Uma visita aos brechós de Cingapura

Passear nas lojas de antiguidades e peças vintage é um dos programas mais bacanas para fazer na cidade do sudeste asiático

Roupas usadas eram estigmatizadas no país, mas a cultura de compras mudou
Roupas usadas eram estigmatizadas no país, mas a cultura de compras mudou Foto: Sam Kang Li

Passamos pelo café onde os tiozinhos fumavam bebericando cerveja, pela bancada gigante de duriões de cheiro forte, pelas barracas lotadas de esponjas, incensos e outros produtos para a casa. Lá fomos nós, eu e minha amiga Jeanette, de olho em qualquer sinal do brechó.

Quando estávamos a ponto de desistir, vimos a vitrine atrás de um portão de metal azul onde os manequins exibiam vestidos longos e havia apenas uma placa de madeira: “Dust Bunny”. A loja estava fechada, mas enviei um torpedo para o número na porta e, minutos depois, apareceu a dona, Pia Chew, pedindo desculpas e explicando que teve que dar um pulo em casa, ali perto. Ela abriu a loja e nós entramos num espaço lotado de vestidos de festa dos anos 50, pôsteres de filmes antigos e sapatos de couro bem conservados.

Por onde começar? Havia uma coleção enorme de vestidos estampados japoneses da década de 60, com corpete justo e saia sutilmente rodada; joias antigas; bolsas de noite, incluindo uma clutch de metal brilhante do tamanho de uma cigarreira grande com espaço para cosméticos.

Havia também a peça mais estranha da loja inteira: uma bolsa tipo mochila, vermelho vivo, cuja alça era o receptor do telefone, com botões. Quando vimos e começamos a rir, Chew disse que ela custava 800 dólares cingapurianos (cerca de US$ 661 com o dólar a 1,20 cingapuriano), que não era de brincadeira e começou a abrir, desenrolou um fio bem comprido e se ofereceu para encaixar na parede e fazer uma ligação.

Comprar antiguidades ou peças vintage já foi bem complicado em Cingapura, cidade que se orgulha de sua modernidade e de possuir (ou criar) tudo que há de mais novo. Roupas usadas eram encaradas como itens adquiridos apenas em caso de necessidade – e mais estigmatizadas ainda porque as pessoas evitavam comprar roupas de pessoas mortas.

De uns anos para cá, porém, a cultura das compras mudou um pouco principalmente porque as mulheres passaram a aceitar melhor a atitude ocidental em relação às roupas usadas. E minha amiga Jeanette, uma das pessoas que mais conhecem e amam moda que já conheci, desde que estudávamos juntas, vem se referindo com mais e mais frequência aos brechós. Na minha última visita, ela me levou para uma pequena expedição vintage.

? O pessoal está procurando alternativas para as tendências atuais porque quer coisas diferentes – explicou Chew, que conta que ao abrir o negócio, em 2004, porque queria “desovar” a coleção de bolsas antigas que tinha acumulado. ? Havia pouco conhecimento e zero interesse em tudo o que fosse vintage.

Sem dúvida, as coisas mudaram. No Shopping Center Peninsula, um prédio com cheiro de mofo com lojas que vendem de uniformes de time de futebol a eletrônicos, Jeanette e eu encontramos um verdadeiro tesouro no terceiro andar: a Granny’s Day Ou. Da cortina de miçangas na janela à profusão colorida de cintos pendurados num busto de metal no meio da loja, já dava para saber que a experiência seria memorável. As centenas de vestidos, sapatos, óculos escuros, bolsas e joias da loja eram originárias, na maioria, dos EUA e Europa, com algumas peças até da era vitoriana.

Entre as mais insólitas, um vestido melindrosa dos anos 20, vermelho e transparente com delicada estampa em veios, e uma saia lápis cáqui da Thierry Mugler, dos anos 80, decorada com correntes de metal.

Quando começamos a experimentar as peças, a dona, Hsiao Ying Loh, ex-editora de uma revista de moda, começou a oferecer sugestões de cintos e colares. Encontrei um vestido dos anos 50, de algodão branco, lindo, que vinha da Inglaterra e me serviu perfeitamente – e Loh, como uma mãe orgulhosa, sacou da câmera e fez questão de tirar fotos. Ela tem uma parede recoberta de instantâneos de clientes felizes – além de uma página no Facebook e um site (grannysdayout.com), no qual mostra composições meticulosamente produzidas que poderiam muito bem estar em qualquer editorial de moda.

Seu entusiasmo se deve, em parte, à emoção de ver duas jovens garimpando num brechó.

? As asiáticas, em geral, são muito supersticiosas e as cingapurianas, a princípio, são muito hesitantes porque a ideia de usar as roupas de uma mulher que já morreu é um verdadeiro horror ? explica ela. ? Eu me lembro bem da minha primeira cliente. Quando ela descobriu que a nossa loja vendia só roupas de segunda mão e que estava experimentando uma, só faltou pular no vestiário. Saiu feito uma louca. Ainda bem que esse tempo já passou, embora de vez em quando alguém me olhe torto.

Algumas lojas valem a visita porque o prédio onde estão instaladas é tão vintage quanto o estoque. A Dust Bunny, por exemplo, fica no centro de um bairro residencial criado nos anos 80 e que ainda tem o clima tranquilo daquela época. Já a Flea & Trees, além dos broches franceses, os vestidos de Tóquio e as malas e sacolas de viagem de meio século que vieram de Londres, está em Tiong Bahru, uma das áreas residenciais mais antigas da cidade, cheia de prédios art déco da década de 40.

Apesar das mercadorias antigas, várias dessas lojas utilizam publicidade moderna, vendem on-line e mantêm a clientela informada por torpedos. De fato, na Deja Vu Vintage, que tem uma coleção invejável de peças antigas de grifes como Ossie Clark, Pucci, Commes des Garçons e outras, a proprietária, Kelly Yeo, pode chegar à porta do provador e lhe dizer: “Nem precisa se preocupar – venha, faremos as alterações para você”. E quando os meus vestidos ficaram prontos, uma semana depois, a loja me enviou um torpedo, dizendo: “Olá, suas roupas estão prontas”.

Para encerrar, fui à World Savage. Bridget-Rose Lee e Hwee Yee Chua possuíam a Stevie General Store, um brechó popular inaugurado em 2009 e que ficou tão famoso pelo pinguim de gesso gigante como pelas peças; no ano passado, porém, mudaram de casa e de nome, embora o clima continue o mesmo. Ali ainda é possível encontrar gravatas Hermès de 1970 e um conjunto de brincos e colar com detalhes intrincados, de jade, vindo da China, de 1940.

Lee, que compra quase todas as suas roupas do Japão e dos EUA, explicou por que os vestidos japoneses antigos caem tão bem, não importa o corpo que se tenha: é porque a costura geralmente fica acima da cintura natural, o que “estica” o corpo. Além disso, eles têm uma bela aplicação de plissado que sai da cintura, disfarçando assim os quadris largos.

O destaque de sua coleção, entretanto, fica por conta dos vestidos, também japoneses, feitos de seda de quimono. As cores e estampas eram discretas, mas de tirar o fôlego, com folhagens ou flores que se mesclavam ao fundo (sem contar a maciez do tecido) – e como foram feitos como vestidos de dia, eram extremamente práticos, excelentes para o trabalho ou um almoço especial. A US$ 130 cada, foram uma verdadeira pechincha.

Mais que isso, porém, foi o fato de eles serem diferentes de quaisquer peças que encontrei nos brechós que visitei em minhas inúmeras viagens – uma janela especial para uma parte única do mundo, símbolo de uma cultura que já não existe mais.

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