A influência de Hitchcock sobre as mulheres

Filme que conta bastidores de clássico do cinema estreia em fevereiro relembrando as atrizes preferidas do mestre do suspense

Tippi Hedren, musa de "Os Pássaros", em 1963
Tippi Hedren, musa de "Os Pássaros", em 1963 Foto: Reprodução

Alfred Hitchcock adorava loiras, mas dispensou Marilyn Monroe porque a considerava muito “óbvia”. É surpreendente, portanto, que Scarlett Johansson – o equivalente a uma Monroe dos dias atuais, com direito a curvas e lábios carnudos – tenha sido escalada para estrelar, no próximo mês, o filme biográfico Hitchcock, que narra o making of de Psicose.

Ela interpreta Janet Leigh, uma mulher mais dentro do molde recatado preferido por Hitchcock. Mesmo que a escolha do elenco possa parecer forçada, uma coisa é certa: o filme vai incentivar um novo encontro entre a moda e as heroínas do diretor.

As heroínas de Hitchcock tornaram-se ícone de estilo e personificam um clássico que volta como referência às passarelas de vez em quando. Alexander McQueen apresentou uma coleção inspirada em Hitchcock para o outono-inverno de 2005 que se tornou uma de suas mais populares, com suéteres de lã angorá, cabelos impecáveis e saias e ternos sequinhos. Nesta temporada, Miuccia Prada desenvolveu, para a marca Miu Miu, saias-lápis acima do joelho, sobretudos, luvas e bolsas elegantes, que parecem ter saído diretamente de um dos últimos filmes do diretor, Marnie.

No entanto, em certo sentido, a influência da temporada é quase irrelevante. A heroína de Hitchcock existe fora do campo da moda, seja ela Kim Novak vestida de cinza em Um Corpo que Cai, Grace Kelly de saia rodada em Janela Indiscreta, ou Tippi Hedren em seu terno esverdeado no filme Os Pássaros. Mesmo as pessoas que não se preocupam com a roupa podem nomear seus ingredientes: saias-lápis, cabelos arrumados, sobrancelhas apropriadas e ternos que enchem a tela, todos fielmente recriados em Hitchcock.

– Hitchcock teve um grande estilo. Meu trabalho era fazer com que o público voltasse àquela era. Os atores estão interpretando personagens que pertencem a todos – diz Julie Weiss, figurinista do filme.

– Para o designer Marios Schwab, que se inspirou em Novak e em uma brilhante Marlene Dietrich no filme Pavor nos Bastidores, de 1950, para criar sua coleção de outono-inverno, a heroína de Hitchcock é alguém para quem ele sempre vai voltar.

– Hitchcock esteve lá (como referência) desde que eu comecei a olhar para a femme fatale – diz ele.

– São mulheres que você vê e se apaixona, mas não sabe quem são.

Apesar do caso de amor de longa data entre a moda e os filmes de Hitchcock, a curadora de figurinos de Hollywood e do museu Victoria & Albert, Deborah Landis, diz que moda era a última coisa em que o diretor e sua colaboradora de figurino, Edith Head, pensavam. Landis rejeita a ideia da heroína de Hitchcock enquanto ícone da moda.

– Head sempre disse que Hitchcock nunca quis qualquer chamariz. Ele usa a moda como uma ferramenta. Os Pássaros é um filme de perseguição, onde Tippi fica mais e mais angustiada. Você não poderia ter uma cor que fosse chamativa. A atriz tinha que preencher o quadro e nada poderia distrair o público em relação a isso. Daí vem o tom esverdeado que Schwab admira tanto.

Ainda assim, ao mesmo tempo em que Hitchcock dispensou os caprichos da moda, ele compreendeu o poder da roupa. Ela é fundamental em muitos de seus clássicos. O terno cinza que Novak usa em Um Corpo que Cai tornou-se um objeto de obsessão para o personagem de James Stewart. A bolsa de médico amarela que Hedren possui em Marnie permanece por mais tempo em cena nos primeiros cinco minutos de filme do que a própria atriz. Norman Bates é iconicamente sinistro quando usa um vestido de sua mãe em Psicose.

É essa conexão entre roupas e personagens, tão bem assegurada nas mãos de Hitchcock e Head, que acende a imaginação da moda. Ao mesmo tempo em que há uma admiração melancólica por um glamour que deixou de existir em um mundo onde as mulheres não precisam mais usar luvas toda vez que saem de casa, também nos sentimos atraídos pelo suspense do “nada-é-bem-o-que-parece” que elas representam.

– Não é uma questão de roupas nem de sentimento retrô. É a aura e o cinema – diz Schwab. Francesca Burns, editora de moda da Vogue, concorda. Ela diz que aprecia o “equilíbrio perfeito entre experiência, fascínio, vulnerabilidade e valentia”, apesar de não ser muito nostálgica. Como figurinista de The Girl, Diana Cilliers teve a difícil tarefa de recriar roupas como o famoso terno de Os Pássaros. O drama da BBC/HBO, transmitido durante o Natal, contou a história às vezes angustiante de Hedren e Hitchcock, e Cilliers moldou um guardaroupa de heroína de Hitchcock para Sienna Miller vestir.

– Havia alguns itens que nós apenas copiamos, como o terno de Os Pássaros e a bolsa amarela de Marnie – diz Cilliers – De outro modo, nós procuramos manter as linhas simples e as cores. Nada muito espalhafatoso. Cilliers acha que o estilo tem resistido ao teste do tempo precisamente porque é livre da desordem.

– Foi sempre uma questão sobre a forma, e sobre a forma feminina. Essas coisas são eternas.

Para Landis, entretanto, é o personagem que se mantém chave.

– É questão de criar um indivíduo autêntico. Filmes apenas influenciam a moda se forem bem sucedidos. O público tem que ser seduzido.

O grande mestre Hitchcock

A passarela reverencia o mestre

A atmosfera de suspense de Alfred Hitchcock teve sua versão em passarela brasileira. O clássico Os Pássaros serviu de ponto de partida para a magnífica coleção de inverno 2013 da Tufi Duek, desfilada na última edição da SP Fashion Week. Sob direção criativa de Eduardo Pombal, a proposta da grife trouxe o preto como cor-chave – inspirada na figura do corvo.

Malha de lã, renda resinada e paetês especiais surgiram em peças incríveis com brilhos, foscos e diferentes texturas. O lindo trabalho com esses materiais contribuíam para diferenciar de forma sutil e muito elegante um look do outro.

As modelos com franjas aplicadas e sobrancelhas bem marcadas desfilaram com luvas, botas e sandálias com metros e metros de cadarços que escalavam as pernas e arrematavam com maestria o visual power & dark de Pombal.

Essa reverência ao gênio do suspense costuma pontuar belas coleções de grandes estilistas, como aquela clássica que Alexander McQueen apresentou em 2005, com uma profusão de silhuetas sequinhas. A polêmica utilização da pele, muito comum nos figurinos dos filmes do diretor, foi contemplada recentemente pela não menos polêmica e autoral Miuccia Prada em sua proposta para a Miu Miu.

Ana recria divas

O estilo impecável e sempre elegante das atrizes de Hitchcock foi o ponto de partida para a criação da nova coleção da brasileira Sara Joias. Anéis, colares, brincos e pulseiras foram inspirados em 10 filmes do diretor. A atriz Ana Furtado foi escolhida para estrelar a campanha de divulgação e em belas imagens interpreta as mocinhas de Hitchcock em fotos feitas por Fernando Torquatto, que também assina a maquiagem da sessão. A releitura dos cabelos das musas ficou por conta de Mara Evangelista, que recriou o milimétrico estilo de Grace Kelly em Janela Indiscreta, o bagunçado de Tippi Hedren na fuga dos pássaros assassinos no filme de 1963 e o curtinho da famosa cena de Psicose.

* Confira abaixo as fotos do ensaio de Ana Furtado, por Fernando Torquato:


Janela Indiscreta

Trama Macabra

Um Corpo que Cai

Disque M para Matar

Psicose


Os Pássaros

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