Savage Beauty: um passeio pela exposição do estilista Alexander McQueen, em Londres

Por Camila Saccomori, Londres*

“Londres é onde meu coração está e é de onde tiro minha inspiração”. O amor de Alexander McQueen pela cidade onde nasceu e cresceu foi retribuído à altura com a primeira grande retrospectiva de seu trabalho apresentada na Europa. Em cartaz até o próximo fim de semana, dia 2, no Victoria and Albert Museum – um dos locais preferidos do homenageado quando estava na capital britânica -, a exposição Savage Beauty celebra a carreira do mais famoso estilista britânico da história. Em uma mostra tão espetacular quanto sensível, McQueen tem seu legado de 18 anos de atuação no mundo da moda contextualizado em 244 peças de vestuário e acessórios.

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A intensa procura por ingressos assim que a exibição foi anunciada já indicava a curiosidade dos ingleses a respeito da vida do icônico conterrâneo, morto em 2010, aos 40 anos. Tal foi a demanda que o V&A disponibilizou 50 mil entradas extras após as 30 mil iniciais terem sido vendidas imediatamente em 2014, a 16 libras (aproximadamente 85 reais) cada. E isso que Savage Beauty não é 100% inédita: em 2011, o Metropolitan Museum of Art, em Nova York, apresentou a exposição de mesmo nome, com curadoria de Andrew Bolton. A versão americana é considerada, porém, um “prelúdio” à apresentação londrina, segundo a curadora Claire Wilcoy, que trabalhou com McQueen em inúmeros projetos do V&A e ampliou a mostra reformatada.

E que formatação. Em vez de recorrer à óbvia organização cronológica, a lógica da mostra concentra as criações do homenageado dispostas em alas temáticas, como Nacionalismo Romântico, Primitivismo Romântico e Gótico Romântico. Cada uma traz ambientação mais envolvente do que a outra, com recursos de iluminação e sonoros que tornam o passeio uma experiência multissensorial.

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Na impressionante sala Gabinete de Curiosidades (foto acima), com pé-direito duplo e as quatro paredes cobertas de nichos ocupados por dezenas de criações de McQueen, é tão difícil escolher para onde olhar primeiro que os bancos para contemplação passam o tempo todo ocupados. Lá se vê toda sorte de acessórios fetichistas (chapéus, sapatos, vestidos), incluindo itens feitos em colaboração com designers como o chapeleiro Philip Treacy e o designer de joias Shaun Leane. Telas de LCD exibem cenas do desfile primavera/verão de 1999, quando a modelo Shalom Harlow parou em uma plataforma giratória sobre a passarela e dois robôs lançaram jatos de tinta no vestido branco ostentado por ela (abaixo).

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Exibido no centro do Gabinete de Curiosidades, o vestido com camadas de tule recebeu jatos de tinta verde e preta durante o desfile em 1999

Outra galeria que mexe com as emoções é Plato’s Atlantis, nome da última coleção feita por McQueen antes de sua morte. Não à toa, o simbolismo por ter sido a derradeira criação do estilista levou algumas pessoas às lágrimas no museu, como testemunhei em visita no último dia 26 de junho. O vestuário foi inspirado na obra A Origem das Espécies (1859), do naturalista britânico Charles Darwin, e traz referências do mundo animal para a moda em uma mistura de alta tecnologia de design de superfície e técnicas artesanais, como se vê nos vestidos com estampas de bichos e nos exóticos sapatos-tatu – formato popularizado por Lady Gaga.

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Tal apego à natureza tem uma ligação direta com a cidade de Londres: quem conta é o historiador britânico Mel Adams, que trabalhou como assistente pessoal de McQueen entre 1992 e 1996, e que acompanhou nossa viagem de imprensa elegantemente pela mostra.

Mel Adams, guia que trabalhou com McQueen. Foto: Bianca Teixeira

Mel Adams, guia que trabalhou com McQueen. Foto: Bianca Teixeira

– Lee (primeiro nome de Alexander) amava ir aos zoológicos daqui para observar cores e formas dos animais, especialmente as texturas das peles. O National History Museum também era perfeito para estas investigações – revela Adams, que era chamado de “escravo” pelo estilista, “mas com carinho, sempre de forma amável”, pondera.

Feito em conchas de moluscos envernizadas, o vestido Voss, da primavera/verão 2001, representa a linha naturalista de McQueen

Feito em conchas de moluscos envernizadas, o vestido Voss, da primavera/verão 2001, representa a linha naturalista de McQueen

 

Sobre o ex-chefe, que se referia a si próprio como um “esquizofrênico romântico”, Adams confirma que, sim, em diversas fases era difícil lidar com o comportamento instável: em momentos de intensa criação, McQueen se isolava, ficava completamente obcecado, trancado em seus aposentos, sem falar absolutamente nada. Tudo isso representa, para Mel, o ônus e o bônus de um dom:

– Lee era um artista genial, mas, como tal, sofria de problemas psíquicos – opina o antigo assistente.

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Se o humor do enfant terrible era instável, o mesmo não se pode dizer de sua arte, que desde a conclusão do curso de fashion design na Central Saint Martins College of Art and Design, em 1992, seguiu a coerente estética da provocação. Na exposição londrina, fica claro o quanto McQueen seguia seu próprio lema de “procurar a beleza no grotesco”. No desfile da gradução, mostrou uma coleção em que pedaços do seu próprio cabelo foram costurados às roupas, em referência às vítimas de Jack, o Estripador, que cometeu assassinatos na região de Whitechapel, leste da capital britânica, em 1888.

Outra linha controversa é It’s a Jungle Out There (“é uma selva lá fora”), de 1997, que traz partes de animais empalhados com o intuito de “provocar sentimentos de estupefação”, em suas próprias palavras. É o caso do body com ombreiras feitas da cabeça de jacaré conservadas por taxidermia (veja abaixo) e outro casaco com pele de pônei e chifres de impala nos ombros.

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Muito além do exotismo dos cabelos e dos animais, não faltam peças com referências clássicas de alfaiataria: para o estilista, só fazia sentido “desconstruir as roupas” depois de ter passado muito tempo construindo-as de fato. Da época em que trabalhou com o costureiro militar Gieves & Hawkes vem a inspiração para o elegante casaco Dante, de 1996/1997, em feltro de lã bordado com fios de ouro. Na ala Naturalismo Romântico, a marca parceira da exposição, a Swarosvki, é exposta nas criações de 1999, com cristais da grife adornando vestidos superfemininos, com tules e penas. Aqui, os visitantes são embalados por sons de passarinhos, criando atmosfera idílica.

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A foto-símbolo da exposição é um look de penas de pato, da coleção The Horn of Plenty

A relação sentimental de McQueen com a Escócia, por seu pai ter nascido lá (e onde as cinzas do estilista foram espalhadas, aliás), se traduz nos tecidos típicos em xadrez, muitos deles servindo de base para criações mais formais, muitas exibidas na galeria Nacionalismo Romântico.

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Por último, mas não menos importante, Savage Beauty reproduz em uma sala escura um truque de ilusão de ótica apresentado no desfile The Widows of Culloden (“as viúvas de Culloden”), no outono/inverno de 2006. Usando um vestido branco de organza, Kate Moss desfilou naquele ano em Paris “no ar”, como se flutuasse, graças a uma técnica chamada Pepper’s Ghost. No V&A, uma pirâmide de vidro exibe um holograma da top model, finalizando de forma teatral a viagem por 18 anos de pura história da moda.

Sala no museu recria o desfile com Kate Moss, no qual a modelo parecia voar graças a um efeito chamado Peppers Ghost

Sala no museu recria o desfile com Kate Moss, no qual a modelo parecia voar graças a um efeito chamado Peppers Ghost

*A jornalista viajou a convite do Rosewood London

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