A hora de parar de tentar

O sofrimento do casal, sobretudo da mulher, é o que determina o momento de interromper as tentativas de reprodução assistida

Tentativas frustradas de reprodução assistida podem ser muito doloridas
Tentativas frustradas de reprodução assistida podem ser muito doloridas Foto: Jefferson Botega

Desde o nascimento, há 30 anos, de Louise Brown, o primeiro bebê de proveta, a medicina reprodutiva se tornou um dos campos mais férteis em descobertas. Amparados por técnicas sofisticadas, especialistas conseguem hoje mudar o destino de casais com problemas para gerar filhos pelo método natural e, em muitos casos, igualam suas chances reprodutivas às de casais normais – que gira em torno dos 30% a cada mês. Quanto mais procedimentos forem feitos, maiores as chances de a gravidez ocorrer. Mas até quando é possível esperar pelo teste positivo?

Especialistas dizem que não há um limite máximo de tentativas – que, no jargão médico, ganham o nome de ciclos. O basta, slienta o presidente da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida, o médico gaúcho Eduardo Pandolfi Passos, é dado pelo sofrimento do casal, sobretudo da mulher. É ela quem tem de tomar as desconfortáveis injeções de hormônios para induzir a ovulação e ser submetida a exames freqüentes que avaliam a maturação do gameta. Além de caros, os procedimentos geram angústia. Até a chegada do resultado, os níveis de estresse vão às alturas e podem piorar se o teste der negativo.

– Quando o casal procura um médico para engravidar, já existe um nenê imaginário na cabeça. Quando a gravidez não ocorre, a frustração é enorme e sofrida – detalha Passos.

Há também uma barreira biológica que a ciência ainda não conseguiu ultrapassar: a menopausa. Uma mulher fértil aos 40 anos tem apenas 10% de chances de engravidar a cada mês. Se for detectado algum problema, a possibilidade pode ficar próxima a zero – isso justamente no período em que o tempo é o pior inimigo.

– Mesmo tendo alternativas de tratamento, não há tanto tempo para fazê-las sem risco de ver esgotada a reserva ovariana da paciente. Os avanços antes impensáveis obtidos nos últimos anos deram uma falsa impressão de que a medicina pode resolver tudo, como se a reprodução assistida fosse uma varinha de condão. Mas ela não é – avisa a chefe do Serviço de Ginecologia do Hospital São Lucas da PUCRS, Mariangela Badalotti.

Para não sofrer a ameaça do inclemente relógio biológico feminino, os médicos recomendam não postergar a gravidez para depois dos 35 anos sob pena de tornar dolorosa e cara a espera de um filho. Segundo o professor da UFRGS João Sabino da Cunha Filho, pós-doutor em reprodução humana pela Universidade de Paris, o casal deve procurar ajuda depois de um ano – ou menos, dependendo da idade da mulher – tentando sem sucesso engravidar pelos métodos naturais.

– Em geral, os casais chegam muito tarde ao consultório de um especialista – lamenta.

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