Só tocando para sentir

Experiência táctil tem se tornado sinônimo de exclusividade no mundo da moda

Modelo veste jaqueta de ombros em lã durante desfile em Nova York
Modelo veste jaqueta de ombros em lã durante desfile em Nova York Foto: Josh Haner

 

Nova York ‒ Grande parte da moda hoje em dia é criada, produzida e vivida através do computador. Quando Lazaro Hernandez, da Proenza Schouler, exibiu um suéter felpudo com barra de couro sem costura visível, disse: “Foi feito no computador”. E estava falando a verdade. Literalmente. Uma máquina foi programada para fazer furos com fios finíssimos de lã no couro até que sua superfície, mais dura, se dissolvesse na trama macia.

Em questão de algumas temporadas, Hernandez e seu sócio, Jack McCollough, se tornaram os melhores “mágicos” da moda norte-americana. Alguns de seus truques não dão muito certo, mas eles estão sempre dispostos a assumir o risco. Nada diferente da década de 30, quando os estilistas também tinham que experimentar técnicas novas antes de conseguir acertar.

Hoje em dia, o que o consumidor visual da moda perde ‒ e isso inclui a grande maioria das pessoas, inclusive os fashionistas mais radicais ‒ é a experiência táctil. Nem a melhor imagem digital consegue captar a textura granular, parecida com a crosta de neve, de uma saia de trama de tule da coleção da Proenza ou a compactação do buclê que a dupla usa em seus casacos e jaquetas. Mesmo a olho nu, o tecido parece sinistramente industrial. É preciso tocá-lo.

A alta moda sempre teve a ver com a exclusividade de alguns poucos intrépidos e dos ricos mimados, mas, numa época em que os desfiles são acessíveis a qualquer um que tenha um smartphone ‒ e quando estilistas e criadores de imagens são adeptos da criação de uma coleção que estimule só o visual ‒ o tato se torna uma experiência quase impossível de compartilhar, o que não deixa de ser um detalhe interessante num ramo que sempre busca exclusividade.

As últimas criações de McCollough e Hernandez também são prova do valor da pesquisa de longo prazo. Há uns dois anos, eles fizeram umas peças de trama de couro que ficaram lindíssimas, mas davam a impressão de serem duras. Tiveram paciência para aperfeiçoar a ideia e, dessa vez, criaram casacos e vestidos em trama de pelica e couro, num padrão parecido com tweed. A renda feita a partir do crepe de cetim aquecido (para obter uma consistência mais dura) não obteve o mesmo resultado, em minha opinião. O que não deixa de ser válido, pois a ideia pode levá-los a algum lugar.

Vê-se também uma harmonia maior nesta temporada entre os tecidos e as formas, principalmente nas peças feitas de buclê e tule, e em alguns vestidos de caimento simples em crepe de lã branco com botões laterais, exibidos com peitilho em malha. (Os estilistas disseram que as lojas receberão uma versão mais longa.) Esses modelos, ao lado dos casacos e jaquetas clean, de ombros arredondados, lembram a alta costura vintage ‒ os primeiros modelos de Givenchy, talvez? ‒ mas, de qualquer forma, são muito atraentes. Os tecidos novos só os tornam surpreendentes.

Ralph Lauren foi à Marinha Mercante, ou pelo menos exibiu a versão falsa (mas chique), com pea coats, calças de marinheiro, couro e malhas. Ele mesmo vestido no estilo ao fim do desfile, Lauren poderia ser personagem de “O Velho e o Mar”. Bom, ele pode ‒ é o chefe.

Os trechos masculinos do desfile pareciam familiares, mas os rococós de tafetá vinho, preto e verde escuro com pregas delicadas valeram a espera ‒ e se mostraram dignos de um tapete vermelho moderno.

Os vestidos de noite de Georgina Chapman para a Marchesa dominam as ocasiões de gala. Dessa vez o vermelho-sangue de Goya foi sua inspiração e ela manipulou as referências históricas com sabedoria e entusiasmo ‒ como na combinação do corpete de pelica branco bordado com a saia lápis do mesmo tecido ou no tule transparente com cetim vermelho. Exibir a blusa com os trajes de noite foi um toque interessante, embora o clima pudesse ter se estendido um pouco mais antes que surgissem as saias elaboradas.

É fácil questionar o estilo de um estilista que muda constantemente ou cujas roupas são bonitas mas não têm autoridade, como as de Reed Krakoff. Agora parece que ele finalmente relaxou. Como se fosse um uniforme contemporâneo ‒ com jaquetas enxutas, decotes em V, detalhes nas malhas/pele e saias envelope com painéis na barra ‒ essa coleção deu a impressão de ser mais madura e elaborada e não presa à teoria minimalista.
As modelos da Calvin Klein estavam muito bem em seus casacos de lã escuros, com cintos largos e camisas combinando, apesar do volume de lãs e alpacas.

É óbvio que Francisco Costa queria falar da força feminina- como se viu nos bustiês cruzados nas costas, nas botas pretas que mesclavam alta costura com o estilo biker e nas fivelas gigantescas dos cintos.

E quando o corte exagerado das roupas já parecia demais, a proporção, de repente, se tornou o foco. Costa trabalhou muita coisa em sua coleção: criou efeitos de grade com vincos e explorou alguns estilos masculinos para tornar as roupas de noite ainda mais enxutas, como o blazer preto com a calça larga de cetim ‒ mas a verdade é que produziu uma silhueta exigente.

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