Um dos últimos nomes da era de ouro da alta-costura, Givenchy revelou a simplicidade da sofisticação

Foto: Bart Maat/AFP
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Ele era o mestre do visual devastadoramente chique e preto. Comprovou que a excelência da costura não estava no exagero, mas, sim, no oposto, na simplicidade. “O vestidinho preto é a coisa mais difícil de conceber”, dizia Hubert Givenchy, um dos últimos nomes da era de ouro da alta-costura a nos dar adeus – morreu no dia 10, aos 91 anos, dormindo. E o aristocrata francês sabia muito bem o que dizia. Afinal, assinou um dos pretinhos mais icônicos da história da moda, o vestido que Audrey Hepburn usou no filme Bonequinha de Luxo (Breakfast at Tiffany’s, 1961).

Foto: Reprodução

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Nascido no norte da França, em Beauvais, em 1927, o conde Givenchy chegou a Paris aos 17 anos para se tornar um dos maiores representantes da elegância tipicamente francesa, aquele requinte inerente, distante de excessos, que parece impossível de comprar ou copiar e é desejado desde sempre. Givenchy criava para esta mulher naturalmente sofisticada desde o princípio de sua carreira, que começou no ateliê do famoso Jacques Fath. Antes de abrir a própria casa, Givenchy ainda trabalhou para Robert Piguet, Lucien Lelong e foi diretor artístico de Elsa Schiaparelli – por sinal, nessa audaciosa grife começou a desenhar o que seria o primeiro prêt-à-porter de luxo com uma linha de coordenados (blusa, saia, casaco e calça) que as clientes podiam combinar como queriam.

Givenchy fundou a marca com seu nome em 1952 e, já na primeira coleção, revelou duas características de sua trajetória, a simplicidade e a presença de uma musa. Sim, Givenchy sempre criou pensando em uma grande personalidade e, inclusive, falava que eram as mulheres que faziam a roupa e não o contrário. A escolhida foi a modelo Bettina Graziani, uma das melhores da época e que acabou se tornando relações-públicas e amiga pessoal. A peça que ela desfilou, chamada Bettina, era uma blusa de linho, mangas amplas e bordadas. Simples e chique como tudo com a assinatura Givenchy.

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No ano seguinte, conheceu aquele se que tornou seu grande ídolo, influenciador e amigo íntimo, Cristóbal Balenciaga. “Fazer um vestido simples, onde não há nada além de uma linha, isso é alta-costura”, costumava dizer-lhe o espanhol, reforçando a essência Givenchy. Em 1957, outra criação emblemática, a sack silhouette, que, como o nome sugere, ao invés de marcar a cintura, caía de forma solta, independentemente das formas do corpo, revelando a busca pelo conforto que também sempre norteou o trabalho do mestre.

E foi mesmo em sua parceria mais famosa que Givenchy refletiu tudo isso – sofisticação, simplicidade, conforto e, claro, uma musa: Audrey Hepburn. O estilista contava que, quando Audrey ligou para o ateliê marcando uma reunião, ele jurava se tratar de outra Hepburn, Katharine, atriz reconhecida pelo estilo primoroso. Quando viu Audrey chegar com seus olhos grandes, magrela, usando uma roupa preta simples e sapatilhas, ficou encantado – e encontrou a tradução de tudo o que sempre havia criado. E, sim, muito do sucesso internacional do francês se deve a essa relação de inspiração e amizade.

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A elegante costura do designer e o olho para uma linha perfeita, combinados ao sabor excepcionalmente extravagante de Hepburn, criaram um estilo mágico. Juntos, forjaram uma imagem refinada de glamour que ainda parece chique mais de meio século depois. “Ela não era como outras estrelas de cinema porque amava a simplicidade”, disse Givenchy.

Vestido que Audrey Hepburn usa em "Cinderela em Paris" é assinado por Givenchy. Foto: Reprodução

Vestido que Audrey Hepburn usa em “Cinderela em Paris” é assinado por Givenchy. Foto: Reprodução

O estilista criou modelos imortalizados em filmes como Cinderela em Paris (Funny Face, 1957) e Sabrina (1954). Mas, sem dúvida, o vestido preto decorado por pérolas de Holy Golightly em Bonequinha de Luxo foi o melhor exemplar dessa relação – e excelente tradução de uma carreira que sempre primou pela elegância e a simplicidade com o máximo do estilo. Atualmente, a grife Givenchy pertence ao conglomerado de luxo LVMH (Moet Henessy Louis Vuitton). O estilista vendeu a marca em 1985 e fez seu último desfile em 1995.

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