A idade da loba: a vida com menos peso

Avanço da liberdade permite que as mulheres maduras ousem mais

Assim como a loba da peça de Christiane Torloni, mulheres de 40 a 60 desafiam mais preconceitos
Assim como a loba da peça de Christiane Torloni, mulheres de 40 a 60 desafiam mais preconceitos Foto: Lenise Pinheiro, Divulgação

Na teoria de Freud, aos 40 anos, o homem ingressava em uma encruzilhada onde vitalidade sexual, atitudes de autoafirmação e medo do envelhecimento se confrontavam. Era a idade do lobo.

Com a liberação sexual, as mulheres assumiram o mesmo papel. Só que hoje, em meio à revolução da espécie e da tecnologia, elas se rebelam e querem ser lobas não somente aos 40, mas aos 50, 60 ou 70 anos.

Mudança de planos, carreira profissional mais longa e consolidada e desejos à flor da pele se reordenam em um mesmo plano de vida e são parte do orgulho da mulher que encontra novos prazeres, vai atrás do direito à felicidade e do poder da individualidade. O bem-estar estaria ligado, de acordo com a psicóloga clínica Juliana Antunes Laydner, à busca por relacionamentos diferentes àqueles do passado e à vontade de viver sem o peso de ter de reconstruir uma nova família depois do primeiro ou do segundo casamento.

– O mundo e as mulheres mudaram. Há alguns anos, ela tinha uma vida mais estável, mais comum e sabia o que iria acontecer com ela após os 40. Hoje, as lobas querem aproveitar a vida e permitem, inclusive, relações homossexuais – diz Juliana.

O sentido pecaminoso e proibido do amor entre duas mulheres, aos poucos, vem perdendo força. E elas, assim como a loba de Christiane Torloni, desafiam mais preconceitos e deixam para trás histórias de vidas sufocadas. A figura do homem também mudou: as mulheres de 50 ou 60 anos, que passam por definições e análises daquilo que já construíram, percebem que eles já não são tão necessários para o prazer e para manter a casa. O homossexualismo, nesses casos, é uma forma de refúgio da ideia de que o homem não é a única saída para suprimir carências femininas.

– É hora de pensar: se, aos 50 anos, eu não permitir ter prazer, vou fazer isso quando? – questiona a especialista

Além disso, aos poucos, a sociedade permite novos relacionamentos e opções, e as mulheres defrontam-se com o mundo virtual para conhecer outras pessoas e manter contatos antes do encontro real. Para a ginecologista e sexóloga Florence Zanchetta Coelho Marques, a tecnologia e o avanço da liberdade está permitindo que mulheres mais maduras tenham fantasias e coloque-as em prática.

Nesse mundo de constante mudanças, dois aspectos ainda ressoam nas quatro paredes dos consultórios de terapia: a traição e o ciúme. Algumas justificativas estariam em pesquisas, como a conduzida pelo Projeto de Sexualidade da USP (ProSex) – que detectou que 50% das brasileiras têm problemas com a ausência de desejo e falta de orgasmo – e um estudo da Universidade de Hamburg-Eppendorf (Alemanha) – que revelou que a maioria das mulheres tem diminuição do desejo sexual quando mantém uma relação estável.

Para especialistas, a estabilidade e a falta de tesão ajudariam a alavancar o desejo da traição e o ciúme – já que, em circunstâncias de baixa autoestima, alimentaria o sentimento doloroso do direito de posse.

– Evoluímos com a permissividade sexual? Ainda estamos pouco evoluídos afetivamente, firmando posses. As mulheres precisam estar centradas, seguras de si próprias. Precisam desejar o que realmente é importante – analisa Juliana.

O bem-estar das lobas com mais de 40 anos estaria ligado à busca por relações diferentes e à vontade de viver sem o peso de reconstruir uma nova família depois do primeiro ou segundo casamento.

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