Tricô conquista uma nova geração de fãs

Técnicas cada vez mais sofisticadas e troca de informações dão popularidade ao tricô

Cristiane Bertoluci reúne amigas para tomar café da manhã e tricotar
Cristiane Bertoluci reúne amigas para tomar café da manhã e tricotar Foto: ANA HELENA TOKUTAKE

Para muita gente, tricotar é coisa de vó, mas fios e agulhas unem, em todos os cantos do mundo, meninas e mulheres apaixonadas por uma técnica que está mais na moda do que nunca.

Entra inverno, sai inverno, as cores mudam, as tendências passam, e o tricô segue forte. Cachecóis, casacos, golas – sempre aquela peça caprichada que vai estar no guarda-roupa para dar um toque especial a qualquer produção. A técnica básica é simples e, por isso, muitas aprendem ainda meninas. Mas, como qualquer trabalho manual, requer empenho e concentração.

Com a internet, surgiram redes sociais específicas para tricoteiras, blogs, vídeos com tutoriais. Assim, abriu-se a porta para qualquer interessada aprender sem precisar sair de casa. Além disso, na rede é possível conhecer uma infinidade de materiais bonitos e sofisticados, como lãs especiais, agulhas ou fios 100% naturais, nem sempre à venda no Brasil.

A professora de tricô Cristiane Bertoluci, 28 anos, mora em São Paulo, onde há mais lojas de fios importados.

– Dou aula na Novelaria, um lugar incrível, que tem cafeteria, sofás, lãs argentinas… Uma delícia. No Sul, temos mais armarinhos, mas pouca coisa especializada.

Ela acredita que no centro do país a cultura do tricô se dissemina de forma diferente:

– No Sul, a gente geralmente aprende com mães, tias ou avós. Aqui, houve um tempo em que nem as mães aprenderam para ensinar as filhas. A nossa geração tem muita vontade de aprender e criar num espírito “faça você mesmo”.

Uma peça feita à mão leva tempo para ficar pronta e é praticamente exclusiva.

– Fica lindo e nunca ninguém vai ter algo igual. Faço tanta coisa para mim que não vou conseguir usar, que acabo dando muitos presentes. Até porque não tem espaço em casa para tanta coisa e preciso liberar cantos para novas linhas, novos projetos – explica a estudante de letras Larissa Goulart.

Trabalho, diversão e terapia

Sempre que ouve qualquer tipo de comentário desdenhoso sobre tricô, Susana Delvan responde com um “cada um com suas manias”. Para a auxiliar administrativa, as linhas e agulhas são trabalho, diversão, terapia. Tudo junto. Aos 14 anos, aprendeu a tricotar por uma razão bem prática: a mãe queria que ela parasse quieta, literalmente, e não a incomodasse enquanto trabalhava.

Com o passar do tempo, Susana se acalmou e largou a diversão terapêutica. A vontade de tricotar voltou quando ela pensou em presentear o marido com um gorro. Depois de muito tempo sem pegar em agulhas, ela viu que estava enferrujada. Foi então que a internet entrou em cena: blogs, vídeos no YouTube, diversas amizades pelo mundo inteiro e muitas novidades para aprender.

Além do tricô, Susana também gosta de crochetar. Com as lãs, ela dá preferência a blusas e casacos. Com as linhas, ela gosta de fazer acessórios para a casa. A exclusividade é um aspecto que ela valoriza:

– Por mais que eu tenha visto o modelo em uma revista ou na internet, a probabilidade de encontrar algo igual é baixa. Mesmo quando a gente segue exatamente uma receita, sempre tem um toque só seu.

É justamente por esse motivo que as criações de Susana fazem tanto sucesso. Muitas vezes, ela precisa recusar pedidos para poder fazer as peças que ela quer para si mesma.

Facebook das tricoteiras

O site Ravelry (www.ravelry.com), lançado em 2007, é conhecido como a rede social das tricoteiras e crocheteiras. Na página, pode-se criar um perfil para organizar e compartilhar projetos de tricô e crochê. Na rede, ainda é possível procurar por um determinado ponto, ver todos os trabalhos cadastrados executados com ele e compartilhar dicas sobre as peças que estão fazendo no momento.

O site é tão organizado que cada tipo de fio tem sua própria página, com dicas de quais são os melhores trabalhos para fazer com aquele material. Quem tem interesse em algum assunto específico pode entrar em um dos vários grupos cadastrados na página.

O banco de dados do Ravelry reúne material de livros, revistas e de outros sites. Nos fóruns de discussão (em inglês), é possível trocar ideias, pedir ajuda ou mostrar novidades. É clicar e começar.

Pontos de encontro

O sonho de Larissa Goulart, 19 anos, era ter uma “agulha de família”. Assim como joias passam de mãe para filha, a estudante de Letras queria uma agulha com passado e história. Sem parentes que pudessem ensinar a tricotar, ela acabou aprendendo na internet, em vídeos postados no YouTube.

Larissa começou a mexer com artesanato aos 14 anos. No início, tinha vergonha de mostrar seus trabalhos e ouvia até dentro de casa brincadeirinhas como “mas que coisa de velha”. Hoje, ela perdeu a timidez e brinca que precisa se controlar para não tricotar em todo e qualquer lugar:

– Já cheguei a fazer na aula. Todo mundo ficou olhando, mas a professora não falou nada. Hoje me controlo mais e faço só nos intervalos.

Na internet, além de aprender todas as técnicas, ela também fez amigas do mundo inteiro, que ajudam a resolver os quebra-cabeças que aparecem. Há dois anos, passou a frequentar os encontros do grupo de crochê gaúcho Tricô Tchê. Larissa está entre as alunas mais novas e assíduas, por isso, acabou sendo “adotada” pelas outras participantes.

– Várias delas têm filhas que não fazem tricô, então dizem que vão deixar suas agulhas e linhas de herança para mim – comemora.

A rotina da estudante consiste em dividir o tempo entre os estudos, o namorado e o tricô. Nas férias, o trabalho manual ganha mais espaço – ela gosta de fazer cachecóis no verão. Só em janeiro e fevereiro deste ano, foram cerca de 50! Apesar dos vários pedidos de amigas e da família, ela diz que transformar o tricô em profissão não está nos seus planos. Pelo menos por enquanto.

– Muitas vezes, o preço que tu vais cobrar por uma boina quase não cobre o custo da lã. Então acabo fazendo mais presentes mesmo, que não saem de moda e são sempre uma coisa especial.

O que acaba sendo realmente difícil para a menina prendada – e para todas as tricoteiras que aparecem nesta reportagem – é achar espaço para tanto apetrecho. Ela chegou a trocar a cama por um sofá-cama menor para poder acomodar no quarto o armário no qual guarda todo seu material.

Tramas de amor

A vontade de vestir suas bonecas com cachecóis e polainas levou Cristiane Bertoluci, 28 anos, a aprender a tricotar com a mãe, em Caxias do Sul. Formada em moda, ela mora em São Paulo há quatro anos e transformou em profissão a brincadeira de infância. Na capital paulista, a gaúcha começou a organizar encontros para tricotar e explorar todas as técnicas manuais, os Tricotarde. Junto com suas duas primeiras alunas, ela criou o coletivo Feito a Mão.

– Já disseminei entre as amigas o hábito de tomarmos café da manhã juntas para tricotar, crochetar e bordar – conta.

Com a experiência adquirida desde criancinha, ela revela que seus trabalhos já passaram por diversas fases:

– Agora, estou adorando fazer turbantes, dei até aula em um evento para pacientes de quimioterapia. Já fiz biquínis de tricô, golas, e tive também uma fase louca de fazer meias com cinco agulhas.

Cristiane explica que boa parte do seu dia é dedicada aos trabalhos manuais. Ela diz que os pontos coloridos que ensina às alunas são mais que trabalho, diversão ou terapia:

– É o amor tornado visível. É como eu sinto.

Para deixar o amor mais escancarado, em 2011, o grupo fez uma intervenção urbana no Parque Trianon, perto do Masp, adornando estátuas e postes. Foi o projeto Tricote a Rua, uma das primeiras iniciativas de “tricô de guerrilha” no Brasil.

Cristiane adora sacar suas agulhas em público, seja no ônibus ou na rua. Ela observa que as pessoas olham com curiosidade para uma moça tão jovem absorta em uma atividade tão antiquada. Sabe como ela reage?

– Não consigo reagir. Se reagir, eu perco o ponto.

Cores na cidade

Tricô de guerrilha, bombardeio de linhas ou grafite de tricô. Não importa o nome, a ideia é colorir e embelezar a cidade. Os primeiros registros de manifestações do gênero são de 2004, na Holanda. Em 2005, no Estados Unidos, tricoteiras espalharam sobras de linhas de trabalhos não terminados pelas ruas de várias cidades para deixá-las mais “aconchegantes”. A moda de colorir espaços urbanos com linhas se espalhou pelo mundo e, em 2009, surgiu em Londres o primeiro coletivo organizado de grafite de tricô, o Knit de City (tricote a cidade): http://knitthecity.com/.

Além das ações nas ruas, o grupo organiza seminários e ensina como espalhar cor e pontos por espaços comunitários. As instalações do Knit the City ficaram famosas e disseminaram ainda mais as ações, que podem ser realizadas de maneira organizada ou em iniciativas pessoais. Em países da Europa, é muito comum encontrar monumentos famosos “vestindo” peças tricotadas por anônimos, especialmente no inverno. A obra da foto foi criada em São Paulo, por Cristiane Bertoluci.

Tricô Tchê

O grupo criado no Facebook, com a proposta de aproximar as tricoteiras do Estado e criar uma rede de contatos, já reúne 238 membros das mais diversas faixas etárias. Chama-se Tricô Tchê, mas conta com participantes do Brasil inteiro. Pela rede social, elas marcam encontros, dividem experiências, tiram dúvidas e também se organizam e se engajam em projetos sociais. No ano passado, elas arrecadaram ou fizeram cerca de 250 pares de meias de lã que foram doadas a asilos.

As reuniões do Tricô Tchê são marcadas pela internet e ocorrem mensalmente. Até o momento, elas sempre foram realizadas em Porto Alegre. No dia 19 de maio, a confraria se reuniu para fazer boinas. A ideia é doar as peças produzidas no encontro, e outras que ainda serão feitas, para pacientes que em tratamento com quimioterapia. Para acessar: www.facebook.com/groups/suzimusse/

Volta ao natural

O movimento de vai e vem no pedal da roca é parte da rotina de Ellen Zwick Elly desde 2005. A artesã produz lã para tricô e outros trabalhos manuais de maneira completamente artesanal, na empresa da família, em Taquara. Em roca elétrica ou de pedal, um novelo de lã de ovelha de 100g, por exemplo, é fiado por cerca de uma hora. Toda a produção é tingida com extratos naturais de plantas da região.

No início, a produção da Fiolã era mais voltada para o campo: fios mais grossos para palas, ponchos e outros acessórios da indumentária gaúcha. Com a entrada da empresa no mercado virtual, há cerca de dois anos, Ellen viu nas tricoteiras um nicho novo.

– Elas são muito exigentes. Então, começamos a desenvolver fios mais finos e mais apropriados.

As novas espessuras e a qualidade dos fios atendem às exigências de artesãs e lojas do país inteiro, interessadas em trabalhar com materiais mais naturais.

– O natural, o ecológico estão súper em voga. Antes se jogava essa lã fora, muitos produtores queimavam ou enterravam, porque usavam só a carne da ovelha. Ninguém queria aproveitar a lã, uma matéria-prima riquíssima que não tinha comprador. Com a internet, conseguimos chegar às pessoas que procuram um diferencial.

A qualidade dos fios pode ser sentida já no primeiro toque. Além de esquentar mais, há uma diferença no tamanho da peça. O material natural deixa tudo mais encorpado.

Ellen começou a tricotar aos 15 anos para fazer polainas. Hoje, aos 41 anos, está em fase de redescoberta para melhor atender suas clientes. A produção totalmente artesanal resulta em fios matizados, não uniformes, limitações que as tricoteiras nem sempre compreendem. Mas as cores obtidas de plantas sazonais da região resulta em uma linda cartela de cores sólidas.

Visual com capricho manual

Para Taís Andrade, 34 anos, trabalhos manuais são uma vocação. Desde os 10 anos, ela faz tricô e atribui seu sucesso como maquiadora e chapeleira a sua habilidade com as mãos. Ao preparar o visual da modelo Helena Chavannes para esta matéria, Taís não resistiu a todo o material que estava no estúdio e fez uns pontinhos.

– Adoro fazer coisas para mim e para minhas duas filhas: boinas, cachecóis, casaquinhos.

Como boa parte das tricoteiras, Taís acha difícil se controlar ao passar por uma loja de linhas. A falta de espaço em casa levou-a a montar um ateliê, onde guarda lãs, agulhas e tudo mais que usa para confeccionar chapéus, fascinators e casquetes.

– Tenho que me controlar para não comprar tudo o que vejo. A gente sempre acaba levando material que nem usa, só pensando nos trabalhos futuros, mas fico com coisa demais parada. Já prometi a mim mesma que não vou mais fazer isso – admite.

A filha mais velha de Taís tem idade que ela tinha quando deu os primeiros pontos na agulha. Mas ainda não demonstra interesse pela técnica.

– Como sou canhota e ela é destra, seria um pouco mais difícil ensinar, assim como foi com a minha mãe. Mas se ela demonstrar interesse, vou ensinar com o maior prazer.

O contato desde cedo com qualquer tipo de artesanato ou trabalho artístico é incentivado pela maquiadora:

– Todas as crianças deveriam ter aulas de artesanato na escola. Ajuda na concentração, na criatividade, no desenvolvimento. E quem faz sabe que é terapêutico.

Modelando e tricotando

A menina bonita da capa não foi escolhida à toa. Helena Beatriz Chavannes tem 18 anos e aprendeu a tricotar com a mãe aos 10, mas nunca levou o hobby muito a sério. Com a correria das viagens e as longas horas de espera para os castings, o tricô voltou à vida da modelo, há um ano e meio, como um legítimo passatempo. Azul e verde são as cores mais usadas por Helena para confeccionar polainas e cachecóis entre um clique e outro.

Apesar da técnica sempre ir e voltar como hit do inverno no mundo da moda, a modelo não conhece muitas colegas de profissão com o mesmo hábito. As lãs e agulhas ela ganha sempre da mãe, que tem uma coleção imensa de apetrechos. Ela sempre incentivou a prática, mesmo que muita gente achasse que não é coisa de menina “tão novinha”.

– Além de ser um tipo de arte, é ótimo para a atenção, a coordenação e a criatividade. E eu não me importo com quando chamam de “coisa de velha” – explica.

Diferente da maioria das tricoteiras, que carrega seus trabalhos para todos os cantos, Helena não gosta de levar muita coisa consigo:

– Não levo a qualquer lugar porque já carrego tanta tralha… Acabo me preocupando em segurar tudo e não perder nada.

Helena brinca com o uso da palavra tricotar como sinônimo de fofocar e conta que, nas raras horas de folga, “tricota” muito com as amigas no parque.

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