A vez do azeite gaúcho

Produto milenar que percorreu a história da humanidade, o mais nobre dos óleos encontrou no RS um terroir precioso

Foto: Ricardo Wolffenbüttel

Ao primeiro olhar, percebe-se a cor intensa. No olfato, pronunciam-se as notas frutadas. Na boca, o sabor amargo e picante. Não, não estamos falando de uma degustação de vinhos. O produto em questão é óleo e não líquido, é feito de azeitona, e não de uvas, e atende pelo nome de azeite. Como seu companheiro, nasceu em tempos (muito) remotos e percorreu boa parte da história da humanidade, deixando a vida dos homens mais saudável e a comida bem mais gostosa.

Tradicionalmente produzido na região Mediterrânea, o azeite de oliva já não é exclusividade dos europeus. Em terras brasileiras, por exemplo, é possível fabricar azeite do bom. No Rio Grande do Sul, pelo menos três iniciativas já colocam – ou estão em vias de colocar – nas mesas um óleo produzido a partir de oliveiras plantadas em solo gaúcho. O primeiro a aparecer no mercado foi o Olivas do Sul, idealizado pelo engenheiro José Alberto Aued em Cachoeira do Sul. Em 2006, decidiu plantar oliveiras acreditando nas semelhanças entre as condições climáticas de Cachoeira e da Argentina, país que já tem certa tradição na fabricação de azeites fora da Europa. Deu certo. O produto já pode ser encontrado em empórios e supermercados de todo o país.

Mais recente e igualmente promissor é o azeite Prosperato, projeto da empresa Tecnoplanta, sediada em Barra do Ribeiro e especializada em produção de mudas de eucalipto e pinus para silvicultura. Com a queda na indústria de florestamento no Rio Grande do Sul, a empresa sentiu a necessidade de diversificar sua capacidade produtiva. Uma das apostas foi reproduzir oliveiras por meio de propagação vegetativa, ou seja, fazer mudas a partir de galhinhos de uma árvore cuja genética seja reconhecida. Depois de ter formado um grande viveiro de mudas, a empresa percebeu a oportunidade de também fabricar azeite. Plantou um pomar em Caçapava do Sul, onde o solo é mais adequado, e já produziu a primeira safra de seu azeite extra virgem.

Outro azeite gaúcho estará disponível no mercado em pouco tempo. O Batalha da Guarda Velha, cuja colheita da primeira safra começou em março, está sendo produzido na Estância Guarda Velha, em Pinheiro Machado, e os testes indicam um produto de alta qualidade.

Pelo menos dois outros produtos regionais se destacam. Um deles é o azeite Casa da Montanha, fabricado pela Olivas do Sul sob a encomenda do hotel de Gramado, para ser servido exclusivamente no Restaurante La Caseria. Outro é o azeite Campos Gourmet, do multiempresário Raul Random. Este, no entanto, não é fabricado em solo gaúcho, mas importado e embalado por aqui. Porém Random já prometeu produção própria para breve.


VOCÊ SABIA?

Os azeites são classificados conforme o seu teor de acidez e o seu meio de produção. O mais nobre de todos, o extra virgem, é resultado da primeira prensagem a frio da azeitona, ou seja, o processo produtivo não recebe nenhum componente químico para a extração do óleo. O teor de acidez de um extra virgem pode ser de, no máximo, 0,8%.

O produto chamado de virgem fino também resulta de prensagem a frio, mas possui a acidez elevada, entre 0,8% a 2%. Por isso, não pode ser chamado de extra virgem. Um teor de acidez que supere os 2% torna o azeite inadequado ao consumo. Por isso, os fabricantes adicionam alguns compomentes químicos para o refino do óleo, que passa a se chamar azeite refinado.

POR QUE O AZEITE DAQUI É BOM?

Em provas e degustações pelo mundo, os azeites gaúchos têm se saído muito bem. O motivo está na combinação de condições geográficas e climáticas que favorecem a produção de boas azeitonas A oliveira é uma planta longeva e bastante rústica, que precisa de pelo menos um período de frio intenso por ano para poder dar bons frutos. Solo pobre em matéria orgânica e com pouca retenção de umidade também é ideal para o cultivo. Por isso, regiões como a Campanha Gaúcha são apropriadas.

200 ML NO BRASIL; 20 LITROS NA GRÉCIA

No Brasil, cada vez mais gente se encanta pelos sabores e pelos benefícios do ouro líquido na alimentação. Por isso, o consumo per capita só aumenta. Segundo dados do setor, há seis anos cada brasileiro ingeria, em média, 200ml de azeite de oliva por ano. Hoje o volume dobrou.

Mesmo assim, ainda é pouco, se comparado ao consumo em outros países. Cada grego, por exemplo, come impressionantes 20 litros do óleo a cada ano. Os espanhóis traçam 12 litros, e os portugueses derramam sobre seus pratos de bacalhau nada menos do que sete litros de azeite anualmente. Não é de se espantar que os maiores produtores mundiais sejam, justamente, os países mediterrâneos.

Apesar de fazer parte da história da humanidade, é recente a glamourização do azeite. No antigo Egito as mulheres já utilizavam o óleo das azeitonas para deixar a pele e os cabelos macios, mas é de ontem a mania de promover degustações, rituais semelhantes ao que ocorrem no mundo do vinho.

Aliás, degustar azeite é mais ou menos como degustar vinho. Primeiro a gente observa a cor, que pode ser mais escura, brilhante, amarela ou esverdeada. Depois, sente-se o aroma, que é o atributo “frutado”, e pode variar de vegetais verdes até notas de amêndoas. Por meio dessa análise olfativa pode-se dizer se o azeite é resultado de azeitonas mais maduras ou verdes.

Por fim, degusta-se o paladar, que proporciona as sensações de “amargo” e “picante”. Para fazer o ritual, espalhe na boca um gole do azeite puro e espere para começar a viajar neste mundo de sensações.

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