Entrevista: chef argentina Paola Carosella lança livro e declara seu amor pelo Brasil

Foto: Bruno Alencastro
Foto: Bruno Alencastro

Por Rossana Silva, especial

Enquanto fala, Paola Carosella enrola uma mecha de cabelo com o indicador, mexe o lugar dos anéis nos dedos, ajeita as almofadas do sofá. O som ambiente é o das gotas de chuva sob o teto de vidro do Le Bistrot da Praça Japão, em Porto Alegre, onde a argentina esteve pela primeira vez na semana passada, após 15 anos vivendo no Brasil.

Apesar de reivindicar brasilidade, a nacionalidade se deixa notar. E não só pelo leve sotaque em um português correto, diferentemente de quando chegou ao Brasil com dificuldade de fazer suas ordens em espanhol serem entendidas pelos 60 homens da cozinha do restaurante A Figueira Rubaiyat, em São Paulo. A chef que prefere ser chamada de cozinheira é heavy user da ironia, característica recorrente entre os argentinos e com a qual já provocou até lágrimas de seus funcionários no Brasil. Tudo sem querer. A Paola da manhã chuvosa se revelou doce e atenciosa. Fazia questão de tratar pelo nome mesmo quem passou poucos minutos em sua companhia. A exemplo das conterrâneas, é uma mulher de atitude. No dia da visita à Capital, as mulheres de seu país realizavam uma histórica greve geral contra o machismo e a violência de gênero – e ela fez questão de apoiar, ainda que pelo Twitter.

A argentina que hoje encanta na TV como jurada do programa MasterChef foi atraída pelas panelas ainda na infância. A cozinha sempre foi o centro da casa da família de imigrantes italianos em Buenos Aires. Com as avós, depenava galinhas e tirava a pele de coelhos criados no quintal, ia para a horta, colhia, picava e cozinhava. Mais tarde, acompanhar programas culinários se transformou em uma válvula de escape para a solidão das tardes em casa. Quando a mãe chegava da jornada dupla de estudos e trabalho, a mesa do jantar estava posta com a receita ensinada no dia na TV.

A vida deu voltas e levou a jovem que começou a carreira pagando para estagiar, em Buenos Aires, a trabalhar em Paris, Londres e San Francisco, além de cozinhar para estrelas do rock. No Brasil, abriu seu primeiro restaurante, o Julia Cocina. Hoje, divide-se entre o comando do Arturito e da casa de empanadas La Guapa, as gravações do programa de TV e, mais recentemente, as viagens para lançar seu primeiro livro, Todas as sextas (“A minha biografia e mais de 90 receitas”) – uma “tarde de abraços” está marcada para o dia 16 em Porto Alegre. Na entrevista a seguir, ela fala sobre como mantém a sintonia entre tantas atividades, como convidada da campanha da Activia Vivendo InSync, que incentiva as mulheres a encontrarem o equilíbrio.

Como é ser uma chef estrangeira no Brasil?
Nunca amei tanto um país como amo o Brasil. Eu saí da Argentina com 27 anos e não sei se cheguei a me relacionar tanto com um país quanto me relaciono com o Brasil, porque tenho uma filha brasileira e mais de cem colaboradores que trabalham comigo. Cuido deles e de suas famílias, são muitas pessoas. Eu não vejo fronteiras. Não sinto que não sou daqui. O que eu gostaria de perguntar, quando recebo comentários agressivos em redes sociais, é: o que te faz ser brasileiro? Nascer aqui ou fazer o máximo que você puder pelo país no qual você está?

Por que ainda há mais chefs homens conhecidos, apesar de a cozinha ter sido por muito tempo um espaço feminino?
Nossa saída para o mundo profissional ocorreu há um espaço de tempo curto, e a mulher se aventurou na cozinha profissional há não muito tempo. Por isso, a cozinha ainda continua sendo um trabalho onde os homens têm mais espaço. Acho que tem a ver com o fato de que é um trabalho muito duro fisicamente. As mulheres podem estar e fazer o que elas quiserem, mas o trabalho em restaurante é pesado e muito ingrato para o corpo de uma mulher. Os horários também. Isso faz com que a quantidade de mulheres que se aventuram a isso seja menor. Temos grandes chefs mulheres, mas são menos.

No primeiro episódio do “MasterChef profissionais”, um participante teve dificuldade em cumprir suas ordens. Como uma mulher se impõe nesse universo?
Há muito anos eu não enfrentava uma atitude assim, pois tenho minhas equipes formadas e não preciso dar ordens no meu restaurante. Criamos uma harmonia de trabalho em equipe e entendemos que a hierarquia existe porque é necessária para o resultado final, e não porque um é mais importante do que o outro. Mas o primeiro episódio do MasterChef profissionais foi supertenso. Acho que o participante pensou “você é chef de cozinha, mas eu também estou aqui para mostrar quem sou”. E mostrou quem ele era.

O que você cozinha em casa?
Moro com a minha filha (Francesca, de cinco anos). A dona Isabel, que trabalha comigo há mais de 15 anos, vem todas as manhãs e temos um jeito de nos organizar. Ela cozinha arroz, quinoa, lentilha, feijão, brócolis e quiabo refogado com alho e cebola e guarda na geladeira em potes de vidro. Depois, o que fazemos à noite é ir juntando essas coisas em diferentes combinações. Todos os dias, faço o café da manhã, para mim e minha filha, e cozinho aos sábados e domingos quando estamos em casa. Minha comida é muito simples, saudável, orgânica e com muita verdura.

PAOLA em POA
A chef Paola Carosella vai participar de uma tarde de autógrafos no dia 16 de novembro, às 18h30min, na Livraria Saraiva do Shopping Iguatemi, em Porto Alegre. Poderão participar os leitores que tenham em mãos o livro “Todas as sextas” (Editora Melhoramentos). Disponibilidade de 250 senhas, com retirada a partir das 17h. A senha é pessoal e intransferível.

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