Comer e escrever: curso de “food writing” ensina a registrar experiências gastronômicas

Ilustração: Edu Oliveira
Ilustração: Edu Oliveira

Por Paola Troian/(@paolagringa)
Cineasta, 27 anos, cozinheira e empresária sustentável

Amo comer. Sou daquelas pessoas que saboreiam até a última garfada. Se a refeição for acompanhada de um belo vinho, melhor ainda. E não me acanho. Faço questão do pacote completo: amuse-bouche, entrada, principal, sobremesa, cafezinho. Raspo o prato, peço bis e vou até a cozinha cumprimentar os responsáveis.

Se tem uma coisa que aprendi como apreciadora da gastronomia é que existe um magnetismo que une os seres cujo dom é planejar a janta enquanto almoçam. Temos uma característica em comum: consumimos tudo, não só a refeição. Planejamos roteiros de viagem com base nas delícias que vamos encontrar pelo caminho, sabemos de cor as receitas executadas nos programas de TV, passamos horas na seção de gastronomia das livrarias e seguimos incontáveis perfis de chefs e gente como nós nas redes sociais. Compartilhar nossas experiências é uma meta – afinal, comer e não contar é uma audácia.

Pensando em pessoas com esta mesma paixão, a psiquiatra e pesquisadora Betina Mariante Cardoso formulou o curso Cucina in Prosa – Escritas e vivências slow em gastronomia, e a Revista Donna me convidou para a aula inaugural. Já difundido nos Estados Unidos e Europa, o conceito de food writing agora ganha força no Brasil: é o campo de escrita que foca na alimentação, desde a concepção da receita, o ato do preparo e a apreciação da comida, abrangendo ensaios, autobiografias, ficção, reportagem, retratos históricos, livros de receitas e até mesmo prosas e versos.

Foto: Divulgação

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Trata-se de uma imersão gastronômica, dividida em módulos teóricos e práticos intercalados, nos quais os participantes entram em contato com a descoberta dos prazeres através do ato de cozinhar e comer.

Nas oficinas de narrativa gastronômicas, Betina conversa sobre o retorno do prazer demorado de cada refeição e o ritual envolvido em cada parte do preparo. Para isso, aborda o conceito de alimentação afetiva e, por meio dela, trabalha o retorno a uma alimentação consciente com a percepção dos cinco sentidos para a busca do prazer. Para quem nunca colocou no papel suas experiências, a professora dá duas dicas importantes: 1) que você abrace a página de peito aberto e 2) lembre que a prática estimula a consciência da escrita. De forma que, da próxima vez que formos saborear uma refeição, já estaremos formulando a nossa escrita a partir da degustação.

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A página em branco é uma continuação da aventura que começa ao saborear um prato desconhecido. Da mesma forma que se deixar envolver por uma explosão de sabores é um processo estimulante e divertido à mesa, retratar as experiências nos diários de viagem, blogs e redes sociais deve ser igualmente leve e acolhedor.

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Seis dicas para pôr em prática o food writing

1. Inspire-se!
Vale ler um bom livro, fazer maratona de Chefs Table na Netflix ou até mesmo uma playlist nova. O importante é sair da rotina e criar a sua narrativa.

2. Prove tudo o que vier
Amamos comer, e isso não é segredo, mas descobrir novos sabores e deixar de lado aquele ranço antigo com algum tempero é essencial. Prove tudo e não torça o nariz. Você pode se surpreender.

3. Crie os seus rituais
Pegue leve, respire e dê uma chance para as suas papilas. Comer usando os cinco sentidos vai mudar
a sua vida.

4. Verbalize o que sentiu
Se você ainda não está seguro para começar a escrever, conte para seus amigos as suas experiências gastronômicas (e deixe todos eles com água na boca).

5. Não tenha medo
Escrever é um processo pessoal que exige entrega e não cobranças. Vá de peito aberto e não tenha medo de ousar.

6. Escreva muito
Para finalizar, a máxima: a prática leva à perfeição. Escreva um pouco a cada dia e crie um novo hábito. Você vai ver que, com o passar do tempo, as palavras vão fluir e você vai criar a sua própria narrativa. Seja autêntico e perseverante. Não tem erro!

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Saiba mais sobre o curso

A parte prática do “Cucina in Prosa” se divide em quatro módulos que são realizados de forma independente, ou seja, o participante decide em quais aulas quer se inscrever. É indicado para quem curte gastronomia e o registro de suas experiências, seja por meio de diários de viagem, livros de receitas, internet ou redes sociais. Inscrições pelo e-mail bemariante@gmail.com.

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Próximas datas de cursos
• 18/12, das 18h às 21h: As histórias do “Como-se-Faz”: a escrita dos sentidos no ato culinário e a receita culinária como história.

Janeiro – Oficinas de narrativa gastronômica e de viagem
• 10/1, das 19h às 21h – Escrita dos sentidos: o ingrediente como personagem.

• 17/1, das 19h às 21h – Narrativas do eu: a cozinha autobiográfica + práticas em escrita autobiográfica com foco gastronômico.

• 24/1, das 19h às 21h – Narrativas do eu: diários de viagem.

• 31/1, das 19h às 21h – Descrição dos cenários; a escrita dos sentidos nos relatos do viajante; a integração entre narrativas de gastronomia e viagem.

Cada aula custa R$ 80, com coffee-break e materiais, na Vidal Mercearia + Café (Mata Bacelar, 52)

Para ler e saborear

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O Arroz de Palma, de Francisco Azevedo (Record)

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A Fisiologia do Gosto, de Jean Anthelme Brillat-Savarin (Cia das Letras)

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Afrodite – Contos, Receitas e Outros Afrodisíacos, de Isabel Allende (Bertrand Brasil)

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Will Write for Food, de Diane Jacob (Da Capo Lifelong Books)

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