A estilista brasileira que faz sucesso no mundo criando com lixo

Baby Steinberg, radicada no Canadá, apresenta seu trabalho em Porto Alegre em 2013

Foto: Félix Zucco

Faltava uma semana para a Nuit Blanche 2008, virada cultural de Toronto, quando o artista que iria expor no restaurante de uma das melhores amigas de Baby Steinberg cancelou a presença. Para ajudá-la, Baby, que à época era enfermeira e confeccionava bijuterias como hobby, criou, sem grande expectativa, cinco vestidos feitos de lixo eletrônico, com aparelhos celulares inutilizados.

Foi um sucesso, e a brasileira engrenou diretamente uma coleção para a Semana Alternativa de Artes e Moda, que antecipou sua participação na semana de moda oficial da cidade, em outubro de 2009, com 10 peças trabalhadas em plástico e eletrônicos. Além do rápido crescimento da carreira, a originalidade de aproveitar o material que iria para o lixo para criar vestidos lhe rendeu um prêmio de brasileira destaque recebido no dia 3 de setembro, no Brazilian Day, em Toronto, cidade que reside.

Natural do município de Capinzal, em Santa Catarina, Baby se considera gaúcha. Com pouco mais de um ano foi morar em Passo Fundo, região norte do Estado, e
aos 15 instalou-se em Porto Alegre, na Rua Luiz Afonso, no bairro Cidade Baixa. Por isso, de passagem pela cidade, na semana passada, fez questão de ficar em um hotel
na região.

Há 14 anos radicada no Canadá, a estilista sente falta da gastronomia típica do Rio Grande do Sul, como o sagu, delícia que nunca falta em suas visitas por aqui.

– Antigamente, eu chegava e ia direto do aeroporto para o Bar do Beto. Não foram poucos os quilos ganhos em visitas e filés à parmegiana – brinca.

A semente da moda foi plantada justamente em Porto Alegre, quando, ainda adolescente, Baby admirava uma tia que costurava. Aprendeu com ela a tricotar. Nos aniversários, em vez de presentes, pedia novelos de lã de presente aos pais.

O apelido que virou sua assinatura também surgiu na mesma época. Fã de Pepeu Gomes, costumava pintar os cabelos de cor-de-rosa e cantar imitando Baby Consuelo.
De Naira, seu nome de batismo, transformou-se em Baby, xará da cantora.

– Se eu soubesse que iria morar fora, não teria assumido o apelido – revela, contando que o codinome já lhe trouxe problemas no Exterior.

– Já quiseram até comprar briga por acharem que estavam me passando
cantada –  diverte-se.

Uma diferença cultural bastante aguçada entre o Brasil e o Canadá, segundo ela, refere-se ao lixo produzido em cada país. Na praia da Ferrugem, recolheu guarda-sóis quebrados para aproveitá-los em algumas peças; no Canadá, o vestido que fez mais sucesso na coleção passada foi produzido com filtros de café.

No Canadá, conta Baby, a cultura do “coffee to go” é muito forte e são utilizados cerca de 300 mil filtros de café por dia. Um gerente de uma cafeteria gostou da proposta
ecologicamente correta e se propôs a juntar e lavar todos os saquinhos, o que foi fundamental para a concretização da obra.

– É um material muito resistente. Esse vestido viajou muito e continua inteiro -comemora.

No Brasil, seu alvo principal são as sacolas plásticas dos supermercados. Com o uso de ecobags em prática no Canadá, Baby achou curioso a quantidade de sacolas que caíam em desuso e resolveu transformá-las em roupas. Ao todo, só na fabricação
de um vestido longo, foram utilizados 500 exemplares. Além de costurá-las, Baby trança o material para os detalhes finais. Outro artefato bem aproveitado por ela – e um
dos seus preferidos – são os rolos de fita VHS:

– Dão um efeito festa. Parece paetê.

Para a próxima coleção (veja algumas criações de Baby abaixo), quer trabalhar com tecidos produzidos a partir da reciclagem de garrafas pet com tingimento natural.
Pretende também viajar com a exposição Salvage – O Requinte do Resto, com 15 de suas peças mais extravagantes. A mostra foi um sucesso em São Paulo, onde
ficou aberta para visitação na Caixa Cultural entre abril e maio, e deve
vir a Porto Alegre no início do ano que vem.

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