A incrível trajetória da cantora gaúcha Mirianês Zabot

A cantora Mirianês Zabot vem a Porto Alegre lançar o CD Mosaico Foto-Prosaico. Na trajetória, um incrível salto direto de Passo Fundo para São Paulo

Foto: Barbara Crepaldi/Divulgação

Mosaico Foto-Prosaico. Difícil ficar indiferente ao título do CD da cantora Mirianês Zabot. Convida a uma pausa para imaginar como seria um mosaico foto-prosaico. Mirianês Zabot também é um nome que pede para voltar e reler.

Mirianês é uma jovem veterana de 31 anos, envolvida com música desde os 12. É uma trajetória incrível, que começa em Ciríaco, passa por São Domingos do Sul, Nova Bassano, Passo Fundo e, em 2006, dá um salto direto para São Paulo.

Mirianês viveu até os 14 anos na propriedade rural em que os pais moram até hoje. Fica no interior do interior do distrito de São João Bosco (não mais de 50 casas), que por sua vez fica no interior de Círiaco, munícipio vizinho de São Domingos do Sul (3 mil habitantes):

– Morei em um daqueles tantos prédio enormes de São Paulo, que tinha mais de 3 mil moradores. Fiquei apavorada quando descobri que havia “minha cidade” dentro do meu prédio (risos).

Mirianês cresceu ouvindo e falando o português da colônia italiana – aquela adição de esses e supressão de erres. Depois, veio a mistura com o sotaque de Passo Fundo e, finalmente, entraram no caldeirão as melodias das vozes de todo o país com quem ela convive em São Paulo.

– Ouvidos mais desatentos nem sempre conseguem perceber que sou gaúcha.

No CD, as primeiras palavras revelam uma pronúncia doce, um desenho melódico que não entrega a origem. O repertório, um rica variedade de gêneros da MPB, exige de Mirianês “nuances brejeiras num maracatu, interpretação jocosa num samba, leveza romântica num fox, dramaticidade urgente para um rap, ternura para um tema de amor, e até mesmo um acento interpretativo nordestino para um galope”, enumera o crítico Toninho Spessoto, fechando o comentário com rasgados elogios à “enorme capacidade de captar intenções da cantora, uma das melhores surpresas da cena musical”.

O projeto de Mosaico Foto-Prosaico começou em Passo Fundo com uma gravação demo do CD. Com a mudança para São Paulo, o projeto independente em andamento foi finalizado e lançado em 2009. Na capital paulista, Mirianês foi apresentada ao ex-baixista do Zimbo Trio Itamar Collaço, que ficou encantado com o trabalho, acabou coproduzindo o CD e convidou para a gravação o pianista Marinho Boffá e o baterista Percio Sapia.

– São pessoas de um talento e uma generosidade ímpares. A oportunidade de ter um primeiro disco gravado com eles é uma dádiva!

No repertório, uma saborosa salada com maracatu, samba, valsa, fox, galope, baião, forró, calango. Uma lista eclética de gêneros em releituras de gravações de nomes consagrados, como Paulo Cesar Pinheiro e Paulinho Tapajós, e canções inéditas de novos letristas. Entre uma dúzia de compositores gaúchos, aparecem Alegre Corrêa, Jerônimo Jardim e Caetano Silveira.

– Tive a honra de gravar vários compositores gaúchos que têm trabalhos belíssimos. Ter a confiança e o respeito desses artistas é uma conquista imensa – reitera. – Nos shows que venho apresentando pelo Brasil, vai se formando um público para o trabalho de uma cantora não conhecida que interpreta canções de compositores não conhecidos. Por isso é tão bacana ouvir as pessoas cantando junto comigo um repertório que até outro dia era inédito.

O DVD ao vivo foi lançado depois do CD. Gravado na Unicamp, têm uma cenografia minimalista que conversa com o ensaio fotográfico que a fotógrafa Bárbara Crepaldi realizou para capa, o encarte e a galeria do site www.mirianeszabot.com.br. O figurino tem uma história peculiar. A jornalista, cantora e figurinista Deise Cristina Meneguzzi, natural de São Domingos do Sul, atualmente morando em Serafina Corrêa, é uma grande amiga que acompanha a trajetória musical da quase conterrânea (“amiga e presidente do fã-clube”, sublinha Deise). Por e-mail, as duas foram trocando informações – medidas de cintura e quadril vêm, esboços vão, informações musicais são acrescentadas – e surgiram as tramas do figurino:

– Ela ouviu o CD e desenvolveu a ideia de unir o refinamento do cetim ao trançado do trabalho rústico e manual, em cores quentes e vivas. É um entrelaçar de vida e arte.

No próximo sábado, dia 1º, às 19h30, na Livraria Cultura do Shopping Bourbon Country, Mirianês traz a Porto Alegre o pocket show Mosaico Foto-Prosaico, acompanhada pelo violonista porto-alegrense Jefferson Marx. Depois, retorna a São Paulo para prosseguir com os shows Minha Terra Alheia e Homenagem a Elis Regina e Tom Jobim, e ainda o baile Gafieiras e Outras Verves. Ela tem também trabalhos de palco, em shows, espetáculos teatrais, festivais e bandas, além de trabalhos em estúdio, gravando trilhas para teatro e participações em discos de outros músicos.

– Sim, vivo há vários anos exclusivamente da música – confirma ela, feliz em morar na cidade onde se encontrou musicalmente e onde às vezes encontra pequenas frestas de infância. – Para minha alegria, posso deitar na rede e ver as árvores perto da minha janela, vez que outra uns passarinhos e o céu muitas vezes bem azulzinho.

Pois é, São Paulo pode ser insuspeitadamente generosa com quem merece.

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