A chefinha da casa

Geração de meninas segue a tendência de desenvolver personalidades forte

Aos cinco anos, Gabriela Greco gosta de mostrar autonomia
Aos cinco anos, Gabriela Greco gosta de mostrar autonomia Foto: Emilio Pedroso

Gabriela Greco tem cinco anos, se apresenta com jeitinho tímido. Aos poucos, vai se soltando e dando sinais de sua forte personalidade. Enquanto sua mãe fala, ela se senta em seu colo, toma conta do notebook, tenta interrompê-la algumas vezes e, diante do insucesso, franze as sobrancelhas e vai aumentando a voz até ser ouvida: Mãe, como é que se escreve Aline? Só sossega com a resposta.

Gabriela não é uma menina incomum e segue, de certa forma, a tendência de uma geração, principalmente de garotas que desenvolvem essa personalidade mais mandona, com maior autonomia. É um reflexo da evolução do maior referencial da criança, a família. Se há algumas décadas as mulheres, de maneira geral, eram criadas por mães cuja maior ambição era casar e ter filhos, hoje encontrar casos assim é cada vez mais raro.

Para a psicóloga Solange Lompa Truda, especializada no trabalho com crianças e adolescentes, as mães assumem função tanto materna quanto paterna, distanciando-se mais da figura do passado, da mãe acolhedora, disponível 24 horas por dia para o filho. Antes, era o pai o responsável por dar o limite, impor as regras.

– Pela evolução do papel da mulher na sociedade, disputando mercado de trabalho, a criança não tem mais a mãe totalmente disponível. Ela continua dando o referencial do cuidado materno, mas manda também a mensagem de desafio, de luta. Hoje, a linha que divide o papel da mãe e do pai é muito tênue – diz.

Na escola onde Gabriela estuda, a palavra final é sempre da mãe, Agnes Silva. Ela é a diretora da instituição. Convivendo com este exemplo tão presente, da mãe que toma decisões, a menina criou intimidade com este universo de hierarquia e já lança tentativas de imitar Agnes. Em casa, larga expressões como “eu quero ver este canal porque eu que mando”. Na escola, é chamada de “chefinha”. E não porque é filha da diretora.

– Ela tem muito essa ideia, essa noção da hierarquia, de quem é que manda no ambiente. Certa vez, ela disse a uma professora substituta que “minha mãe é quem manda aqui” – lembra Agnes, que procura repreender este tipo de comportamento não dando à pequena livre acesso à sala da direção.

Tentar se impor aos pais, mandar no canal de televisão, fazer birra quando não ganha um brinquedo são características comuns nas crianças. Em algumas, no entanto, a personalidade e o temperamento forte fica evidente em situações corriqueiras como estas e merecem maior atenção dos pais. Afinal, uma criança, menino ou menina, que cresce sem limite tende a lidar com as frustrações com maior dificuldade.

Solange e Agnes, que também é psicóloga, consideram o sentimento de culpa um dos responsáveis pela dificuldade em impor regras aos filhos.

– O tempo que os pais ficam com os filhos é cada vez menor. Então, nas poucas horas que têm juntos, eles se sentem culpados se não atendem aos pedidos do filho.

E nunca é demais lembrar, como sustentam as psicólogas: dar limite é educar.

Pais são autoridade em casa

:: Na preocupação de não frustrar os filhos, os pais perdem o domínio da disciplina familiar, que é o respeito básico para que a criança aceite regras e normas na escola e na vida.

:: Não há como educar os filhos sob uma “redoma” onde tudo é permitido e aceito. A sociedade vai cobrar do seu filho limites, atitudes e valores.

:: Ao tentar transmitir limites aos filhos, os pais lidam com seus próprios problemas relacionados à maneira pela qual estes foram impostos a eles. Por isso, colocar limites é tão complicado.

:: Cada família e cada criança são diferentes. Contudo, é fundamental que os pais revejam atitudes, crenças e valores, procurando transmitir aos filhos apenas aquilo que lhes é legítimo.

:: Os pais devem sempre representar figuras de autoridade. Isso não quer dizer que sejam autoritários ou punitivos.

:: A criança imita não só o que é falado, mas também o que é expressado e atuado em casa. Por isso, pais devem agir de acordo com o que falam, “fazemos o que dissemos”.

:: Fique atento aos acessos de mau humor de seu filho. Nem sempre são demonstrações de temperamento forte. Os acessos de birra são ótimas oportunidades para ensiná-lo a encontrar alternativas e aprender a superar frustrações.

:: Se nada mudar o comportamento instável da criança, procure ajuda de um profissional especializado. 

:: É preciso desenvolver a capacidade da criança adiar a satisfação.

Fonte: psicóloga Solange Lompa Truda

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