40 anos do Ballet Vera Bublitz: conheça a história de mãe e filha que formaram milhares de bailarinas em POA

Foto: Jefferson Botega/Agência RBS.
Foto: Jefferson Botega/Agência RBS.

Camila Maccari, especial

Quando assistiu, em vídeo, a Fernando Bujones fazer uma reverência para Cynthia Gregory no balé Paquita, Vera Bublitz fez um pedido. Um dia, queria o então principal bailarino do New York City Ballet Company repetisse a mesma homenagem para uma de suas alunas. Quando o sonho se realizou, em uma performance de Paquita no palco do Theatro Leopoldina de Porto Alegre, Vera sabia que estava vivendo um dos grandes momentos da carreira. Outro será celebrado neste final de semana: o espetáculo Carmina Burana e Alice marca os 40 anos da escola Ballet Vera Bublitz, completados em 2019.

Foi em 1979 que Vera mudou-se com a família para Porto Alegre e abriu a escola que hoje conta com duas sedes. Mas lembra que a trajetória sólida e o nome reconhecido no cenário começaram a ser construídos cedo. O balé entrou em sua vida aos cinco anos, com a chegada de uma bailarina russa na cidade on nasceu, Florianópolis. Quando se casou com Carlos Bublitz, aos 16, e mudou-se para Ibirubá, no interior gaúcho, transformou a dedicação da infância e adolescência em profissão. Mas foi só em 1966, ao se transferir para Cruz Alta, que abriu a primeira escola. Da época, recorda a experiência de se dividir entre municípios da região, como Ibirubá e Panambi, para dar aulas – algo comum até hoje entre professoras de dança do Interior. Lembra também da filha Carlla bebê, que a acompanhava nas aulas e que, “praticamente saiu do cercadinho para a barra”. Aos 10 anos, enquanto acompanhava a mãe, Carlla conseguiu uma vaga no Instituto Superior de Artes do Teatro Colón e chegou a ser convidada para fazer parte da companhia. Mas decidiu voltar pacasa sem deixar a paixão de lado. Anos depois, concluiu o curso superior em Dança na Sorbonne, Paris IV, fez uma segunda faculdade em Artes do Espetáculo (menção em dança) na Paris VIII e também cursou mestrado em Ciência da Educação, fundamental – para, de acordo com Vera, tratar cada aluno em sua individualidade.

Foto: Jefferson Botega/Agência RBS.

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Carlla voltou com uma formação que se somava à experiência da mãe e, desde então, conduzem juntas a escola Ballet Vera Bublitz, dividindo a direção criativa em uma “parceria privilegiada” que dura décadas e extrapola a relação mãe e filha. Durante nossa conversa em uma das sedes, as duas terminavam frases e complementavam as ideias uma da outra, demonstrando total sintonia.

– Eu digo que Carlla, hoje, é a locomotiva da nossa escola. Estou sempre aqui, faço tudo o que tem que fazer, mas vou com ela, agora é ela quem decide. Antes, era eu quem fazia contato com os bailarinos das melhores companhias e os trazia para cá, agora isso também fica a cargo da Carlla – explica Vera, hoje com 74 anos.

É a filha também quem leva os alunos que sonham com uma carreira no balé para audições e festivais em países como Estados Unidos, Suíça e Alemanha. Perderam a conta já de quantos jovens formados na escola agora fazem parte de importantes companhias e escolas ao redor do mundo. Bailarinos como os que cercam Vera e Carlla na imagem que você vê acima: no dia da entrevista, o ensaio iniciado às 15h30min seguiria até as 21h30min. Entre os alunos, vários já ganharam bolsas de estudo em escolas de prestígio.

As viagens expandem ainda mais a rede de relações de mãe e filha com os maiores nomes do balé mundial – como o próprio Bujones, morto em 2005 . Estar entre os melhores sempre foi um objetivo. Quando Vera criou a escola, comprometeu-se em trazer nomes de referência e estrelas internacionais para expandir o balé clássico no Estado.

– É uma das maneiras de mostrar a excelência que sempre buscamos. Sempre quis mostrar que os alunos da minha escola estavam prontos para dançar com os melhores do mundo – afirma.

O intercâmbio ao longo dos anos favoreceu um cenário mais amplo para a dança clássica em Porto Alegre que culminou no 1º Festival Internacional de Dança de Porto Alegre em junho deste ano. Ao todo, foram distribuídas 40 bolsas de estudo para instituições estrangeiras. No corpo de jurados, nomes como Cynthia Hervey, diretora artística da JKO American Ballet Theater School, de Nova York, e Michel Gascard, diretor da École-Atelier Rudra Béjart, de Lausanne, na Suíça.

A formação de bailarinos aptos a concorrer a vagas de prestígio sempre envolveu disciplina e rigidez – algo que mãe e filha apontam como receita de sucesso para aprender a técnica e dedicar-se ao trabalho intenso. Mas uma rigidez amorosa que é recebida com carinho por quem passou pela escola – mesmo aqueles que nunca sonharam em se profissionalizar e que são a maioria. A nutricionista Cláudia Vilella da Silva teve aulas com Carlla desde os nove e foi bailarina principal da escola durante seis anos. Hoje, aos 31, segue como aluna do Ballet e vê na “tia Carlla uma segunda mãe que a ajudou a conquistar metas, objetivos e ultrapassar barreiras”. Assim como a juíza de Direito Flavia Maciel Pinheiro Giora, que teve aulas com Vera por 20 anos e sente que a dedicação empregada extrapola a dança.

– A arte do balé é um castelo que deve ser construído tijolo a tijolo e que só traz resultados depois de um certo tempo de dedicação, assim como na vida. Além disso, as amizades feitas naquele período de intenso crescimento perduram até hoje, o que me traz enorme satisfação por perceber que aqueles que tiveram um toque do Ballet Vera Bublitz souberam alcançar seus objetivos profissionais e pessoais, com valores que vêm da época.

Esse tipo de relato integra a lista que faz Vera sentir que “cumpriu sua missão de maneira satisfatória”. Nos bastidores, longe dos olhos públicos e do “glamour momentâneo” dos espetáculos, lembra que a paixão que a move também a ajudou a mover sonhos de cerca de 15 mil pessoas ao longo dessas quatro décadas.

– A vida se torna bem compensadora nesse sentido porque são valores reais, o foco, a disciplina, o esforço, a crença nos sonhos. Me alegro imensamente em poder ter construído isso na vida de tantas alunas. Eu me sinto útil, ajudei a educar e a melhorar o ser humano, trabalhei com algo que só constrói. Quando tu vais a um teatro e vê a beleza da dança, todo o esforço e energia que está ali, tu sente o quanto essa construção é positiva para o mundo.

Nesse domingo, elas celebram os 40 anos com Carmina Burana e Alice – e a promessa de um espetáculo digno de companhia de dança. A linha tênue que separa uma escola de uma companhia, aliás, é o que envolve outro momento marcante: ao vir dançar Apollo, Peter Boal, então primeiro bailarino do NYC Ballet, beijou a mão de Vera depois do ensaio e disse que estava confuso:

– Ele me perguntou se eu tinha certeza que era uma escola e não uma companhia de dança, porque a qualidade era digna das melhores companhias – lembra, sorrindo.

Uma das bailarinas na ocasião era Carla Körbes que, incentivada por Boal, mudou-se para os Estados Unidos, onde foi solista do NYC Ballet e primeira bailarina do Pacific Northwest Ballet, em Seattle, somando-se a outra lista: a de quem começou com Vera Bublitz Ballet e realizou o sonho de uma carreira no balé.

Carmina Burana e Alice

O espetáculo será apresentado neste domingo (2), às 15h e às 19h, no Teatro do Sesi (Av. Assis Brasil, 8.787). Ingressos a R$ 200 (plateia baixa), R$180 (plateia alta) e R$130 (mezanino), com desconto de 50% nos bilhetes comprados até este sábado nas sedes da Lucas de Oliveira, 158 e Corte Real, 227.

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