A jornada de Ogen Shak, fugiu a pé do Tibete e reconstruiu a vida em Três Coroas, no RS

Fotos: Júlio Cordeiro

O primeiro contato com Ogen Shak, 37 anos, não tem nada demais. É um oriental como qualquer outro, com olhinhos puxados e seus cabelos negros e lisos. Às vezes veste um traje esquisito, colorido. Outras vezes, veste jeans e camiseta. Recebe toda a gente com um sorrisão, braços abertos. A coisa começa a ficar diferente, incrível até, quando o interlocutor tem tempo e interesse para puxar um papo com esse cara de sotaque estranho e semblante sereno e feliz. A história dele não é como qualquer outra. Ele não é como qualquer outro.

Tibetano de nascimento, Ogen Shak personifica um drama que assola seu país há mais de 60 anos: a ocupação chinesa, iniciada em 1950. Aos 16 anos, encarou uma aventura que parecia possível apenas em filmes. Atravessou o Himalaia a pé, carregando dois irmãos menores, para fugir do Tibete em direção à Índia. Viu a morte de perto. Quase foi colhido por ela. Mas conseguiu escapar. Chegou a uma cidade perto de Dharamsala, onde pôde, finalmente, conhecer e viver sua religião e sua cultura. Artista plástico especializado em arte sacra tibetana, há sete anos veio para o Brasil ornar o templo de São Paulo. Em passagem pelo Rio Grande do Sul, onde realizou pinturas no templo de Três Coroas, conheceu seu grande amor, uma gaúcha que vivia no santuário budista. Casaram, deixaram a vida monástica e abriram um restaurante tibetano ali mesmo, na cidade serrana, perto do templo. E vivem, juntos, a melhor parte desta aventura: um filme finalmente feliz, que está bem longe do final.

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Ogen é um sujeito, segundo ele próprio, tipicamente tibetano: bem-humorado, engraçado e muito curioso. Adora uma conversa com o pessoal que vai conhecer o restaurante. Mas, normalmente, o papo não versa sobre as agruras que viveu para deixar o país natal. A não ser que o visitante puxe o assunto. Caso contrário, ele vai contar sobre a cultura tibetana, sobre o budismo que pratica e os ensinamentos de sua religião, sobre a sua felicidade em viver no Brasil. E sobre a comida, claro. Foi o que fez com a reportagem de Donna em uma fria e ensolarada tarde. Entre uma história e outra, falava sobre as iguarias que aprendeu a cozinhar na infância e, naquele momento, nos servia com orgulho, como se nos entregasse um pouco de si e de sua trajetória naqueles pratos.

Comida, aliás, sempre foi uma das paixões de Ogen, ainda no Tibete.

– Nós aprendemos a cozinhar na escola e em casa, faz parte da cultura. Meu pai é um excelente cozinheiro, então, herdei isso dele.

As delícias que o pai preparava em casa, com a família, eram – e ainda são – a principal representação das suas saudades. Há anos não vê os pais, que vivem exilados na Índia, nem os irmãos. Há um ano, Ogen e Adriana, sua esposa, tentam legalizar os documentos de um dos irmãos para trazê-lo ao Brasil, para ajudar na administração do restaurante. Mas o visto de entrada do tibetano ainda não saiu.

Nada disso, no entanto, tira do “tibeteno”, como ele se define, a felicidade.

– Sou muito feliz aqui no Brasil. Tenho comida, casa, tenho esse restaurante. Tenho a minha mulher, a minha liberdade. Sou muito, muito feliz – sorri.

:: No blog De Lima e Limão, a repórter Pati Lima conta os bastidores da reportagem

Uma felicidade que brota de coisas tão singelas é possível graças às práticas budistas e, especialmente, graças a tudo o que o cozinheiro-artista já viveu. Separado da família aos 16 anos, ele lembra com muita emoção o momento mais comovente que enfrentou. No meio da noite, na cidadezinha em que morava, o pai e a mãe levaram ele e dois irmãos pequenos (um menino de seis anos e uma menina de três) a um local de onde partiria um caminhão com outros fugitivos. Devido ao controle imposto pelos chineses, os cidadãos tibetanos não têm licença para deixar o país sem autorização do governo.

– Entramos naquele caminhão com umas 30 pessoas, que também iriam fugir. Eu não entendia o motivo daquilo, mas cresci vendo o meu pai dizer que não podíamos viver sob a dominação chinesa. O sonho dele era que deixássemos o Tibete para poder aprender, de fato, o que é ser tibetano. Na hora em que o caminhão partiu, vi meu pai e minha mãe acenando para nós, no meio daquela noite escura. Pensei que poderia nunca mais vê-los. Foi a coisa mais triste que eu já vivi.

 

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Artista plástico especializado em arte sacra tibetana, Ogen veio ao Rio Grande do Sul para realizar pinturas no templo localizado em Três Coroas e daqui nunca mais quis sair

O caminhão levou os fugitivos até certo ponto, de onde eles deveriam seguir a marcha a pé. Estava ali a dolorosa experiência que o faria repensar o conceito de felicidade. Junto com os demais, Ogen e os irmãos caminharam por cerca de 30 dias, cruzando a cordilheira do Himalaia. Contornaram o sopé do Monte Everest, arrastaram-se por quilômetros sobre a neve para evitar os perigos invisíveis do gelo. Não falavam alto, pois o eco das vozes poderia provocar avalanche. Não urinavam sem proteção, pois o líquido poderia congelar na uretra. Não caminhavam durante o dia, pois corriam o risco de serem vistos pelo exército chinês.

– Um dia, estávamos dormindo em cima do gelo e ouvimos vozes. Estávamos escondidos, mas os chineses chegaram muito perto, deu pra ver as armas deles.

Com o passar do tempo, a comida foi ficando escassa e o frio parecia cada vez pior. Os carregadores, pagos pelas famílias dos refugiados para ajudá-los na travessia, fugiram com suprimentos e dinheiro.

– Sobrou uma coberta. Eu enrolava meus irmãos nela, mas não tinha mais nada para me cobrir. Era gelo demais.

Uma noite, antes de seguir a marcha, uma menina continuava dormindo, mesmo depois de todos estarem prontos para o caminho. Ogen reparou que ela estava encolhida.

– A menina estava morta. Foi um choque. Nunca tinha visto uma pessoa morta. Uma das monjas fez uma rápida cerimônia e seguimos em frente. Depois, mais gente morreu.

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Ao chegar à fronteira com o Nepal, o grupo, já reduzido, pediu ajuda à polícia nepalesa. Alguns policiais, no entanto, exigiram dinheiro ou as mulheres do grupo para fazer sexo – o que seria uma ofensa gravíssima. Sem ajuda, a marcha tornou-se ainda mais implacável.

– Muitos amigos perderam as mãos, os pés, teve gente que perdeu os braços por causa da gangrena.

Ao serem resgatados por um grupo de ajuda humanitária, em território nepalês, os fugitivos estavam no limite das forças. Ogen tinha gangrena nos membros e estava extremamente fraco. Durante um ano, se recuperou em um hospital para refugiados, no Nepal, onde fez várias cirurgias para enxertar tecido saudável nas partes do corpo atingidas pelo gelo. Também teve os dedos de um pé amputados.

– Sei que um americano financiava aquilo tudo. Cheguei a vê-lo por lá, mas não consegui falar com ele. Meu sonho é poder agradecer tudo o que ele fez, dizer que devo minha vida a ele. Eu amo esse cara!

Com a saúde reconquistada, Ogen partiu para a Índia, onde os irmãos pequenos já estavam. A família se reencontrou e o tibetano pôde, então, começar mais uma jornada.

 

Experiência do Tibete

Mas, afinal, o que é um restaurante tibetano? A resposta é bem menos óbvia do que um lugar para degustar a comida do Tibete. Sim, lá se pode saborear os pratos típicos do país, mas a experiência de passar algumas horas no Espaço Tibet vai bem além disso.

Na chegada, o visitante é, normalmente, recepcionado com um chazinho tibetano para acalmar o espírito e preparar o apetite. Como entrada são servidos os momos, pequenas trouxinhas de massa recheadas com legumes, frango, cogumelos ou batata. Depois, a escolha depende do gosto do comensal. Engana-se quem pensa que só vai encontrar coisas esquisitas e muito diferentes dos paladares com os quais estamos habituados. É tudo normal, só que com um toque tibetano.

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Um dos destaques do cardápio é o Racha, pernil de cordeiro com molho de cravo, cujo segredo é a pimenta sichuan, cultivada nos montes do Tibete. Outra delícia é o Chamô Chow Mein, uma espécie de cozido feito com cogumelos shimeji, legumes e massa crocante, com um toque de manteiga. Para quem gosta de peixe, o Salmão Tashi Ling é irresistível, com molho de maracujá e acompanhado de arroz flambado com manteiga e castanhas. De nome complicado mas sabor dos mais agradáveis é o Chasô Niandu Chua, um filé grelhado com molho de queijos e servido com arroz de açafrão e batatas temperadas com ervas. Depois de provar tudo isso, a equipe de Donna mergulhou ainda mais profundamente na incrível história do cozinheiro que nos apresentava cada prato.

Como Ogen Shak gosta de enfatizar, o Espaço Tibet quer recuperar a essência do Tibet antigo, mas sem se desligar do que é moderno. Por isso, o cozinheiro criou uma versão brasileira dos momos para a sobremesa: Momo de Brigadeiro, recheado com um dos doces mais queridos dos gaúchos. Mousse de rosas e arroz doce do Himalaia também estão entre os doces do menu.

– Muita gente me pergunta por que comemos e servimos carne, se somos budistas. A resposta é que o budismo tibetano não obriga ninguém a comer ou a não comer. Para nós, todas as formas de vida têm a mesma importância. O que pregamos é a consciência do que comemos, o respeito ao alimento e aos que sofreram para produzi-lo. Com isso em mente, podemos comer qualquer coisa – explica Ogen.

Depois do banquete, é hora de conhecer um pouco mais da cultura do país do nosso anfitrião. Na lojinha, velinhas em forma de flor de lótus e rodas de oração tibetanas são vendidas, junto com os CDs de música tibetana gravados por Ogen Shak. O cara também canta? Sim, ele canta. E adora música. Além de Beatles e Rolling Stones, diverte-se cantando as músicas sacras e tradicionais de seu país. Para finalizar o dia, um passeio revigorante pelo jardim onde ficam expostas algumas telas de arte sacra tibetana e as estátuas de Buda. Impossível não voltar para casa com a lembrança de sabores e de pessoas incríveis.

Para conhecer:
Espaço Tibet
www.espacotibet.com.br
De quarta a sexta, das 12h às 15h e das 20h às 23h.
Sábados, das 12h às 16h e das 20h às 23h.
Domingos e feriados, das 12h às 16h.
Rua Alagoas, 361, Bairro Águas Brancas, Três Coroas – RS
Telefone: (51) 3546-5763 e 9678-3184

Carinho de mãe

Um dos pratos mais tradicionais trazidos por Ogen Shak do Tibete é o Momo. Fala-se assim mesmo: momo. Ele conta que a palavra quer dizer algo como “carinho de mãe”, uma coisinha que as mães preparam para mimar os filhos. Prato milenar da culinária tibetana, o momo tem feito muito sucesso no Espaço Tibet. Tanto que, em alguns dias, a casa oferece rodízio de momos. E como Ogen nem pensa em guardar os segredinhos só para ele, detalhou a receita de Momo de Galinha para os leitores da revista Donna.

:: Aprenda a fazer o momo e o racha, iguarias clássicas do restaurante Espaço Tibet

Oi, quer namorar comigo?

O encontro de Ogen com Adriana, 41 anos, não foi exatamente uma cena romântica. Moradora do templo budista de Três Coroas havia 14 anos, Drika, como é conhecida, trabalhava recepcionando os visitantes e organizando os rituais e práticas. Um dia, viu um sujeito de fala enrolada por lá. Foi falar com ele porque viu, em suas mãos, um computador igualzinho ao que vinha querendo comprar havia algum tempo. Depois de se conhecerem um pouco mais – mas não muito mais -, ele foi direto ao ponto e tascou a pergunta do título. Sem delongas.

– Os tibetanos não têm esse nosso romantismo, é diferente – conta Drika, que ficou um pouco desconfiada, mas aceitou o pedido.

Apesar das visitas frequentes a Três Coroas, Ogen continuava morando em São Paulo. O namoro ia bem, mais por telefone do que ao vivo, quando veio a notícia de que ele poderia ser deportado. O casamento, que já estava nos planos dos dois, foi acelerado. Meio impulsivamente, meio por orientação dos astros e dos mestres espirituais de ambos, Ogen e Drika se casaram. Ela deixou o templo para viver com o marido e o filho de um relacionamento anterior.

– Eu nunca quis me casar. O mais importante para mim sempre foi a busca espiritual, a minha caminhada. Sempre fugi da possibilidade de compromisso. Mas tudo mudou quando conheci o Ogen. Ele é um mundo novo para mim, é algo com que eu nem sonhava, mas que me deixa muito feliz – afirma Drika.

Ogen comenta que os tibetanos encaram o casamento de forma bastante diferente. Não se unem por uma paixão avassaladora, mas por um sentimento de concordância entre espíritos afins e pelo companheirismo. E, diferentemente dos ocidentais, raramente se separam.

– Ela é minha companheira, a quem vou ajudar no sofrimento. E ela vai me ajudar no meu sofrimento. Isso é o nosso amor – derrete-se ele.

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Todos os planos e sonhos do casal giram em torno do sucesso do restaurante, aberto há cerca de três anos. Ali, mais do que a culinária, Ogen quer mostrar um pouco da cultura do seu país. Além dos sabores, quer divulgar a arte, o artesanato e a medicina tibetana entre os gaúchos. Sente que sua missão é ajudar a preservar a cultura que, em sua terra natal, está ameaçada.

Para Drika, acompanhar o marido nessa empreitada é um enorme desafio, com muitas recompensas pelo caminho. Tanto que toda a responsabilidade pela parte administrativa e burocrática do Espaço Tibet é dela. E, enquanto ajuda Ogen a realizar sua missão, aguarda que, quando chegue a hora, ele faça o mesmo por ela:

– Meu sonho é terminar meus dias em retiro espiritual, realizando as práticas budistas e buscando a iluminação. E ele vai comigo.

 

Depois de um relacionamento à distância, o casamento com Adriana foi acelerado para evitar que Ogen fosse obrigado a deixar o Brasil
Conflito sem fim

O motivo pelo qual Ogen Shak e outros tantos milhares de tibetanos fugiram é a ocupação de seu país pela China, em 1949, no início da revolução comunista liderada por Mao Tsé-Tung. O conflito entre chineses e tibetanos pelo valioso território, no entanto, não é novo. No século 13, o império mongol conquistou a região, que voltou ao controle dos tibetanos tempos depois. Em 1720, durante a dinastia Ching, o Tibete foi conquistado novamente, ficando sob o poder dos chineses até o início do século 20, quando esta dinastia caiu. Com ascensão do comunismo, o território voltou a ser invadido.

Com isso, a religião e a cultura tibetanas ficaram suprimidas. De acordo com a organização internacional Free Tibet, que luta pela libertação do país, o exército chinês destruiu milhares de templos e assassinou monges, para enfraquecer a religiosidade do povo, que é a base da resistência que perdura até hoje.

Impedido de exercer sua liderança, o Dalai Lama, líder espiritual e político do Tibete, refugiou-se na Índia, de onde comanda a resistência. Quem ficou no país, como a família de Ogen, não pode praticar livremente sua religião nem seu estilo de vida, voltado ao cultivo da terra. O trânsito também não é livre entre os países – motivo pelo qual Ogen e seus irmãos precisaram fugir a pé pelo Himalaia.

O conflito entre tibetanos e chineses ficou evidente às vésperas da Olimpíada de Pequim, em 2008, com uma onda de protestos em várias partes do mundo, especialmente em Lhasa (foto) e Pequim. Os tibetanos foram às ruas para lembrar o maior levante contra a China, que ocorreu em 1959. O episódio conhecido como Levante Nacional Tibetano deixou 87 mil mortos e provocou a fuga do Dalai Lama para a Índia. Atrás dele, estima-se que tenham ido mais de 100 mil tibetanos.

Em um estudo recente, a organização internacional Human Rights Watch estima que o governo de Pequim tenha obrigado mais de dois milhões de tibetanos a deixarem suas casas e se alojarem em aldeias socialistas. A ONU já se pronunciou contrária à ocupação violenta do território, mas a manifestação não surtiu qualquer efeito prático. Tenzin Gyatso, o 14º Dalai Lama, instalou-se em Dharamsala a convite do governo indiano e, de lá, iniciou uma luta pacífica e de alcance mundial em favor dos direitos humanos e, em especial, pela autonomia do Tibete. Em 1989, ganhou o Prêmio Nobel da Paz, conferindo ainda mais visibilidade à causa que, ainda hoje, defende.

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