Seda, estampas étnicas, upcycling: o que se viu na passarela do ID Fashion

Foto Antonio More/Divulgação
Foto Antonio More/Divulgação

Foram dois dias de imersão na assinatura de moda made in Paraná, conferindo as criações de 19 grifes e designers que ganharam os holofotes na 4ª edição do ID Fashion. O evento realizado em Curitiba pela Federação das Indústrias do Estado do Paraná e pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) tem o objetivo de levar a moda paranaense ser reconhecida além das fronteiras do estado do Sul do país.

“O que queremos é trazer visibilidade para o produto, fazer com o que o público reconheça e consuma a nossa moda”, afirma a coordenadora do ID Fashion, Luciana Bechara, lembrando que a presença de jornalistas de todo o país reforça essa intenção de divulgar os selos locais.

A Fiep foi transformada em um ambiente fashion/Foto Divulgação

A Fiep foi transformada em um ambiente fashion/Foto Divulgação

Com a passarela dividida entre talentos emergentes, participantes de programas do Sebrae relacionados à capacitação de vestuário e grifes inscritas em 11 sindicatos regionais e selecionadas por uma banca de especialistas, foi possível se impressionar com boas coleções e histórias.

Claro que, como é convenção em um tipo de evento com o perfil de reunir diferentes estruturas, contextos e marcas, há criadores mais apurados, preparados a conquistar, e outros um tanto ainda imaturos para assumir tal posição de destaque.

Mas isso jamais enfraquece o projeto, pelo contrário. Afinal, essa experiência sempre vai ser traduzida em amadurecimento, algo fundamental para instituições que promovem o aprendizado, e o importante é que a maioria revelou nesgas de trabalhos instigantes, nem que seja para um futuro próximo.

Foto Divulgação

Living & Lab, espaço de venda direto para o consumidor/Foto Divulgação

Outro destaque do ID, também relacionado ao conhecimento de marca, é o Living Lab & Store, proposta bastante singular para eventos desse formato, já que empresários e produtos se unem em estandes de venda direta ao consumidor. Sim! As coleções que desfilam podem ser compradas pelo público final, em um see now by now extremo que elimina a etapa do lojista.

“Queremos muito ter uma percepção da indústria ao ver seu produto conversando diretamente com o consumidor”, observa Luciana, comentando que o público, estimado em duas mil pessoas nesta edição, é convidado a avaliar cada marca expositora, que tem este feedback logo após o evento.

Voltando às passarelas, elegemos alguns criadores que reverteram a atenção, assim como propostas e experiências inspiradoras em qualquer terreno. Vamos a eles e deixamos um parabéns aos promotores por iluminar a moda local, que sempre precisa de apoio pra crescer e repercutir – bem que por aqui poderia rolar o mesmo, né?

As coleções

Vale da Seda

A Vale da Seda é um coletivo de marcas, criado em 2009, por meio de um projeto da Incubadora Tecnológica de Maringá, que busca o aprimoramento da cadeia da seda no país – você sabia que o Paraná é o único produtor de seda das Américas e um dos maiores fornecedores da francesa Hermés, famosa pelos lenços desse tecido?

Nesta edição, comandada pelo designer Enéas Neto, a cooperativa brilhou com uma coleção de sofisticação ímpar, de formas delicadamente amplas e fluidas, inspirada pelos sonhos. O reflexo foram imagens belíssimas de moda.

Fotos Antonio More/Divulgação

Fotos Antonio More/Divulgação

A seda recebeu tingimentos naturais, com ativos como erva-mate e pinhão, que geraram uma cartela de tons sutis de floresta e terra. A estamparia foi criada com folhas de amoreira e framboesa, impressas sobre os tecidos.

A dedicação ambiental repercutiu também na modelagem, já que todas as peças foram cortadas para gerar resíduo zero de matéria-prima. Entre as peças-fetiche, os macacões, os vestidos com efeito avental e as camisas alongadas de uma leveza singular. “A ideia é apresentar muitas possibilidades da seda com um olhar contemporâneo”, comenta Enéas, que participou de todas as edições do ID Fashion.

Soraya da Piedade

Premiada estilista natural de Angola, Soraya morou 10 anos em Curitiba, onde tem uma loja de sua label. Hoje vive na ponte-área Brasil-África e desfila nos dois países – inclusive, daqui a poucos dias, apresenta a coleção no Angola Fashion Week.

Soraya interpreta referências étnicas de forma contemporânea, mesclando duas referências constantes de sua assinatura, o estilo glamouroso dos anos 1950 e a precisão da alfaiataria. “Gosto de unir a feminilidade com este lado mais masculino”, diz a designer. O resultado? Imaginem a lindeza.

Fotos Antonio More/Divulgação

Fotos Antonio More/Divulgação

Nesta temporada, convidou a premiada artista plástica angolana Fineza Teta para criar as estampas da coleção. Uma emblemática máscara africana se destaca nas peças, ora recortada e bordada como aplicação, ora impressa no pano contínuo, em vestidos longos e ternos exímios de extremo requinte – versões para os dois modelos, vestidos e ternos, dominam a coleção.

Soraya também trabalha com uma padronagem mega ampliada do pied-d-coq, em tom suave e em harmonia com sua paleta naturalista e chique. Chique! Assim são as apostas da designer.

Leveza do Ser

Sabe aquela roupa delícia irresistível, que liberta movimentos e nos acolhe com seu design preciso? Assim é a Leveza do Ser, grife assinada pela estilista Angélica Sanches e que celebra cinco anos com esta coleção de inverno – sim, a designer preferiu pular o verão e apresentar no ID Fashion a temporada do frio, sua especialidade.

Fotos Antonio More/Divulgação

Fotos Antonio More/Divulgação

Com o moletom como estrela maior, o que está no DNA da grife, Angélica interpreta clássicos do material, como os hoodies e as calças jogger, de um jeito único, mesclando texturas, inventando sobreposições e aprimorando detalhes, como capuzes gigantes, zíperes, botões estratégicos e aplicações de renda guipere.

A silhueta é ampla e alongada, com uma cartela que vai de neutros cinzas, azuis e verdes suaves aos intensos bordôs e ocres, passando pelo iluminado branco, sempre mantendo uma personalidade naturalista. “Tudo é pensado para proporcionar o máximo conforto, claro que sempre aliado a elegância”, diz Angélica.

Uma curiosidade: a coleção é um review sobre o acervo da marca, já que a criadora resgata modelagens e apostas já usadas em outras coleções, repaginando detalhes, matérias-primas e composições de um jeito novo. “Nosso acervo é extenso e muito rico, achei interessante este desafio de recriar”, afirma.

Transmuta e Carolina Brugnera

Transmuta desfilou no programa de novos talentos do ID Fashion e Carolina Brugnera no Top Sebrae, uma seleção de cinco marcas com mais representatividade nos programas relacionados à capacitação de vestuário. As duas são pura inspiração para o design.

Conjunto da Transmuta criado a partir do tecido de uma poltrona e o macacão de noiva de Carolina Brugnera/Fotos Mel Gabardo/Divulgação

Conjunto da Transmuta criado a partir do tecido de uma poltrona e o macacão de noiva de Carolina Brugnera/Fotos Mel Gabardo/Divulgação

Por meio do upcycling refinado, a Transmuta trabalha a reciclagem de tecidos, bordados e aviamentos. Resgata peças velhas e com desgastes, recriando outras. O interessante é que cada novo modelo vem com uma foto da roupa que deu origem aquela peça, surpreendendo o consumidor pela criatividade e qualidade do design que surge. A parka e a saia vermelhas da foto acima vieram de uma poltrona inflável. Não é impressionante? E tudo de muito bom gosto e qualidade. Gamamos!

Já Carolina Brugnera tem um ateliê de sob medida, com peças produzidas exclusivamente para cada cliente. Na passarela do ID Fashion, trouxe uma amostra do seu trabalho, com modelos que surpreenderam por fugir ao convencional de ambientes de luxo, como o macacão da noiva. É sempre muito interessante presenciar um novo olhar sob o convencional, não é mesmo?

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