anos e apresentar esse desfile na cidade de Lupi em comemoração aos 100 anos da minha inspiração foi emocionante.

Donna – Precisamos falar sobre a trilha, fundamental, principalmente neste desfile.
Fraga – Pouco antes de morrer, Lupicínio foi perguntado quem, em meio a tantos grandes intérpretes de sua obra, teria o representado melhor, ao que respondeu: Jamelão. Ele tinha uma amizade muito próxima ao carioca e não raro saía do Rio Grande do Sul de navio para encontrá-lo nos Arcos da Lapa, no Rio de Janeiro. Para mim, Jamelão era como um alter ego do compositor. Interpretou Lupicínio com seu jeito malandro e bem-humorado, projetando para longe qualquer resquício cafona. Na sua voz, as composições de Lupi são extremamente sofisticadas.

Donna – Qual tua canção favorita de Lupi?
Fraga – São tantas…, mas Cadeira Vazia é um clássico.

Donna – Teus desfiles sempre flertam com diversas manifestações artísticas, e algumas vezes esse olhar rendeu livros e exposições elogiadíssimos. Quando e como a moda vira arte?
Fraga – A moda é prima próxima da arte. Mas o que interessa neste momento é que ela seja entendida, principalmente, como um novo vetor cutural do mundo contemporâneo, que é o que ela realmente é. A forma “exposição” é mais um suporte possível de expor processos e resultados. A de Porto Alegre estou chamando de mostra por ser mais pequerrucha, com 15 looks.

Donna – O amadurecimento sempre traz algumas vantagens, como certo aumento no nível de exigência, de seletividade. O que o criador Ronaldo Fraga não quer mais?
Fraga – Nunca fui muito chegado a perder tempo com a face futriquenta da moda, e hoje muito menos.

Donna – Tem livro novo vindo por aí?
Fraga – Sim. Um sobre a história da chita, a padronagem, para crianças, com texto meu e ilustrado pela artista plástica alemã Ana Goebbel. E também estou preparando o relançamento de Caderno de Roupas, Memórias e Croquis, com as cinco coleções que ficaram de fora na primeira edição.

Donna – E o que mais podemos esperar de ti para o segundo semestre deste ano?
Fraga – Mais novidades. A exposição Portinari Recosturado, em Belo Horizonte (MG), a sobre o Rio São Francisco, que chega a Brasília (DF), e uma nova linha de móveis. Por enquanto, é isso.
* Foto: Agência Fotosite, Divulgação

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